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Futebol
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Para Muricy, Flu não seria campeão brasileiro sem Washington

Treinador ressalta valor do ex-atacante, fala sobre a família e diz que recusar a seleção foi duro demais

Marcello Pires, iG Rio de Janeiro |

Para quem nunca teve contato com Muricy Ramalho, a figura de um sujeito sisudo, mal-humorado e de discurso autoritário se justifica. Dono de palavras duras e gestos espontâneos à beira do campo, ele passa uma imagem distorcida da realidade. Mas basta meia hora de prosa com o treinador do Fluminense para descobrir que o técnico com pinta de bravo não passa de um cara boa praça, bom de papo e que adora cozinhar.

Se como cozinheiro o técnico do Fluminense reconhece que ainda é um principiante, no futebol ele pode ser considerado um fora de série. Jogador talentoso nos anos 70, Muricy tornou-se o técnico mais cobiçado e vitorioso do país desde que os pontos corridos foram implantados, com quatro títulos em cinco Brasileiros disputados. Aos 55 anos, ele aprendeu que o futebol é traiçoeiro, por isso não esquece de agradecer a um jogador em especial pela conquista de 2010.

“O Washington foi importante demais. É que os caras esquecem. Futebol é muito difícil e dá as costas para você rapidamente. O que ele ajudou quando o Fred estava fora, foi brincadeira. Se ele não viesse, a gente não tinha conquistado o título. Nós ganhamos muitos jogos com ele. Ele fez gol direto. As pessoas esquecem, mas eu não”, elogiou Muricy Ramalho.

Caseiro, simples e apaixonado pelo trabalho, ele não enche o saco de jogador, mas exige comprometimento e responsabilidade dentro de campo. Considerado rebelde na sua época de boleiro, Muricy faz vista grossa para a indumentária de seus atletas. O uso de brinco, cabelos compridos, calças rasgadas e celulares pouco importa para o treinador, mas basta uma pisada na bola para o cara perder sua confiança e ficar fora de seus planos.

Longe da mulher Roseli, com quem está casado há 32 anos, e dos filhos Fabíola, Muricy Junior e Fábio, o treinador abre o coração e reconhece que a distância da família é o único adversário capaz de lhe derrubar. A preocupação em dar bons exemplos é tão grande, que nem o convite para treinar a seleção brasileira fez ele driblar sua consciência e mudar sua conduta.

“Foi a decisão mais difícil da minha vida e eu fiquei mal uns três dias, mas cada um tem sua linha e eu vivo bem assim. Eu nunca quis ser exemplo para ninguém, mas para minha família eu tenho que ser e quero que eles tomem atitudes corretas. Não podia aceitar o convite da CBF e abandonar o Fluminense”, explicou Muricy.

Acompanhe abaixo a entrevista exclusiva na íntegra concedida por Muricy Ramalho durante a pré-temporada do Fluminense, em Mangaratiba.

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Muricy ressaltou a importância de Washington na conquista do título do Campeonato Brasileiro

iG: Você já trabalhou em vários lugares, inclusive em outros países, e muitas vezes não conseguiu levar sua família. Como é essa vida de cigano e dono de casa quando você está longe da sua mulher?
Muricy Ramalho: Para quem é caseiro, é complicado. Minha família é muito importante. Mas tem horas que o cara tem que ir atrás das coisas. Meus filhos não podem ficar indo comigo porque ainda estão na faculdade, um é noivo, mas a gente vai levando. Mas é difícil. Eu tenho uma esposa que está comigo há 32 anos e que segura bem a barra. Ela fica um tempo no Rio comigo e depois volta para São Paulo. O que eu mais sofro é chegar em casa e não ter ninguém.

iG: Mas ela não mora com você por opção?
Muricy Ramalho: Não, por causa dos filhos. Eles ainda moram em casa, ninguém casou ainda e ela tem que cuidar deles. A mais velha tem 28, o do meio 21 e o mais novo 16. Mas agora ela vem para cá e vai ficar uns dez dias comigo.

iG: Qual o nome dela?
Muricy Ramalho: Roseli.

iG: E ela é sua parceira mesmo?
Muricy Ramalho:
É. Estamos juntos há 32 anos, desde garoto. Nos conhecemos no bairro mesmo. Ela é parceira e me dá muita força, nas horas boas e nas ruins. Treinador está sempre sozinho.

