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Com chances de disputar Copa e Olimpíadas, equipe luta para conseguir permissões para deixar a Faixa de Gaza e a Cisjordânia

Federação construiu estádios e organizou o esporte para fazer da seleção palestina uma potência na Ásia
AP
Federação construiu estádios e organizou o esporte para fazer da seleção palestina uma potência na Ásia
Durante muitos anos, o futebol da Palestina não teve organização nem dinheiro, e sofreu tanto com as restrições de mobilidade impostas por Israel que vários jogos tiveram que ser adiados porque os atletas não chegavam para o pontapé inicial.

O esporte, porém, está crescendo e os estádios aflorando na Cisjordânia. A Federação Palestina está participando de competições internacionais, e os palestinos irão participar de sua primeira partida eliminatória para uma Copa do Mundo no próximo mês. Os jogadores comemoram e dizem que o incentivo ao futebol é mais do que um benefício ao esporte: é uma missão para construir uma nação independente.

“Quando times vem jogar na nossa terra, é um reconhecimento de que existe um Estado palestino”, diz o jogador Murad Ismael, de 26 anos. “Isso beneficia a causa palestina, não apenas o esporte”.

A seleção olímpica da Palestina visitou o Bahrein no último domingo e venceu por 1 a 0, em partida válida pela fase preliminar das eliminatórias asiáticas para as Olimpíadas de Londres 2012 (a volta será na próxima quarta-feira, na Palestina). Mas o jogo mais aguardado será contra o Afeganistão nos dias 29 de junho e 3 de julho, pela primeira rodada das eliminatórias asiáticas para a Copa do Mundo 2014 .

O programa de incentivo ao esporte se mistura com planos de líderes políticos, que vêm tentando construir os alicerces de um Estado em meio a moribundas negociações de paz com Israel.

No comando do programa está um personagem improvável: Jibril Rajoub, um rude ex-segurança de banco que passou 17 anos preso em Israel. Rajoub deixou a política em 2006, sendo nomeado em seguida como presidente da Federação Palestina de Futebol – e do Comitê Olímpico palestino dois anos depois.

Torcedores têm lotado os novos estádios para acompanhar a promissora seleção palestina de futebol
AFP
Torcedores têm lotado os novos estádios para acompanhar a promissora seleção palestina de futebol
Em seu escritório, localizado na cidade de Ramallah, jogadores o cumprimentam com beijos e ele chama assessores com um aparelho wireless, Rajoub, de 58 anos, diz que usa o esporte para “mandar uma mensagem nacionalista” para o mundo.

“Somos iguais a todo mundo”, afirma. “O Esporte para nós é um modo de atingir nossos objetivos nacionais”. Desde que Rajoub assumiu, em 2008, a verba anual da Federação subiu de US$ 870 mil (cerca de R$ 1,4 milhões) para mais de US$ 6 milhões (aproximadamente R$ 9,6 milhões) em 2010, disse o diretor financeiro Jihad Qura. A entidade, que começou com três empregados, hoje tem 30.

Rajoub diz que o desenvolvimento veio graças à Autoridade Palestina, principal financiadora, que decidiu investir no esporte em 2008. Desde então, cinco novos estádios foram construídos. O mais recente foi inaugurado na cidade de Dura, em 12 de junho, com um amistoso entre os times sub 23 da Palestina e da Itália – um grande sucesso de público.

Lance de jogo Palestina (branca) e Itália. Equipe do Oriente Médio quer Londres 2012 e Brasil 2014
AFP
Lance de jogo Palestina (branca) e Itália. Equipe do Oriente Médio quer Londres 2012 e Brasil 2014
Em março, o time olímpico palestino de futebol jogou seu primeiro jogo em casa na cidade de Ram, na região metropolitana de Jerusalém, um símbolo poderoso para um povo que procura independência. Os palestinos perderam na disputa de pênaltis para a Tailândia, mas avançaram para a fase preliminar das eliminatórias para a Copa 2014 porque a Tailândia escalou um jogador irregular.

A seleção nacional jogou pela primeira vez em território palestino no mesmo estádio, em 2008, com o presidente da Fifa (Federação Internacional de Futebol e Associados), Joseph Blatter, nas tribunas. Anteriormente, a equipe havia mandado jogos na Jordânia e no Catar.

