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Futebol
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No vestiário, Tite não fala o "titês" e diz não ser brucutu

Técnico do Corinthians julga pejorativa crítica ao seu estilo e diz que sabe baixar o nível, se necessário

Bruno Winckler, iG São Paulo |

Tite é um técnico educado. Raramente se exalta e nesta sua segunda passagem pelo Corinthians, tem uma boa relação com quem faz parte da sua rotina de trabalho. Só um assunto o fez sair do sério nestes cinco meses que está no clube: as piadas sobre seu jeito de falar e se expressar, como ficou claro em uma coletiva de imprensa recentemente.

Em entrevista exclusiva ao iG, o técnico comentou sobre este seu estilo peculiar de lidar com a imprensa e com as entrevistas, razão de ter sido criado um personagem falso no twitter (@adenor_tite) que se faz passar por ele. O técnico reclamou do termo “titês”, usado para definir sua forma polida e cheia de termos raros que emprega diariamente, e diz que pode conversar em todos os níveis. Menos na internet. “Não sou brucutu. Gosto de tecnologia, mas twitter não é para mim”, brinca.

Na primeira parte da entrevista ao iG, Tite ainda lembra da "ferida eterna" pela eliminação da Libertadores , quando temeu pela sua demissão. Ele também comenta sobre os problemas que tem na equipe e a necessidade de reforçá-la para o Campeonato Brasileiro.

iG: Você se exaltou recentemente com as piadas sobre seu jeito de falar. Você se sente marginalizado por tentar falar bem?
Tite: Eu uso termos técnicos, que para mim, são naturais. Sou um profissional que procuro me qualificar, ler bastante, me informar, valorizar minha atividade profissional e que às vezes as pessoas, não sei por quê, pegam no pé. Por exemplo, o futsal. Ele é cheio de termos técnicos. Uma intervenção de um técnico é cheia de termos técnicos, um atrás do outro e aqui, quando coloco, já falam, ‘pô, o cara está complicando’. Uma coisa, que para mim, na hora que passo para o atleta, é clara e ele entende. Talvez pelo meu sotaque do Rio Grande do Sul, pouco usual, se fale mais do jeito que eu falo. Outro dia, num programa de televisão, um colega gaúcho falou 'pragmático'. Uma palavra que significa conservador, mas que não se usa muito, não é muito usual.

iG: Você já ouviu o termo “titês” para definir o jeito que você fala? O que acha dele?
Tite: Eu já vi. Isso é pejorativo. Isso, sim, me irrita. Isso é falta de respeito. Não concordo. Não formato ideias. Sou professor formado. Fui atleta profissional. E qualifico o meu trabalho. Se falarem para eu fazer observações técnicas e táticas, eu vou fazer. Se sentar, para falar em alto nível, eu falo. Se descer para o baixo calão, vamos dentro que eu também tenho como falar. Eu tenho a didática de ensino e a gente pode fazer qualquer que seja a situação. Falar em titês é falta de respeito. Mas se tiver uma brincadeira sadia, ela é do jogo. Faz parte. Desde que seja leve, e não pejorativa, ou ruim.

iG: E seu diálogo com os atletas? Eles entendem o que quer dizer?
Tite: Quando você tem 30, 40 dias de trabalho com um grupo você logo sabe como falar com ele. Que tipo de linguagem é a melhor para falar com eles. Como vai compreender melhor. Que tipo de termos eu uso. Quando eu falo para fazer “marcação sanduíche” o atleta sabe o que é. Num jogo que fizemos tinha um jogador muito bom do outro lado e eu queria que dobrasse a marcação dele. Por isso sanduíche. Não poderia falar para fazer uma marcação dobrada de quem já estava marcando, para surpreender. Mas se falo isso para outro que não está acostumado, vai dizer olha lá, que sujeito enrolado. Com alguns dias de trabalho você usa um termo e na segunda ou na terceira vez que usa um termo o jogador já sabe o que é.