iG: O que o Muricy gosta de fazer quando não está trabalhando ou pensando em futebol?
Muricy Ramalho: Como eu moro perto da praia, gosto de andar no calçadão. Quando eu chego em casa fico fazendo minhas bagunças na cozinha (risos). Só para passar o tempo. Não sou grande cozinheiro, mas eu invento. Eu gosto de ver esses programas de comida. Quando tem algum lançamento eu anoto tudo e depois tento fazer parecido.

iG: E isso dá certo? (risos)
Muricy Ramalho:
Tem hora que dá certo, cara.

iG: E você convida alguém para comer com você?
Muricy Ramalho: Eu convido o Tata e o Cláudio que estão sempre comigo nos clubes. Eles são obrigados a ir porque são meus auxiliares. E ainda tem que falar que está bom, senão já viu. Mas eles não têm reclamado ultimamente. Primeiro eu faço para mim e depois eu convido eles. Eu faço um risoto legal, é minha especialidade.

iG: Todo mundo diz que você está muito mais tranquilo e leve desde que veio para o Fluminense. O que você acha que realmente mudou com sua vinda para o Rio de Janeiro?
Muricy Ramalho: Na verdade eu estou mais tranqüilo de uns anos para cá. É a idade. Tenho 55 anos hoje e a gente vai acalmando. Vai amadurecendo, entendendo melhor as coisas e ficando mais compreensivo com as pessoas. Claro que a qualidade de vida do Rio também ajuda. Eu moro num lugar que é brincadeira. Em frente à praia, as pessoas aqui são muito mais light, bem diferente de São Paulo. São Paulo é uma loucura, trânsito todo dia, as pessoas estressadas. Isso tudo ajuda a acalmar o cara. Todo dia eu caminho perto do mar.

iG: O técnico da seleção brasleira feminina de vôlei, José Roberto Guimarães, disse uma vez que ele aceita crítica numa boa do jornalista que acompanha seu trabalho no dia a dia, mas que se irritava muito quando lia em algumas colunas críticas de jornalistas que jamais tinham acompanhado um treino dele sequer. É isso que mais incomoda um treinador?
Muricy Ramalho: Isso incomoda um pouco. Uma vez no São Paulo eu estava fazendo um treino para posicionar o time que iria jogar, mas estava ligado em tudo que estava acontecendo. E enquanto eu estava dando o treino, os jornalistas estavam de costas, comendo bolacha, dando risada, naquela farra. Quando entrei na coletiva um cara perguntou qual o time que jogaria. Eu falei que não iria falar. O cara passa o treino todo de costas e só na coletiva ele se interessa em saber o time que vai jogar? Isso não existe. Os caras vivem disso. É esse tipo de pessoa que solta uns comentários que não têm nada a ver.

iG: Quando chegou no Fluminense você disse que além de disputar títulos gostaria de deixar um legado. Você já disse que máquina não ganha jogo, mas que ajuda. Até que ponto você acha que estrutura é fundamental para um bom trabalho?
Muricy Ramalho:
Não é que ganha jogo, mas ajuda a manter o time na ponta. Nós ganhamos agora, mas a gente precisa de uma estrutura melhor para se manter. Nós tivemos muitas contusões esse ano, mas nossa recuperação estava sempre prejudicada porque nossa estrutura não é boa. Nossos profissionais são excelentes, mas tem dias que os caras têm que sair pela cidade pedindo uma academia ou uma piscina aquecida para treinar. Isso faz a diferença. O clube que tem um Centro de Treinamento tem a sua própria alimentação. A gente demora demais para recuperar jogadores. Nosso campo tem buraco e o jogador faz o movimento errado. Nós ganhamos o campeonato, mas podíamos ter tido mais facilidade.

iG: O que você acha do novo presidente?
Muricy Ramalho: Tem vontade. É um cara jovem que está com muita vontade de trabalhar. Ele não tem muita experiência no futebol, a gente percebe que ele não é do meio, mas ele é um cara inteligente, estudado e quer melhorar a estrutura do clube. Tem uma mentalidade boa e tem esse lado bom de querer melhorar. Vamos usar a vontade dele com a nossa experiência.