Em maio, Blatter retornou para o primeiro torneio internacional de clubes da Palestina, marcado nos mesmos dias dos festejos da fundação de Israel – datas às quais os palestinos referem-se como “a catástrofe”. Dezesseis times, vindos de países como Senegal, Hungria e Jordânia participaram.

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"O esporte é um modo de atingir os objetivos nacionais", diz o presidente da Federação Palestina
Blatter prometeu ajudar os jogadores e técnicos da Palestina a resolverem sua reclamação mais comum: as restrições de mobilidade impostas por Israel. O presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), Jacques Rogge, também está trabalhando para melhorar a situação dos deslocamentos.

Atletas palestinos precisam de permissão israelense para a maioria das viagens, tanto para cruzar de Israel para a Faixa de Gaza quando para entrar ou sair da Cisjordânia – um percalço que muitas vezes impediu atletas de participaram de jogos decisivos.

Em 2007, a Fifa forçou os palestinos a reconheceram derrota durante uma partida das eliminatórias para a Copa para Singapura, já que não havia nem 11 jogadores para representar a Palestina – os israelenses negaram a viagem de 18 atletas que precisavam sair da Faixa de Gaza.

Sob a batuta de Jibril Rajoub, orçamento da Federação Palestina aumentou quase sete vezes
AP
Sob a batuta de Jibril Rajoub, orçamento da Federação Palestina aumentou quase sete vezes
Jibril Rajoub diz que o problema persiste: “Até o momento, ‘não’ é a regra, ‘sim’ é a exceção”, reclama. Alguns jogadores, porém afirmam que a situação melhorou. Efraim Zinger, chefe do Comitê Olímpico de Israel, alega estar tentando facilitar as viagens de atletas palestinos. O porta-voz do Exército Guy Inbar diz que Israel decidiu amenizar as restrições a atletas palestinos – um “gesto gentil” para a autoridade palestina.

“Como política, Israel está autorizando jogadores de futebol de Gaza a jogarem na Cisjordânia pelo campeonato domético, e também jogarem pela seleção palestina e viajar ao estrangeiro para jogos oficiais”, diz Inbar. No entanto, ele afirma que “questões de segurança” muitas vezes impedem as viagens.

O jogador palestino “Hossam Wadi”, 25 anos, assegura que não consegue ir da Cisjordânia para a Faixa de Gaza (onde nasceu) desde 2008 – mesmo quando se casou, no ano passado. Ele diz que se preocupa em não ser autorizado para viajar e defender a seleção palestina, complicando a situação de sua equipe.

“É uma chance de jogar a Copa do Mundo”, ele afirma sobre o jogo contra o Afeganistão, que será disputado no Tadjiquistão em 29 de junho. “Temos que fazer sacrifícios”, completa. O mandante da partida são o afegãos, que devem jogar em campo neutro devido às condições críticas de segurança em seu país. No dia 3 de julho, os palestinos aguardam ansiosamente a partida de volta, que será na Cisjordânia – isso se Israel permitir que os jogadores do Afeganistão entrem.

Palestinos muitas vezes são impedidos por Israel de deixarem a Cisjordânia e a Faixa de Gaza
AP
Palestinos muitas vezes são impedidos por Israel de deixarem a Cisjordânia e a Faixa de Gaza
O caminho para estar no Brasil em 2014, todavia, é longo. Número 171 do ranking da Fifa divulgado em maio, os palestinos terão que passar pelo Afeganistão para estarem entre os 20 times que vão disputar as eliminatórias da Ásia. Quando todos as rodadas classificatórias acabarem, em 2013, quatro times asiáticos ganharão vaga direta para a Copa do Mundo, enquanto uma quinta equipe disputa a repescagem.

A maioria, porém vê o esporte com bons olhos, mesmo que a Palestina não vença: “Os palestinos não podem ficar conhecidos apenas como militantes que atiram pedras, queimam pneus e atiram nos israelenses”, declara Mazin Khatib, diretor técnico da Federação. “Temos que nos esforçar também no esporte para mostrar que merecemos ser um Estado independente e soberado, que ama a vida e ama jogar futebol.”

*tradução de Francisco De Laurentiis, iG São Paulo