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Futebol
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"Meu corpo me venceu", diz Ronaldo

Atacante confirma problemas de metabolismo na despedida do futebol

Bruno Winckler, iG São Paulo |

Num discurso emocionado, com algumas lágrimas e declarações de amor ao Corinthians, Ronaldo declarou que não joga mais futebol. O agora ex-atacante de 34 anos concedeu uma concorrida entrevista coletiva para mais de 200 jornalistas e não conteve as lágrimas quando lembrou de passagens dos seus 18 anos de carreira. As dores causadas por seguidas lesões e um hipotireoidismo diagnosticado no Milan em 2007 foram as principais causas da sua decisão. “Meu corpo me venceu. Minha cabeça queria continuar, mas não consigo mais”, disse Ronaldo.

“Todos sabem aqui do meu histórico de lesões. Tenho tido nos últimos dois anos uma sequência muito grande de lesões que vão de um lado para o outro, de uma perna para a outra, de um músculo para o outro e essas dores me fizeram antecipar o fim da minha carreira. Há quatro anos atrás no Milan, eu descobri sofria de um distúrbio que se chama hipotireoidismo. Um distúrbio que desacelera o seu metabolismo, e que para controlar esse distúrbio eu teria de tomar hormônios que no futebol não são permitidos. Seriam um doping. Muitos devem estar arrependidos de tanta chacota do meu peso, dos comentários do meu peso, mas não guardo mágoa de ninguém, e tenho de explicar isso no último dia da minha carreira.”

Em setembro de 2010, em entrevista ao iG, o médico do clube Joaquim Grava, disse que Ronaldo nunca teve esse distúrbio. “Já desmentiram isso aí no Milan. Isso é balela”.

Ronaldo confirmou que o Corinthians sabia do seu distúrbio. “O Corinthians sempre soube de tudo. Minha decisão de jogar sempre esteve voltada para o meu coração, meu amor pelo futebol sempre me fez superar barreiras gigantes. O que para uma pessoa normal é difícil para mim, era mais ainda. O hipotireoidismo desacelera seu metabolismo. Sempre quis jogar e enfrentei todos esses sacrifícios para estar em condição de jogar”, disse Ronaldo.

Com 35 gols em 69 jogos pelo Corinthians, Ronaldo agora se declara um torcedor e será um embaixador do clube. “Vou assistir a alguns do time e agora sou um embaixador que tentará levar mais ainda o nome do Corinthians para o mundo”.

Ronaldo falou por 44 minutos. Ao lado dos filhos Ronald e Alex e do presidente Andrés Sanchez, não segurou as lágrimas, que viraram risos só quando seu filho mais novo, Alex, aprontava alguma travessura. “Ele já corintiano. E eu serei para sempre”, disse.

Agradecimento aos clubes, técnicos e jogadores

O Fenômeno se preocupou ainda em agradecer a todos os clubes pelos quais passou desde o início da carreira, no subúrbio do Rio de Janeiro. "Tenho muitos agradecimentos a fazer aqui. A todos os clubes que passei. São Cristóvão, Cruzeiro, PSV, Barcelona, Inter de Milão, Real Madrid, Milan. O Corinthians eu agradeço daqui a pouco", disse, bastante emocionado, antes de se reafirmar um corintiano. "Todos os jogadores que atuaram comigo, que jogaram contra. Todos que foram leais, também aqueles que foram desleais. Treinadores com os quais tive grande relação, com outros que tive divergências de opiniões profissionais."

Ronaldo prosseguiu com os agradecimentos e caiu no choro ao citar a Fiel. "Quero agradecer toda a torcida brasileira que vibrou comigo, que torceu por mim, que chorou comigo quando chorei, que caiu comigo quando caí. Mas dessa torcida em especial a torcida do Corinthians (pausa para choro). Porque eu nunca vi uma torcida tão empolgante e tão apaixonada. Tão entregue assim a um time de futebol, mas algumas vezes essa cobrança por resultados faz dessa torcida um pouco agressiva e fora do controle."