iG: Você sempre fala muito de família, inclusive no episódio da seleção brasileira. Como é o Muricy pai?
Muricy Ramalho: Sou muito preocupado com meus filhos. Por isso que de vez em quando eu tomo umas atitudes. Eles adoram futebol e são são-paulinos. Na época que eu estava no Inter, o pessoal do São Paulo tentou me levar para o Morumbi três vezes e eu dizia para os caras que não podia sair naquele momento. Eles ficavam bravos, diziam que eu era maluco, que não queria voltar para o nosso time, para nossa casa. Eu dizia que não era louco, apenas queria ensinar a eles que temos que cumprir o que a gente assina. Eu nunca quis ser exemplo para ninguém, mas para minha família eu tenho que ser e quero que eles tomem atitudes corretas. No futebol, as pessoas são descartáveis. Não pode ser assim. Aconteceu o mesmo na seleção e eles disseram que eu tinha que ser internado, que estava completamente louco (risos). Foi uma surpresa porque eu não falei para ninguém que iria conversar com o pessoal da CBF, só minha mulher sabia. Eu acho que você não pode dar as costas para as pessoas.

i G: E como foi ter que tomar aquela decisão e acabar com o sonho de dirigir a seleção numa Copa do Mundo em seu país?
Muricy Ramalho: Não foi legal, me senti mal uns três dias. Era um puta sonho que eu tive que desistir. Os caras me perguntaram na reunião se estava tudo certo, e eu disse que sim. Mas que tinha um pequeno problema, o Fluminense. Eu achei que os caras fossem ligar para o clube e resolver o problema, mas isso não aconteceu. Mas eu não podia ir contra a vontade do clube. O Celso Barros ficou três anos tentando me levar para o Fluminense e eu não podia sair no meio do trabalho. Para piorar, no dia que eles me procuraram no estacionamento do Maracanã a gente tinha assumido a liderança do Brasileiro. A torcida confiava em mim, os jogadores também, o patrocinador fez um enorme esforço para me trazer. Eu simplesmente não podia aceitar o convite e pronto. Não pode ser assim. Mas era um sonho, a seleção, o melhor lugar do mundo? Era, eu sei. Lá se trabalha pouco, você tem reconhecimento mundial, não vai ter a pressão de disputar as eliminatórias e eu iria ter apenas o trabalho de montar um time para a Copa de 2014. Eu teria a maior moleza do mundo, mas não pode ser assim. Eu não tenho esse perfil. Fiquei mal, mas você tem que ser aquilo que é e no momento mais complicado da minha vida, eu não mudei.

iG: Foi a decisão mais difícil da sua vida?
Muricy Ramalho : Claro que foi. Mas cada um tem sua linha e eu vivo bem assim. Para minha mulher não foi surpresa nenhuma. Ela disse que sabia que eu teria essa atitude. Eu fiquei mal em relação a minha carreira uns três dias, mas fiquei bem com a minha consciência. Minhas atitudes sempre são assim, eu nunca tenho dúvida. Mas a Seleção está bem nas mãos do Mano.

iG: Você acredita que o título veio como retribuição pela sua atitude?
Muricy Ramalho: Isso é Deus, não tem jeito. O cara faz as coisas corretas aqui embaixo e o cara lá em cima te dá um prêmio. Pode demorar porque era um campeonato difícil, mas o homem lá de cima nunca falha.

iG: Nas peladas da comissão técnica você nunca está presente. Você não joga mais bola?
Muricy Ramalho: Eu não jogo porque tenho medo de contusão. Eu já me machuquei muito. Eu tenho até condições, mas não gosto de jogar. Eu corro, ando, faço exercícios, mas não tenho mais essa vontade não. Joguei minha vida toda.

iG: O Washington anunciou em Mangaratiba o fim da carreira. O que você aprendeu nessa convivência com ele?
Muricy Ramalho: Aprendi que a pessoa não pode se entregar por qualquer coisa. O cara é um exemplo. Se o problema que ele teve há dez anos fosse com outro jogador, com certeza já teria se entregado. Ele é um cara peitudo para caramba, foi muito determinado, corajoso demais. E o que chama atenção nele é que apesar dos problemas no coração, ele nunca se machuca, treina muito e não reclama de nada. Com os problemas que ele teve, era um cara que poderia pedir para não treinar de vez em quando, dar aquele migué. Mas não, ele nunca me pediu para ficar fora de um treinamento. Quando você tem um exemplo deste no time, como o Rogério Ceni no São Paulo, passa um exemplo bom e motivo os outros jogadores. Ele trabalha, não se esconde e é um exemplo de homem.

