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Time do Amapá que entrou em campo contra o Grêmio era formado por cinco atletas do AP, três de Minas Gerais e três de São Paulo

Rai, 18 anos, saiu do interior do Amapá, mas sabe que é difícil ser jogador
Marcel Rizzo
Rai, 18 anos, saiu do interior do Amapá, mas sabe que é difícil ser jogador
Cutias do Araguary é uma cidade do interior do Amapá de apenas 3.700 habitantes, está a 106 km da capital Macapá, e vive da agricultura e da pecuária majoritariamente. Foi lá que nasceu Rai Brito Mira, 18 anos. O camisa 9 do Oratório foi um dos cinco amapaenses que iniciou a a partida na derrota para o Grêmio , na primeira rodada do Grupo S da Copa SP, como titular - ao lado dele três jogadores recrutados em uma peneira em Minas Gerais e outros três enviados por parceiros. Apesar de treinamento de quase um mês e meio em Minas e em São Paulo, o entrosamento não é o adequado, admite o garoto.

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“É um pouco difícil, porque você não joga junto. Alguns meninos bons acabaram ficando lá no Amapá, um lateral-esquerdo que joga muito. Mas faz parte”, disse o tímido Rai, que teve uma atuação boa. Apesar de ter perdido por 5 a 0 , o Oratório passou por vexame bem inferior ao Santana, time do Amapá que disputou a Copinha de 2010 e levou de 14 a 0 do Santo André.

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“Nosso projeto, com as parcerias e o período de treino é para melhorar o futebol do Amapá. Em 2010, o time que representou o Estado levou uma surra. Nós, em 2011, ganhamos até um jogo (contra o Vitória de Santo Antão)”, disse o presidente do Oratório, Arlindo Moreira, em defesa de um time “de aluguel".

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A mistura de jogadores de diversas regiões gera situações engraçadas. Na partida contra o Grêmio, quarta-feira, o Oratório, apesar de sua sede ficar a 2.600 km de distância, tinha torcida organizada. Familiares dos jogadores paulistas do elenco estavam no acanhado estádio José Liberatti, em Osasco, na Grande de São Paulo . A mãe de um deles se esgoelava na grade e foi até apresentada aos novos amigos do filho, já que o garoto ficou mais de 30 dias longe de casa treinando.

Em campo, o técnico Romeu Lima optou por “setorizar” a equipe por região, para diminuir o desentrosamento: do meio para frente, cinco jogadores do Amapá, com um mineiro intruso. Atrás somente “estrangeiros”. Isso gerava “cornetada” dos rejeitados que viam o jogo da arquibancada e não foram nem para o banco. “Eu deito no lateralzinho ali”, disse um dos meninos, se referindo a Gustavo, ala direito mineiro.

O goleiro Luiz, importado de Minas Gerais, foi classificado por outro garoto como “lento, mas pula bem”. A tensão entre os diretores do Oratório e amigos empresários que assistiam ao jogo só diminuiu quando o Grêmio mostrou que venceria o jogo e depois que um sujeito apareceu querendo vender, por R$ 70, o DVD da partida. “É bom para apresentar os moleques para os clubes grandes e os empresários”, disse o rapaz, com um cartão da empresa de filmagem nas mãos.

Futuro

Garotos não relacionados assistem jogo no camarote: cornetagem
Marcel Rizzo
Garotos não relacionados assistem jogo no camarote: cornetagem
O Oratório viajou de avião de Macapá, algo raro entre equipes de porte pequeno já que a FPF não custeia transporte – apenas hospedagem e alimentação em São Paulo, poucos dias antes do início do torneio. Com parceiros como a faculdade de Arlindo Moreira, a Meta, um motel, o Governo do Amapá e a Prefeitura de Macapá, 14 pessoas embarcaram para São Paulo, entre atletas, o presidente e comissão técnica. O restante do elenco foi encontrado em São João Del Rey, cidade do parceiro Athletic Club.

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“Ficamos hospedados um mês em Minas, treinando, e mais uma aqui em São Paulo, no Centro de Formação de Soldados da PM, em Pirituba, zona norte de São Paulo. Pudemos assim fazer amistoso com o Nacional e o São Paulo, o que não teríamos em Macapá”, disse Soares.

Em 2011, quando o Oratório também participou da Copinha, somente um garoto, Fabinho, foi sondado. “Mas não houve acerto. Uma negociação não é algo tão simples”, disse Soares.

Rai, o camisa 9, sabe disso. E já sabe o que vai fazer se não for convidado por algum time para ficar em São Paulo depois da Copa São Paulo. “Vou estudar administração. Meu sonho é jogar futebol, mas já estou planejando outras coisas”, admitiu.