Bem-humorado, o ex-craque afirmou que agora é capaz até de sentir falta das concentrações do Corinthians em Itu, alvos frequentes de suas queixas. "Já estou sentindo saudade até de concentração. Acho que vou pegar minha família e ir para Itu algumas vezes!".

Desculpas pelo fracasso na Libertadores 

Ciente de que nem tudo foram flores na passagem pelo Parque São Jorge, o ex-atacante pediu desculpas pelas duas eliminações nas Libertadores, em 2010 e 2011. "Quero pedir desculpas por ter fracassado no projeto Libertadores (mais choro). A históriano Corinthians foi linda, foi maravilhosa. Continuarei ligado e vinculado ao clube da maneira que você quiser, presidente (Andrés Sanchez). Vocês muitas vezes vão me ver no estádio torcendo pelo Corinthians. (outra pausa para choro).

Ronaldo assumiu parcela de culpa pelas quedas. "Eu acho que temos que assumir tudo que envolve uma queda. Isso é ser um grande campeão. Tenho minha parcela de culpa, sou humilde o suficiente para assumir qualquer erro que tenha cometido", afirmou. "Não sei se sirvo de exemplo por isso. Vou fazer as coisas tentando ser o mais correto possível para mim e para os outros. Foi a primeira coisa que falei para o presidente (Andrés Sanchez), ainda na Colômbia, dentro do vestiário após o jogo contra o Tolima. Futebol é isso. Se ganha, se perde, somos e estamos sujeitos a tudo isso."

Futuro como embaixador do Corinthians

A despedida dos demais jogadores do elenco, ocorrida horas antes da entrevista coletiva, foi, segundo Ronaldo, ainda mais emocionante. "Eu estava muito mais emocionado ali na hora que fui falar com os jogadores. Eu agradeci a todos eles, ao Tite. Por cada minuto e cada segundo que estive com eles. Como eu sempre fiz desde o primeiro dia que cheguei aqui, nos momentos mais difíceis, eu entrei na frente deles para receber todo e qualquer bombardeio. Agora farei do lado de fora, talvez com menos força, minha força foi sempre responder tudo dentro de campo, mas defenderei o Corinthians da forma que puder."

O agora ex-atleta explicou que pretende atuar como um embaixador do clube. E descartou atuar muito próximo ao gramado ou ao vestiário. "Trabalhar na comissão técnica, com certeza não. Direção, também não. Eu sempre disse que serei uma espécie de embaixador institucional fazendo e levando o nome do Corinthians mundo afora e capitalizar mais para o Corinthians.

Empresário e dono de fundação beneficente

Além de acompanhar o Corinthians de perto, Ronaldo também vai se dedicar ao mundo corporativo. “O meu futuro já está bem organizado. Vou me dedicar à minha agência (9ine)", disse, revelando ainda que irá tocar uma instituição beneficente. "Daqui a um tempo vamos anunciar uma fundação a “Criando Fenômenos”, uma fundação pela qual pretendo me dedicar muito tempo.



Decisão foi tomada na última quinta-feira

Uma lesão no músculo adutor foi a gota d'água, explicou o Fenômeno. "Essa semana, depois de mais uma lesão no adutor, refleti muito em casa e decidi que era o momento. Que tinha realmente dado o máximo. Que nunca imaginei que poderia chegar a isso, a tanto sacrifício. A partir de quinta-feira, quando decidi, parece que realmente estava numa UTI, em estado terminal e agora esse anúncio foi minha primeira morte. É muito duro você abandonar o que te fez tão feliz, aquilo pelo quaul você se doou tanto e que tem tanto amor. Mentalmente, quero muito. Mas tenho que assumir algumas derrotas. Eu perdi para o meu corpo e esse é o momento de parar."

O artilheiro da Copa de 2002 explicou que tem sentido dores até para subir escadas. "As pessoas que estão próximas sofrem comigo e sofreram comigo a cada dia. Eu sofro dor até ao subir uma escada. Eu doei minha vida ao futebol, fiz todos sacrifícios que alguém pode fazer e não me arrependo. Foi lindo demais, foi maravilhoso demais, mas foi difícil demais, lógico."
 

