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Futebol
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Junto com Felipão há 28 anos, Murtosa elenca motivos do sucesso

Fiel escudeiro do treinador diz que valorizar menos famosos é essencial e que também se considera técnico

Danilo Lavieri, iG São Paulo |

O torcedor mais fanático do Palmeiras pode não saber, mas Flávio Teixeira é uma das pessoas mais importantes da comissão técnica do seu clube. Ele tem 60 anos, é casado, tem dois filhos, ostenta um bigodão, é baixinho e tem o apelido de Murtosa. Agora fica mais fácil de identificá-lo? Ele é um dos auxiliares que mais aparecem no Brasil e é citado em muitas entrevistas dadas na Academia de Futebol, seja o entrevistado um jogador ou o próprio Luiz Felipe Scolari.

Em uma conversa de quase meia hora com o iG Esporte, Murtosa revelou os segredos dessa parceria que já dura 28 anos, desde 1983, quando os dois começaram a trabalhar juntos no Grêmio Esportivo Brasil.

Considerando-se sempre um verdadeiro técnico e não só mais um auxiliar, Murtosa conta que a amizade entre eles quase não virou realidade, já que Felipão assumiu o cargo de treinador achando que “o baixinho iria querer derrubá-lo”.

“Ele chegou, a gente se cumprimentou, perguntamos se um estava bem e tudo mais. Eu só conhecia ele dentro do campo. E aí, eu perguntei o que ele queria que eu fizesse. E ele já chegou respondendo: ‘Faz o seu que eu faço o meu’. E aí eu pensei: ‘P..., tchê! Já chegou em mim que nem chegava dentro de campo’”, relembra o auxiliar.

A amizade foi selada duas semanas depois do entrevero inicial, em uma galeteria em que os dois comeram a convite do diretor do time, que percebeu que o clima não era bom. Desde então, os dois estiveram separados em apenas três oportunidades, quando Murtosa teve breves experiências como treinador, sendo que uma delas teve direito até a título, o da Copa dos Campeões de 2000 com o Palmeiras.

Gazeta Press
Murtosa dá seus palpites sobre o time do Palmeiras para Felipão

Confira a entrevista exclusiva com Murtosa e veja quais são os seus pensamentos sobre o atual time do Palmeiras, se ele ainda tem intenção de ser o técnico principal de uma equipe e saiba detalhes da parceria entre os dois, que já chega perto dos 30 anos.

iG: Você e o Felipão são praticamente inseparáveis. Onde um está o outro também está. Como foi que tudo começou?
Murtosa: Eu tive minha carreira como jogador durante 10 anos e me formei em Educação Física em Pelotas. Estou junto com o Felipão desde 1983, sendo que já havia tido algumas experiências como técnico outras vezes. Deixei de jogar futebol com 26, 27 anos por causa do joelho e então virei preparador. Estava no Grêmio Esportivo Brasil e o pessoal lá queria que eu fosse técnico. Eu preferi não aceitar, pois já tinha jogado com aquele grupo e não queria acabar a minha amizade com alguns. Certamente precisaria dispensar alguns dali que eram meus amigos. Então eles me convidaram para ser preparador e já planejaram que eu entrasse logo depois, quando o treinador fosse demitido. Eu já estava vacinado e não aceitei isso quando o guri não aguentou nem dois meses com nosso grupo. Aí veio o capitão e o diretor e perguntaram se eu apoiava um técnico novo que estava começando, que era o Felipão. Isso foi em 1983.

iG: E como foi o primeiro contato de vocês? Já começaram bem desde o início?
Murtosa: Eu conhecia ele de dentro de campo, quando ele me encheu de porrada. Aí o Felipão chegou e o pessoal tinha envenenado ele, dizendo que aquele “baixinho ali” ia derrubá-lo. Aí ele chegou todo desconfiado. Ele chegou, a gente se cumprimentou, perguntamos se um estava bem e tudo mais. Eu só conhecia ele dentro do campo. Aí eu perguntei o que ele queria que eu fizesse. E ele já chegou respondendo: ‘Faz o seu que eu faço o meu’. E aí eu pensei: ‘P..., tchê! Já chegou em mim que nem chegava dentro de campo’ (Risos). Aí passamos uma semana, duas assim, no clima ruim. Aí fomos em um jantar na galeteria, a convite do diretor do time. Lá, ele me perguntou se eu queria ser técnico. E eu expliquei: ‘Se eu quisesse, tu não estarias aqui. Estou aqui para te auxiliar’. A partir de então, ele já confiou em mim, já perguntou o que precisava fazer e eu respondi que precisávamos mandar dois ou três embora para ganhar de alguém. Fomos vice-campeões gaúchos, perdendo para o Inter por um ponto. No ano seguinte, em 1984, surgiu o convite do mundo árabe e eu fui com ele.

iG: Desde daquela época até hoje, você chegou a tentar ser técnico algumas vezes. Por que não deu certo?
Murtosa: Foram três, quatro tentativas. Eu fiz a Copa dos Campeões em 2000 para poder liberar o Felipão para ir ao Cruzeiro. O Mustafá, que era presidente na época, falou que só ia liberar o Felipão se eu ficasse aqui, pois era momento da saída da Parmalat e eu conhecia os guris da base. Aí isso aconteceu e eu precisei montar um time inteiro novo. O esqueleto inteiro já tinha saído. Eu tinha Neném na direita, Taddei, Assunção no meio, trouxe o Juninho, o Lopes e contava com uns mais experientes, que nem o Asprilla, o Sérgio, o Agnaldo.

