Tradicionais XV de Piracicaba e Comercial ocupam lugares de "clubes de empresários". Guarani também subiu

Numa terça-feira, horário comercial, o XV de Novembro parou Piracicaba. A cidade de 360 mil habitantes do interior paulista, que tem o sotaque caipira como marca registrada, terá um time na primeira divisão do Estado depois de 16 anos. A comemoração pelo título da Série A-2 (a segunda divisão de São Paulo), e pelo acesso teve uma carreata no dia 10 de maio que durou pouco mais de duas horas. Em cima de um carro da defesa civil, os jogadores seguravam a taça com força ( para evitar uma queda e “imitar” o Real Madrid após a Copa do Rei ) , tomavam cerveja e viam torcedores apaixonados seguindo o cortejo de carro, moto, bicicleta e até carroça.

O futebol de São Paulo assistiu na Série A-2 deste ano à ressurreição de times tradicionais que estavam há anos penando nas divisões inferiores. Além do XV, fundado em 1913, retornaram à elite o Comercial de Ribeirão Preto, de 1911 (25 anos longe da primeira divisão), o Guarani, clube centenário, campeão brasileiro em 1978, que vive período “ioiô” (sobe e cai com freqüência), e o Catanduvense, que esteve entre os grandes no final dos anos 80, faliu em meados de 90, mudou de nome e de cor (vermelho para azul) e renasceu da equipe fundada nos anos 50.

Jogadores do XV em cima do carro da defesa civil durante carreata em Piracicaba. Festa...
Marcel Rizzo
Jogadores do XV em cima do carro da defesa civil durante carreata em Piracicaba. Festa...

“Sabe por que o XV voltou? Porque os jogadores entenderam o quanto o time é importante para a cidade. Equipes tradicionais do interior têm torcida apaixonada. E isso faz muita diferença”, disse Luís Beltrame, o presidente do time que teve o auge em 1976, quando foi vice-campeão paulista, atrás somente do Palmeiras .

O evento comemorativo em Piracicaba (estimativa de duas mil pessoas), e o público no estádio Barão de Serra Negra na decisão da A-2 (18 mil pessoas na vitória do XV sobre o Guarani, domingo passado, mais gente do que terá na decisão da A-1, cerca de 15 mil para Santos x Corinthians), mostram que tradição pode contar um pouco mais do que dinheiro. Da A-1 para a A-2 caíram dois times que são bancados por empresários, fundados depois de 1990, que não têm torcida – São Bernardo e Grêmio Prudente. Este último está cotado para voltar a Barueri, já que seria vendido para a prefeitura local.

Estádio Barão de Serra Negra será reformado com ajuda privada
Marcel Rizzo
Estádio Barão de Serra Negra será reformado com ajuda privada

Investimento
Se o dinheiro de São Bernardo e Prudente não foi suficiente para manter as equipes na elite, como XV ou o Comercial conseguirão sobreviver? A folha salarial do XV na A-2 foi de R$ 150 mil (contando comissão técnica e diretoria). Foram sete patrocinadores, alguns grandes (como Cosan e Unimed), outros locais, mas que não cobriam os salários.

Para 2012 há a possibilidade de a montadora coreana Hyundai, que instala fábrica na cidade, patrocinar o time e investir para que Piracicaba fique no cenário do futebol nacional (interessante para a marca da empresa aparecer). O problema: muitos dos patrocinadores atuais pretendem permanecer, e, segundo o presidente Beltrame, a palavra no interior vale. Muito.

“Queremos manter também jogadores, comissão técnica... Deu certo”, disse Beltrame. Para a reforma do estádio (que é da prefeitura), que está feio e com problemas estruturais, pode acontecer parceria com o banco BMG, o principal investidor do futebol brasileiro na atualidade . “Só a paixão mesmo dos torcedores para que times como o XV consigam a superação”, disse o lateral-direito André Cunha, que já jogou no Palmeiras e prometeu “fazer de tudo” para ficar e jogar a Série A-1 no ano que vem.

Paixão não faltou em Ribeirão Preto para o Comercial subir. O clube esteve muito próximo de fechar as portas após ser rebaixado para a terceira divisão, em 2009 – teve até soco do técnico em árbitro no jogo da queda, contra o Catanduvense. Mas paixão só não adianta. É preciso sorte, e, depois de fazer boa campanha na A-3 e avançar com tranqüilidade para a segunda fase, o Comercial ficou em quinto na fase final e só conseguiu a vaga de acesso porque o Votoraty, agora extinto, desistiu de disputar a Série A-2 de 2011 (veja abaixo vídeo da festa em Ribeirão Preto feito pela diretoria).

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Foi aí que um antigo colaborador apareceu: o advogado e empresário Nelson Lacerda, ex- patrocinador e gestor do Comercial. Ele se candidatou à presidência e venceu eleição na qual não teve concorrente. Com investimentos de cerca de R$ 220 mil na folha salarial, o clube montou um time competitivo e voltou à primeira divisão.

Antes da Série A-1 em 2012, o Guarani disputa a Série B do Brasileiro. XV, Comercial e Catanduvense têm a Copa Paulista, competição organizada pela FPF (Federação Paulista de Futebol), para movimentar seus filiados no segundo semestre. O campeão garante vaga na Copa do Brasil do ano que vem.

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