iG: Você ficou triste com a decisão dele?
Muricy Ramalho: Ele faz falta. Eu vejo muito o lado do atleta. Se o cara tem uma proposta pra sair para a Arábia para ganhar dinheiro, eu não breco o cara não. Eu deixo ele ir e arrumo outro. Eu não discuto jogador publicamente, não adianta me cutucar e dizer que o fulano está mal. Mas tem treinador que discute o jogador ou joga pra cima do árbitro para se defender. Eu não faço isso, eu seguro a bronca. O cara é trabalhador e isso é muito importante. Eu não encho o saco dos caras, se usa brinco, celular, calça rasgada. Eu não sei nem os quartos que os eles ficam nas concentrações. Eu sempre estou num andar diferente e não fico atrás deles. Isso é confiança. Eles ficam à vontade, uns levaram até as esposas. Mas eles sabem que comigo vacilou uma vez, está fora. E eu tenho essa confiança no Washington. Quando o Celso me chamou e disse que tinha a chance de trazer ele de volta, eu mandei trazer na hora.

iG: Você acha que ele foi importante no título brasileiro?
Muricy Ramalho: Demais, muito importante. É que os caras esquecem. Futebol é muito difícil e dá as costas para você rapidamente. O que ele ajudou quando o Fred estava fora, foi brincadeira. Se ele não viesse, a gente não tinha conquistado esse título. Nós ganhamos muitos jogos com ele. Ele fez gol direto. As pessoas esquecem, mas eu não. Por isso eu acho que a decisão que ele teve foi correta. Parou por cima, campeão, com saúde.

iG: Todo mundo comenta da amizade desse grupo e na despedida do Washington isso ficou claro com o carinho de alguns jogadores durante a coletiva. Você acha que isso é um dos diferenciais desse elenco?
Muricy Ramalho: Eu acho que sim. Aqui a gente não precisa mandar os caras fazerem as coisas. Aquela atitude partiu deles, não estava programada. Cada um tem sua liberdade e suas responsabilidades. Eles decidiram ir lá e abraçar o cara porque é parceiro. Ninguém é bobo de não saber que os caras gostam de uma baladinha. Os caras são jovens. Eu também faço, vocês também, qual o problema? Eu tomo minha cervejinha, mas eles têm suas responsabilidades. Esse é um grupo fácil e consciente. Sabem que tem liberdade, mas com compromisso. Eu não sou um grande motivador, e sim um grande cobrador.

iG: Você teve uma relação de anos com o Telê Santana, que é um dos maiores personagens da história do Fluminense. Você um dia imaginou que trabalharia no clube do coração dele?
Muricy Ramalho: Nunca imaginei. Ele não era muito de conversar, bravo para caramba e as vezes ficava uma semana sem cumprimentar as pessoas. Mas quando ele sentava para conversar de futebol, ele sempre falava do Fluminense. Ele tinha um carinho enorme pelo Fluminense. Mas eu naquela época era apenas auxiliar dele e nem imaginava que um dia fosse ser treinador do Fluminense. Eu tive uma relação muito próxima com ele. Eu convivi com a fase boa dele e a ruim. Eu vivi os dois lados e tive uma escola muito boa. Ele primeiro foi meu treinador, mas o São Paulo tinha um projeto de formar um treinador para substituir o Telê e ele me convidou. Aí eu vi o lado mais duro que foi o começo da doença dele. Nem a família viu o que eu vi. Foi duro demais, porque ele era saudável, acordava às 6h da manhã para ficar no CT cuidando das coisas e de repente começou a esquecer as coisas, nas preleções. Eu falava que ele tinha que procurar um médico, ele ficava bravo e mandava eu cuidar da minha vida (risos).

iG: Você acha que chegou a hora de conquistar a Libertadores?
Muricy Ramalho: É um título que eu estou atrás tem um tempo e cheguei pertinho com o São Paulo. Perdi justamente para o Internacional que eu tinha montado antes. É um titulo que eu procuro, mas não é uma loucura. É uma competição muito difícil, este ano mais difícil ainda porque todos os times brasileiros estão muito fortes.

iG: O que você gostaria de ser se não fosse treinador?
Muricy Ramalho: Essa é uma pergunta difícil. Eu não conseguiria ficar longe do futebol e acho que seria dono de escolinha de futebol. Ou então cozinheiro, porque vivo assistindo esses programas de comida. Esse negócio de comida é comigo mesmo.

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