Presidente do Mogi Mirim, meio-campista havia anunciado que defenderia clube do interior durante o Campeonato Paulista

Nos bancos da Praça Rui Barbosa, a inesperada transferência de Rivaldo para o São Paulo é assunto recorrente. Nas mesas do Bar do Zito e do Bar do Tina, dois dos principais pontos de referência de Mogi Mirim, é a mesma coisa. Em visita à cidade de aproximadamente 90 mil habitantes na última quinta-feira, um dia antes da apresentação do meia no São Paulo, foi comprovado o clima de animosidade de boa parte dos torcedores em relação ao jogador.

Rivaldo brilhou com a camisa do Mogi no início da carreira. No Campeonato Paulista de 1993, sob o comando do técnico Oswaldo Alvarez, integrou o chamado Carrossel Caipira ao lado de nomes como Válber e Leto. Na mesma temporada, marcou um histórico gol do meio-campo diante do Noroeste. Em 2008, já consagrado e com passagens por Milan e Barcelona, o pentacampeão do mundo assumiu, à distância, a presidência do Mogi Mirim após a morte de Wilson Fernandes de Barros.

O jogador retornou ao Brasil no final de 2010, após defender o Bunyodkor, do Uzbequistão, a princípio apenas para administrar o Sapão, mas em seguida anunciou que disputaria o Campeonato Paulista desta temporada com a camisa do clube. Assim, a pacata cidade localizada a pouco mais de 150 quilômetros de São Paulo entrou em polvorosa e passou a contar os dias para ver o ídolo com a camisa 11 novamente.

Através de um programa batizado de "Casa Cheia", um carnê com ingressos para todos os jogos em casa do Mogi Mirim na primeira fase do Campeonato Paulista passou a ser comercializado. O bilhete traz a foto de Rivaldo com a camisa do clube acima da seguinte frase: "Eu voltei, agora é a sua vez". Revoltados, alguns dos torcedores que compraram as entradas estudam a possibilidade de entrar na Justiça para reivindicar a devolução do dinheiro investido.A transferência também gerou desconforto entre os patrocinadores do time.

A seguradora Unimed espalhou outdoors em diferentes pontos da cidade, nos quais o meia aparece com a camisa do Mogi. A reportagem tentou ouvir a Isma, que trabalha com sistemas de armazenagem, e a rede de Supermercado Lavapés, dois apoiadores com sede na cidade. A primeira recusou o pedido de entrevista após saber que a transferência de Rivaldo seria abordada e a segunda, simplesmente não retornou.

Rivaldo foi apresentado pelo São Paulo nesta sexta-feita e exibiu a camisa 10
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Rivaldo foi apresentado pelo São Paulo nesta sexta-feita e exibiu a camisa 10
Em sua apresentação, Rivaldo tentou se retratar com os torcedores do time que preside. "Eu também achei que iria (jogar pelo Mogi) e peço desculpa, mas foi uma coisa que aconteceu. Não foram muitos que compraram (o carnê), acho que entre 400 e 700 pessoas. Mas pensei no lado do Mogi Mirim, fazendo uma parceria com um dos maiores clubes do Brasil e do mundo. Não é para qualquer um colocar o Mogi dentro do São Paulo. Alguns ficaram chateados comigo, mas acho que vão agradecer no futuro", alegou.Wilson Fernandes de Barros assumiu a presidência do Mogi Mirim Esporte Clube em 1981 e permaneceu no cargo até falecer, em 2008. Marcos Barros, filho do ex-mandatário, assumiu o cargo provisoriamente e em seguida passou o comando para Rivaldo. O empresário de 30 anos evitou criticar Rivaldo, que costumava presentear seu pai com camisas dos clubes que defendia no exterior.