Quinta-feira, quando eu decidi, as dores me possuíam, me consumiam. Eu não conseguia pensar em mais nada. Fiz um esforço de memória. O ano de 2010 foi péssimo, de muitas lesões... E começar o ano assim, com mais lesões... Querer jogar e sua cabeça pensar uma coisa, que vai ganhar na velocidade porque sempre fez isso, e não conseguir... Foi o que me motivou, fiquei de sexta até hoje (esta segunda) de manhã dentro de casa sozinho, quebrando a cabeça pra caramba..."
 

Após a queda frente ao Tolima e os consequentes protestos de parte da torcida também mexeram com o Fenômeno, mas ele afirmou nesta segunda-feira que não pensou em parar por conta dos episódios de violência. "Estive próximo de desistir no dia seguinte da derrota na Libertadores, mas esperei um pouco mais e agora estou tomando essa decisão. Os protestos jamais podem ser violentos, mas eu não levei aquelas atitudes em conta para tomar a decisão que estou tomando agora."


Copa de 2002 e Corinthians estão entre as melhores lembranças

Questionado sobre sua melhor lembrança ao longo das quase duas décadas de carreira, Ronaldo parecia já ter a resposta na ponta da língua. "Tenho dois momentos. Primeiro, com a seleção brasileira, na Copa do Mundo de 2002, que foi o título mais importante. O segundo momento foi ter visto esse bando de loucos pelo Corinthians, apaixonados, ter vivido com eles, ter me tornado um deles, esses dois foram os momentos mais importantes."

Já as graves lesões foram citadas como os piores momentos. "Sem dúvida foram essas duas lesões gravíssimas, que me tiraram três ou quatro anos de carreira. Isso sem falar nas sequelas que deixaram...", lamentou.

Sobre o assunto, Ronaldo criticou o excesso de jogos. "Os campeonatos não deveriam ter tantos jogos. Acaba sendo natural sofrer lesões. Hoje em dia a gente está sempre explorando o máximo do nosso corpo, buscando nosso limite e isso não é saudável. O ser humano normal treinar para ficar saudável, correr num parque, ir a uma academia... Mas no futebol profissional o objetivo é sugar o máximo para que o jogador renda o melhor a cada jogo. E isso a longo prazo cria muito problemas."


Conversa com os filhos

Pai de Ronal e Alex, além das meninas Maria Sophia e Maria Alice, Ronaldo disse que conversou com os filhos antes de tornar pública a decisão de parar. "Expliquei tudo  pra eles ontem (domingo). O Ronald entende bem mais. E todas as perguntas que estão fazendo agora, ele já fez", disse, brincando ainda com o caçula. "Já o Alex não está muito ligado nisso, não. Eu vi quando o Washington (ex-Fluminense) se despediu com as filhas. Achei lindo e tentei copiar, mas o Alex (estava embaixo da mesa da coletiva), vocês estão vendo. Não está muito ligado nisso não!"

Sem arrependimentos na carreira

Refletindo sobre a possibilidade de mudar algo que tenha feito nos últimos anos, o ex-jogador afirmou que gostaria apenas de ter contado com uma medicina esportiva ainda mais avançada."Não faria nada difereite. Talvez se minha história voltasse e a medicina tivesse avançado mais e curado meus problemas que no momento foram gravíssimos. No futuro poderiam resolver mais rápido e mais fácil. Mas eu tive uma carreira digna, honrei tudo que eu fiz, e foi tudo maravilhoso. Vou sentir muita saudade."

Jogo de despedida na metade do ano

O Fenômeno pretende organizar um jogo de despedida nos próximos meses. A ideia é convidar jogadores e ex-atletas. "Por enquanto, não tem nada. Mas acho que em junho ou julho podemos fazer algumas coisas. Vou tentar reunir vários jogadores que estiveram comigo e fazer uma festa de despedida, vamos ver. Eu vou informando a todos..."


 

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