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Treinador corintiano diz se sentir ofendido com piadas sobre seu jeito de falar

iG: Essa polêmica com seu perfil falso no twitter (@adenor_tite) vai fazer você retomar a ideia de ter um perfil oficial para realmente mostrar o que você pensa?
Tite: Não, não. Fiz nove mensagens, como disse outro dia. Isso não é para mim. Não mesmo. Larguei isso. (risos) Mas eu gosto de tecnologia. Não pensem que sou brucutu. Tenho um programa de computador de fazer interatividade nas imagens, chamado E-bin, que talvez ninguém tenha. Gosto de computação em 3D. Eu faço interatividade nas palestras com imagem de jogo. Eu gosto de tecnologia, desde que ela me traga avanço dentro do que gosto, da minha especificidade, da minha profissão. Respeito essas outras coisas, mas não é o meu chão. Meu chão é aqui, o campo e uma tecnologia em que o atleta olhe ali e veja “aquele ali sou eu”. Isso é praxe antes e depois dos jogos. O atleta se vê, ela é muito eficiente, de correção e valorização do acerto.

iG: Raramente você fala de um jogador individualmente. Sempre fala que é o grupo que vence. Essa é uma tática para ter sempre todos os jogadores ao seu lado?
Tite: Eu não desfaço que um atleta vai estar em evidência em um determinado momento, assim como o técnico vai estar em outro, o goleiro, o atacante, o meio-campista. E isso é bom. Mas sempre coloco para eles que só acontece de um jogador ficar em evidência se o grupo estiver fortalecido. Se o grupo não estiver assim, aquela valorização individual que ele tem vai ser muito curta e não vai ser consistente. Então é ser um pouquinho inteligente. Futebol tem o aspecto coletivo. E daqui a pouco vai ter o reconhecimento. Pô, são 25 jogos e 15 vitórias. Aproveitamento extraordinário. Isso é valorização profissional. Se não fizer você é burro. O cara que entender futebol de uma forma excessivamente vaidosa, não solidária, ele não vai vencer. Isso é ter o mínimo de inteligência.

iG: Você está preocupado em perder mais jogadores e ter de passar por mais uma reformulação de equipe já agora, antes do meio do ano?
Tite: Eu deixo claro para todos aqui na diretoria que não dá para mudar muito uma equipe para manter uma sequência de bons resultados. Antes de tornar isso público, eu falo para eles, e por uma questão de respeito também. Tenho de falar isso para as pessoas que me comandam. O presidente, o Roberto, o Edu, o Duílio. Esse foi primeiro pedido que eu fiz. Esse é o terceiro time que estou montando depois de 25 jogos. Esse time precisa jogar, precisa rodar, e agora ele está se ajustando com esse grupo de 14, 15, 16 jogadores que estão alternando titularidade. Ele não pode ser mexido. Se mexer vai andar para trás. Se mexer, vai prejudicar o Corinthians. Se mexer vai desestruturar. Ao invés de dar um passo para frente e procurar consolidar, acrescentar, qualificar, vai dar um passo par trás. Isso para mim é fundamental para que a gente se consolide. Eu não tenho time titular ainda. De repetir zagueiros, meio campistas, está todo mundo pedindo passagem. Quem produzir vai jogar. Então é preciso que esse grupo rode, e jogue junto mais tempo, sem ninguém sair.

AE
Tite conversa com elenco no início da temporada. Para técnico, diálogo com atletas é bom

iG: Você tem retorno da diretoria para saber se isso vai acontecer para o Campeonato Brasileiro?
Tite: O planejamento nosso é o seguinte. Eu e o Edu ficamos voltados para o Campeonato Paulista e nossa necessidade de chegar bem. A outra parte, e eu já passei nomes, fica com a diretoria para projetar e planejar essa busca de atletas, inclusive. Porque a exigência do Brasileiro é muito maior. São 38 rodadas. É preciso ver esses atletas, engrandecer esse grupo, com mais qualidade, pela grandeza que o próprio Corinthians tem.

iG: Você elogia o Wallace, o Paulo André está voltando. Mesmo assim você mantém a prioridade de ter um novo zagueiro?
Tite: Ainda precisamos de três jogadores pelo menos para repor a saída daqueles cinco atletas (Ronaldo, Roberto Carlos, Elias, William e Jucilei) que saíram. Precisamos de quantidade e qualidade. Volto a dizer. Quanto mais o grupo puder competir entre ele com lealdade, mais o nível técnico vai subir.

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