"Infelizmente, para os torcedores do Mogi Mirim, o Rivaldo acertou com o São Paulo, mas acho que isso vai ser bom para o Rivaldo e também para o próprio clube. A parceria com o São Paulo pode acabar trazendo bons jogadores e o Mogi só tem a crescer com isso. O Rivaldo também pode amadurecer como dirigente e aprender bastante com a maneira de administrar do São Paulo para presidir o Mogi", explicou Marcos Barros, um dos que compraram o carnê de ingressos.

Uma foto do estádio do Mogi Mirim, então chamado de Wilson Fernandes de Barros, enfeita o hall de entrada da Barros Autopeças. Após o sequestro da filha do ex-presidente, a família resolveu mudar o nome do local para Papa João Paulo II. Na tentativa de retomar a antiga denominação, Rivaldo procurou Marcos Barros, mas a família vetou a ideia. Evangélico, o meia resolveu trocar o pontífice por Romildo Vitor Gomes Ferreira, seu pai, algo que desagradou parte da população.

Marcos Barrou se mostrou compreensivo com Rivaldo a todo momento, menos na questão do estádio. "É uma homenagem para o pai dele e tal... Não sei... Fica um negócio meio pessoal, mas não vejo problema maior, apesar de o pai dele nem saber o que é Mogi Mirim, porque ele faleceu antes de o Rivaldo se tornar jogador. É uma homenagem que ele quis fazer para o pai e temos que respeitar", declarou o empresário, resignado.

A única organizada do Mogi Mirim foi fundada em 1991 e conta com aproximadamente 70 membros. Após atritos da diretoria anterior da entidade com dirigentes do clube, o micro-empresário Marco Aurélio Pinto, 37 anos, assumiu a presidência do grupo. Atualmente, o relacionamento da facção com os diretores do time é bom e rende cotas de ingressos para os jogos, além de ajuda em caravanas.

"Nós, da Mancha Vermelha, independentemente de contar ou não com o Rivaldo, vamos continuar torcendo pelo Mogi Mirim sempre. Pela parceria com o São Paulo, o clube teria algumas vantagens. Para o Rivaldo, como jogador, também acho que vai ser bom. Para os corneteiros que compraram o carnê e estão reclamando, eu digo o seguinte: o carnê foi vendido para os torcedores assistirem aos jogos do Mogi, e não para ver o Rivaldo desfilando no gramado do Romildão", defendeu Marco Aurélio.

Apesar da postura tolerante, a paciência do presidente da torcida tem limite. Antes mesmo da apresentação oficial de Rivaldo, ele avisa que um possível confronto entre São Paulo e Mogi Mirim com o meia em campo não seria tolerado. "Eu acho que ele não poderia nem entrar em campo. Se isso acontecesse, aí sim a torcida ficaria chateada com ele. Imagina o presidente metendo gol no time que ele mesmo preside? Seria esquisito", apontou.

O torcedor pode ficar tranquilo, já que uma cláusula no contrato do meia com o São Paulo o impede de pegar o Mogi. Marcos Antônio Dias, mais conhecido como Marquinhos, diretor do Departamento de Esportes, Recreação e Lazer de Mogi Mirim, é um retrato da divisão provocada na cidade pela polêmica em torno de Rivaldo. Ele recebeu a reportagem com uma camisa vermelha, a mesma cor do uniforme do Sapão, mas não escondeu uma pequena bandeira do São Paulo posicionada ao lado se seu computador. Se lamentou a saída do meia de Mogi, o diretor comemorou o reforço tricolor.

"A gente fica triste pelo torcedor do Mogi Mirim, mas como torcedor do São Paulo é uma grande aquisição. O São Paulo historicamente tem sorte com jogadores de um pouco mais idade: já aconteceu com o Sastre, com o Leônidas, com o Zizinho, com o Toninho Cerezo, com o Amoroso. O São Paulo tem essa tradição (Rivaldo tem 38 anos)", declarou Marquinhos, que torceu por um empate no jogo entre os dois times pelo Campeonato Paulista, mas viu um triunfo por 2 a 0 da equipe da capital no jogo que marcou o início da aproximação de Rivaldo com o time do Morumbi.

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