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Em entrevista ao iG, ex-zagueiro chileno fala sobre o Gre-Nal, convite para a Fifa e aconselha o compatriota Valdívia

Figueroa crê em reversão do Inter no Gre-Nal, mas diz que voltar foi um risco grande para Falcão
Divulgação
Figueroa crê em reversão do Inter no Gre-Nal, mas diz que voltar foi um risco grande para Falcão
Ele ainda se orgulha de ter vencido mais de uma dezena de Gre-Nais. Em mais de cinco anos com a camisa do Internacional , na década de 70, perdeu apenas um clássico. “E era um amistoso, não valia nem laranjas”, brinca Elias Figueroa, ídolo colorado e considerado um dos maiores zagueiros de todos os tempos.

No currículo, o chileno guarda feitos como o de ter levado o Inter às primeiras conquistas nacionais, em 75 e 76, ter sido eleito melhor zagueiro da América do Sul e do mundo e estar na lista dos cem maiores jogadores de todos os tempos da Fifa (Federação Internacional de Futebol e Associados).

Na semana que antecede o Gre-Nal, Figueroa conversou com o iG sobre o clássico que decide o Campeonato Gaúcho. Ele não esconde a torcida pelo amigo e ex-companheiro Falcão neste domingo, mas alerta: “Voltar para o clube onde ele triunfou como jogador é um risco muito grande. O problema é perder o que você já ganhou”

Figueroa esteve em São Paulo nesta semana divulgando uma marca de vinhos chilenos. Ser garoto-propaganda é uma das atividades do ex-zagueiro que trabalha também como empresário, consultor da Federação Chilena de Futebol e em um instituto para crianças e adolescentes carentes no Chile.

Na lista de tarefas quase entrou uma bem mais visada. Em março, o chileno foi convidado para ser candidato à presidência da Fifa. Com o apoio de dirigentes europeus, além da Federação Americana de Futebol e da Associação da Austrália, ele teve seu nome indicado para disputar o pleito que acontece em julho.

“Me senti muito honrado por ser escolhido entre outros jogadores e dirigentes que faziam parte desse grupo. Decidi que não era o momento. Era uma batalha complicada. É difícil mudar coisas de tantos anos que estão ai”, afirma.

Ele se refere à política da Fifa nada aberta para novos nomes e manchada com suspeitas de corrupção. Na última semana, David Triesman, ex-presidente da FA (Associação Inglesa de Futebol) acusou o brasileiro Ricardo Teixeira, da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e Nicolas Leoz, da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), de terem pedido propina para votar na candidatura inglesa para sediar o Mundial de 2018. “Para você ver, nem a Conmebol estava comigo. Já tinham se comprometido com o Blatter”, afirma o chileno.

Simpático e pronunciando um português ainda com sotaque carregado – por puro charme, segundo o filho - o ex-zagueiro fala com a mesma classe que demonstrava nos gramados. Assim como na época de zagueiro, não teme ser direto e certeiro nas opiniões. Como um bom desarme sem falta.

Valdivia é muito bom jogador. Um pouco temperamental com algumas coisas. Precisa melhorar isso”, diz sobre o compatriota, meio-campista do Palmeiras . Chute no vácuo? Não, o “Mago” certamente não ousaria o drible em “Don Elías”. Ao menos, segundo o próprio.

“Eu acho que ele só faria uma vez comigo”, diz Figueroa, que completa, após uma risada discreta. “Na segunda oportunidade, não faria mais”.

Figueroa e Falcão no Inter, em 1973
Gazeta Press
Figueroa e Falcão no Inter, em 1973
Leia a entrevista completa de Elías Figueroa:

iG: Como você está vendo a volta do Falcão ao Inter?
Figueroa: Olha, já faz uns meses que não nos falamos. Mas eu gostei, claro. Eu acho que ele tem experiência, foi técnico da seleção brasileira, conhece futebol. Além de ser uma grande pessoa. Agora, quando você é tão ídolo num clube e assume como técnico é um risco grande. Eu espero que ele se dê bem, que a torcida respeite ele. Tem uma grande parte da torcida hoje que não sabe a história, a tradição do que foi o Falcão jogador.

iG: Você chegou a acompanhar os jogos dele como técnico?
Figueroa: Vi contra o Peñarol . Perdeu, né? Uma pena. Eu estava dividido porque também joguei lá (Figueroa atuou no Peñarol antes de ir para o Inter). Lamentavelmente para o Inter, perdeu... Eu adoro a torcida do Inter. Tive a sorte de viver um momento importante do clube, nunca perdemos estaduais quando eu estava lá. Vencemos os primeiros Brasileiros, fiz gols importantes.