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Murtosa orienta os jogadores com total autonomia durante treinos
iG: Mas você foi campeão e mesmo assim foi para o Cruzeiro...

Murtosa: Na época, o Felipão me ligou e falou: ‘Tu tá ganhando aí, rapaz. E aí, você vem?’. E eu falei para ele, que se pagassem o mesmo que eu estava ganhando no Palmeiras eu ia, ia decidir a minha vida. Não ia ficar esperando se eles iam me efetivar ou não. Eles não aumentaram meu salário quando eu saí de auxiliar para técnico. Aí eles me deram um aumento no Cruzeiro e eu fui para lá. Depois que eu ganhei, o Mustafá veio falar comigo, mas aí eu já tinha dado a minha palavra.

iG: Você não quer mais ser técnico?
Murtosa: Mas eu me sinto técnico...

iG: Sim, mas o técnico principal. O que aparece e ganha mais...
Murtosa: Eu tinha alguma aspiração e eu sempre pensei. "Vou assumir um time só pelo status econômico?". Desde que nos juntamos, se tu pegar o currículo, fomos vitoriosos, saímos de equipe pequena, média, grande, fomos para seleção e sempre teve resultado. Só por causa de eu ser o primeiro e ter poder econômico vou largar tudo? Sempre me senti bem assim, me senti valorizado. Da minha parte estou satisfeito, mas sempre deixei ele aberto para trocar se precisar. Vou te dar logo um exemplo: na seleção, eu estava fora. Vieram, falaram com ele e a equipe não tinha espaço para mim. E eu falei para o Felipe que é a chance dele. E ele ainda falou: ´Tu quer me botar no fogo, né baixinho? Sabe que vou encontrar gente que não é do meu suporte´. E aí ele me falou que se a seleção quisesse, ele ia levar a comissão técnica ou no mínimo levar o Murtosa. E aí deu tudo certo.

iG: E qual é o segredo da dupla? O que Felipão faz para transformar esses times desacreditados em campeões?
Murtosa: A nossa maneira de trabalhar é entender a carência do grupo e entender os jogadores. Você nunca vai formar uma equipe com 11 feras. É uma questão que envolve dinheiro, ego. Para montar uma equipe, você precisa valorizar todo mundo. Você pega um jogador novo, que está em uma equipe pequena, e explica que aquela é a chance da vida dele. Faz um trabalho específico e faz ele crescer. Pega os jogadores que não tem expressão e faz eles crescerem. Esse é o segredo e a gente cresce junto.

iG: E o Chelsea? O que aconteceu?
Murtosa: No Chelsea, a gente não deu certo por causa do ego e da vaidade. E era difícil a gente combater isso por causa da língua, da cultura. Nós éramos os estranhos lá e isso acabou criando muita dificuldade para a gente. Vai entrando no ego, na vaidade e eles começam a sentir mal quando tentamos quebrar os hábitos.

iG: E no dia a dia? Como funciona a organização de vocês?
Murtosa: Desde que começamos, a gente reveza trabalhos com ataque e defesa. Eu vejo algumas carências, chamo pra fazer correções. Eu aproveitei muitas coisas da minha época de jogador, pois eu era observador. Ficava olhando os caras bons, de seleção, para copiá-los. É difícil um cara de nível alto entender isso. Ele esquiva na hora de chutar com a perna ruim, é uma defesa dele, até por vocês (jornalistas) estarem ali olhando. E nosso papel é não aceitar isso, é fazer ele treinar. O Junior (lateral-esquerdo reserva da seleção em 2002) é um dos melhores exemplos disso. Ele não sabia nada com a perna direita e hoje ele já fez até gol.

iG: Até onde você tem autonomia no trabalho do Felipão?
Murtosa: Isso é uma coisa que eu sempre me senti muito valorizado. Ele fala qual vai ser o trabalho e não quer saber. Se você tiver problema, você resolve, toma o sentido do jeito que quiser. Eu sempre me senti um técnico, nunca me senti um auxiliar. Se eu achei desrespeito, eu mando embora e acabou. A decisão é minha. Isso dá respaldo e proteção para gente. Enquanto auxiliar, eu acho que preciso ser o diabinho dele, falar sempre o lado bom e o lado ruim.

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Felipão e Murtosa sofreram com guerra de egos enquanto estiveram no Chelsea


iG: E fora do campo? Como é a relação de vocês?
Murtosa: Nós temos essa longa convivência. Ele teve o filho quando eu já tinha uma menina. A gente sempre viajou junto para trabalhar. E na hora da família, um é tiozão do filho do outro, ajuda na educação, dá uma chamadinha quando precisar. É um ambiente muito saudável.

iG: Voltando a falar do time. Você tem a mesma visão que o time precisa de um camisa 9?
Murtosa: Isso é uma grande necessidade. Temos o Kleber e o Dinei machucou. Agora temos um menino muito novo, que não dá para jogar às feras, que é o Miguel. Ele é promissor, mas muito jovem. Precisamos dar uma sequência para ele, assim como foi o Gabriel, que quando chegamos não era nem titular e hoje é seleção.

iG: Hoje o time está bem mais família do que antes. Os jogadores parecem mais unidos. O que mudou?
Murtosa: É o tempo, o conhecimento. Nós estávamos fora do Brasil desde 2003 então a convivência de Palmeiras era só o Marcos e o Galeano e mais nada. Eles (jogadores) nos conheciam pela história, pela figura, e era muito pouco pra tu chegar e já formar a família. É como namorar, tu conhece a menina hoje e só vai saber que é ideal pra casar depois. O jogador é igual. E aí vai, cada dia que passa tu vai entendendo e a maneira de ser.

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