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Fielzão vira ponto de encontro de operários em busca de emprego

Construção do estádio da Copa, sem data para começar, leva centenas de pessoas a Itaquera por vagas que não existem

Marcel Rizzo, iG São Paulo |

Marcel Rizzo
Antônio Dias na posição que fica desde abril: em frente ao terreno do futuro estádio do Corinthians esperando emprego
Antônio Dias sai de casa todo dias às 6h, anda aproximadamente 30 minutos e chega ao terreno onde será construído o estádio do Corinthians , no distrito de Itaquera, Zona Leste de São Paulo. Ali, sentado num banquinho ou de pé, ele vê todos os dias passarem entre 100 e 200 pessoas à procura de emprego na obra do campo que a Fifa (Federação Internacional de Futebol e Associados) indicou para a abertura da Copa do Mundo de 2014 . Dias também espera uma vaga de trabalho na construção, que não tem data para começar - um plantão sem fim.

“Eu poderia procurar emprego em outros lugares, mas não tenho dinheiro para a passagem, Como aqui posso vir andando, vou ficar esperando. Já passaram alguns engenheiros da Odebrecht aqui e disseram que vão selecionar as pessoas da região”, disse Dias, 40 anos, desempregado há sete meses e de olho em três funções: porteiro, armador ou condutor de empilhadeira. Nascido no Piauí, ele mora em São Paulo há mais de 20 anos e trabalhou em diversas funções. “Tenho curso de porteiro. Está aqui”, disse ele, mostrando a sacola nas mãos.

Não há previsão para as contratações, nem a certeza de que a mão de obra será da região . Mas nas quase duas horas que o iG permaneceu ao lado do portão de entrada do que foi o CT (Centro de Treinamento) das categorias de base do Corinthians, 25 pessoas ficaram o tempo todo ali, como se de repente fosse surgir ao final da rua todo o departamento de RH (Recursos Humanos) da Odebrecht, a construtora responsável pela obra , para realizar o “fichamento”, como os candidatos se referem ao primeiro passo para a contratação Outros apareciam e iam embora, quase todos com currículos na mão. Segundo José, que não quis dar o sobrenome e vende salgados e bebidas na região, pelos menos 200 pessoas passam pelo local diariamente.

“Eles vão colocar no site quando vão contratar?”, perguntou Olegário Paulino, 49 anos, técnico em contabilidade que trabalhava no centro de São Paulo e pretende disputar uma vaga de motorista na construção do Fielzão. Paulino chegou de bicicleta e ouviu do porteiro do terreno para voltar dia 16 de maio, uma segunda-feira. “Mas chega cedo, umas 4h. Porque eles estão dando essa informação para todo mundo e isso aqui vai estar um formigueiro”, avisou Dias. A diretoria do Corinthians informou que não orienta seus funcionários a darem qualquer data.

Não será a primeira “muvuca” na frente do terreno. Em 4 de abril, por motivo que ninguém sabe explicar, uma multidão se aglomerou com a informação de que a Odebrecht contrataria naquele dia. “Tinha umas mil pessoas”, chutou Dias. Uma teoria é de que um boato tenha sido divulgado na favela Zorrilho, que fica do outro lado da Radial Leste, avenida que liga a região ao centro da cidade. A Polícia Militar foi chamada para dispersar as pessoas depois que boa parte delas “invadiu” o pátio do metrô, bem em frente, para fugir da chuva.

Nos dias seguintes muitas pessoas fizeram plantão por notícias, como os 25 “guerreiros” flagrados pela reportagem. Até que alguém avisou que uma empresa selecionava pessoas no Brás, também na zona leste, para construção de uma sede da Igreja Universal. Desta vez não era boato e muitos migraram para lá.

AE
Terreno onde será erguido o Fielzão, em Itaquera, era CT das categorias de base do Corinthians

Desemprego
Levantamento do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) e do Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) mostrou que o desemprego na região metropolitana de São Paulo em março de 2011 foi de 11,3% da população economicamente ativa . Em números absolutos algo em torno de 1,2 milhão de pessoas. Em média, os candidatos às diversas vagas que a construção do estádio exigirá estão desempregados há um ano e não são apenas moradores de Itaquera ou da zona leste.

Jorge (nome fictício, já que ele não quis revelar o verdadeiro) viaja seis horas por dias (três para ir, três para voltar) para ir de Parelheiros, extremo sul da capital, até Itaquera. São quatro ônibus para guardar dinheiro e não pegar o metrô (estação que está a 500 metros do terreno).

“É uma viagem, mas não tem emprego lá onde moro e aqui é certeza que hora ou outra teremos. Esse estádio sai”, disse Jorge, corintiano ( para alguns ali é tabu falar o time do coração. Medo de rejeição caso anunciem serem palmeirenses ou são-paulinos ). Ele almeja o cargo de encarregado.

De repente, um carro prata para ao lado do portão de entrada, o passageiro abre o vidro e pergunta:
“Alguém aqui trabalha com manutenção? Precisamos de funcionário”. Dias e mais um foram ouvir a proposta. Cinco minutos de conversa e nada feito. “Não dá para confiar em todo mundo hoje em dia. Prefiro continuar aqui na porta, esperando”, disse Dias.

Velho conhecido

Marcel Rizzo
Carro de José, que alimenta as pessoas na porta do futuro estádio, vira a lanchonete
O automóvel parado próximo ao portão não é novidade. José, mais conhecido como “tio do doce”, vende salgado, refrigerante e café no local desde 2007. No início, os fregueses eram os garotos que moravam no local, antigamente CT (Centro de Treinamento) da categoria de base do Corinthians. Hoje são alguns funcionários do clube que tomam conta do local e as pessoas que todo dia passam por ali a procura de emprego.

“O faturamento caiu porque o pessoal aqui não tem dinheiro para comprar quase nada, estão todos desempregados há bastante tempo. A garotada comprava muita coisa aqui, às vezes havia jogos do juvenil, infantil, e lotava”, contou o vendedor, que abre o porta-malas do carro e coloca um isopor com bebidas e outro com salgados.

Ele também está no local esperando representantes do Corinthians ou da Odebrecht porque pretende fazer uma proposta: montar uma barraca dentro do terreno para vender produtos durante a obra. “Não tem o que comer aqui bem perto, somente o shopping (metrô Itaquera), mas é uma caminhada. Acho que não vão deixar, mas vamos torcer”, disse.

José acaba conhecendo boa parte dos “plantonistas” que ficam diariamente no portão do terreno esperando seleção de emprego, “Olha ali chegando o bigode”, diz ele a Antônio Dias, que fica das 7h às 17h sentado em um banco que José leva esperando novidades.

A conversa entre os candidatos tem dois temas: quando a obra do Fielzão vai começar e a possibilidade de emprego em outras construções. “Em Suzano, onde moro, tem uma na estação de trem, mas não consegui nada”, disse Pedro, outro que não quis falar o sobrenome. Ao lado do futuro Fielzão, a Sabesp faz uma borá em uma adutora de água. “É da Galvão", se referindo à Galvão Engenharia com intimidade.

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