iG: O Inter perdeu o primeiro Gre-Nal da final do Campeonato Gaúcho também. Precisa vencer por 2 a 0 para levar o título. Você acha que é possível?
Figueroa: Gre-Nal sempre dá para reverter. Tem jogador que fica mais nervoso, outros não conseguem dormir. Eu adorava jogar Gre-Nal. Perdi apenas um em quase seis anos. E era um amistoso, não valia nem laranjas. Ganhei a maioria e empatei outros. O Grêmio está bem, mas dá para reverter.
Vou tentar falar com o “Bola-Bola” (apelido do Falcão) antes do jogo para desejar sorte. Lembro do começo do Falcão como jogador. O técnico do Inter era o Dino Sani e a gente via ele jogar nos juvenis. Um dia fizemos uma excursão ao nordeste e eu falei para o Dino que podia levar aquele magrinho, que era o Falcão. Antes da viagem, a mãe dele pediu para eu cuidar dele, Fizemos muita amizade.
Eu espero que a torcida respeite a história dele. Porque às vezes há o risco de você perder o que ganhou como jogador. Ele tem mando sobre os jogadores. Ele esteve lá, sabe como é. Tem fotos no vestiário do Inter mostrando o que ele foi. Só espero que nunca vaiem ele.

Eu joguei com o Pelé. Era difícil, viu. Ele era completo e também batia pra caramba. O cotovelo dele era nervoso

iG: Um jogador chileno faz muito sucesso hoje no Brasil, o Valdivia. Como você o vê?
Figueroa: Valdivia é muito bom jogador. Um pouco temperamental, com algumas coisas. Mas é muito bom. Faz coisas que às vezes irritam o adversário..

iG: Ele ficou famoso aqui pelo drible “chute no vácuo”. Ele enganaria o Figueroa com esse drible?
Figueroa:
Vi esse drible. Eu acho que ele só faria uma vez comigo... (risos)

iG: Por que?

Figueroa: Na segunda oportunidade, não faria mais (risos) Eu conheço o Valdivia, é um bom rapaz. O Tite, quando era técnico do Palmeiras, me ligou perguntando sobre ele. O clube estava observando para contratar. O Tite queria referencias e eu disse que era muito bom jogador. Só que um pouco, às vezes, com a cabeça fraca.

iG: Você chegou a ser convidado para se candidatar a presidência da Fifa. Por que acabou desistindo?
Figueroa: Foi um movimento que tem na Europa e nos Estados Unidos. Eles primeiro me convidaram para integrar um grupo de notáveis. Eu tive uma reunião com eles e fui convidado para ser candidato. Eu pedi um tempo para pensar. E acho que é muito difícil mudar isso que temos ai.

Figueroa em ação, já no final da carreira, em 1981
Getty Images
Figueroa em ação, já no final da carreira, em 1981
iG: Era impossível vencer o Blatter?
Figueroa:
Para você ver, a Conmebol não estava comigo, porque já tinham se comprometido com o (Joseph) Blatter (presidente da Fifa). Agora tinham times europeus que queriam a nossa candidatura. Tinha apoio dos Estados Unidos, da Austrália, de países da Europa e outros filiados da Fifa. Me senti muito honrado por ser escolhido entre outros jogadores e dirigentes. Decidi que não era o momento. Era uma batalha muito complicada. Tem uma coisa de tempo também. Eu me casei com 15 anos. São 48 anos de casado com a mesma mulher. Sou um cara que gosta de estar muito tempo com a família. Sei que era difícil, mas, se vencêssemos, teria que passar tempo fora de casa, na Suíça, teria que viajar pelo mundo. Seria deixar de novo a família. Por causa do futebol passei muito tempo fora de casa. Também não queria mais isso.

iG: Você disse que segue acompanhando o futebol. Quem seria o Figueroa de hoje?
Figueroa: Difícil, tem bons zagueiros hoje em dia. Gosto muito do Piqué , do Barcelona , e do brasileiro Lúcio (ex-Inter de atualmente na Inter de Milão ). Acho que além da disposição o zagueiro tem que ter técnica. O trabalho de defender é como o do toureiro. Você nunca coloca a capa aqui (apontando para o peito). Você tem que escolher um lado, quando o adversário vem. Eu fazia isso. Porque no lugar eu já estava e ele não iria passar. Se fosse para o outro lado, eu já sabia onde ele iria. De 10, ganhava oito...

iG: Que jogador da atualidade você gostaria de marcar?

Figueroa: Eu queria enfrentar o Cristiano Ronaldo (atacante do Real Madrid). Ah, e o Messi (atacante do Barcelona) também, claro (risos).

iG: Qual foi o adversário mais difícil de marcar?
Figueroa: Eu joguei com o Pelé. Era difícil, viu. Ele era completo e também batia pra caramba. O cotovelo dele era nervoso (risos)...

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