Recebidos como os principais estrategistas da Europa, técnicos confundem-se com a imagem de seus clubes

O escocês Alex Ferguson, técnico do Manchester United , completará 70 anos em 31 de dezembro; o espanhol Pep Guardiola, técnico do Barcelona , comemorou 40 em 18 de janeiro. Em tese, as três décadas que os separam deveriam torná-los personagens de períodos distintos do futebol europeu. A longevidade de um e a precocidade do outro, no entanto, fazem deles protagonistas do mesmo fenômeno – a transformação de seus clubes em referências planetárias, com sucessivas conquistas ajudando a arrebanhar fãs espalhados por todo o mundo. E agora eles vão se enfrentar, neste sábado, as 15h45 (de Brasília), para decidir o título da Liga dos Campeões da Europa.

Nesse período de ascensão, o nome de Ferguson passou a confundir-se com o do Manchester United; Guardiola, por sua vez, simboliza melhor do que ninguém o espírito catalão que move o Barcelona. Cada vez mais rara no milionário e cosmopolita futebol europeu, a profunda identificação de ambos com os clubes aos quais estão ligados desde os anos 1980 estabelece a primeira das diversas semelhanças entre suas trajetórias aparentemente singulares.

Outro ponto em comum: a busca de modelos em técnicos que fizeram história na Inglaterra e na Espanha. Ainda que oficialmente considere como seu mentor o também escocês Matt Busby, que treinou o Manchester United por um quarto de século e foi campeão europeu em 1968 (em Wembley), a imprensa britânica vê em Ferguson uma versão escocesa e atualizada de Bob Paisley, que ganhou seis títulos nacionais e três europeus com o Liverpool (ao qual esteve ligado por cinco décadas). Paisley era um especialista em usar as palavras para despistar os adversários, e Ferguson provou de seu veneno em 1980, quando dirigia o Aberdeen e foi eliminado da Liga dos Campeões pelo Liverpool, nas duas únicas partidas em que se enfrentaram.

Para Guardiola, o principal exemplo a seguir foi o do holandês Johann Cruyff. Ambos percorreram trajetória semelhante no Barcelona, primeiro em campo e depois no banco. Cruyff comandou o atual técnico na primeira metade dos anos 1990, quando estabeleceu no Camp Nou a tradição de jogo que se mantém ainda hoje, com ênfase na posse de bola e nos deslocamentos em bloco para retomá-la. “Cruyff criou a Capela Sistina, e (Frank) Rijkaard a restaurou”, observou Guardiola, em referência ao outro holandês a quem atribui importância na história recente do Barcelona, treinador da equipe campeão européia em 2006, em Paris.

Guardiola pode tornar-se o mais jovem técnico bicampeão da Liga caso vença o Manchester
EFE
Guardiola pode tornar-se o mais jovem técnico bicampeão da Liga caso vença o Manchester

Ao se inspirar em exemplos bem-sucedidos, Ferguson e Guardiola buscavam também uma maneira de enfrentar a desconfiança em torno de sua capacidade. Contratado pelo Manchester United em novembro de 1986, Ferguson só deu início à trajetória de conquistas no início dos anos 1990. Em suas primeiras temporadas, era visto como um escocês extravagante, de sotaque esquisito, e cujo sucesso no pequeno Aberdeen – que tirou de uma fila de 14 anos sem o título escocês, além de conquistar a extinta Recopa europeia, em final contra o Real Madrid – não significava automaticamente adequação ao futebol inglês.

Embora tenha se formado nas categorias de base do Barcelona e estivesse em campo no primeiro título europeu do clube, conquistado no antigo Wembley em 1992, Guardiola exibia no currículo apenas uma temporada como treinador, no time B (que contava então com Busquets e Pedro), quando foi efetivado na equipe principal, em 2008. O elevado grau de exigência de imprensa e torcida no Camp Nou não toleraria sua inexperiência por muito tempo. Era preciso conquistar ao menos um título para assegurar o trabalho de longo prazo. Logo de cara, contra todas as expectativas, vieram seis.

As apostas em jogadores formados no próprio clube, identificados com a sua história e com padrões táticos, técnicos e comportamentais, também os aproximam. Para Guardiola, que chegou ao hoje lendário centro de treinamento barcelonista La Masia aos 13 anos, era natural que fortalecesse ainda mais a presença da base no elenco profissional, já significativa na sua chegada. Xavi e Iniesta, por exemplo, estavam lá, mas ganharam mais responsabilidades. Busquets e Pedro foram alçados por ele ao time titular – em espaço antes ocupado por atletas vindos de outros clubes, como Yaya Touré e Eto’o – e, graças a isso, arrumaram vaga na seleção campeã mundial em 2010.

Ferguson, já vovô, com os jogadores revelados por ele na década de 90
Getty Images
Ferguson, já vovô, com os jogadores revelados por ele na década de 90
Ferguson teve a sorte de contar com uma fornada mágica das categorias de base do Manchester United. De uma só tacada, subiu a base da grande equipe dos anos 1990 – Giggs, Scholes, Beckham, Butt, os irmãos Gary e Phil Neville. Desde então, sejam formados no clube ou capturados muito cedo, jovens atletas têm sido tratados por ele com o carinho de um pai (agora, avô?) que acredita em seu potencial. Cristiano Ronaldo, por exemplo, era apenas uma promessa quando chegou a Old Trafford, em discreto segundo plano na leva que incluía, como destaque maior, o então recém-campeão mundial Kleberson.

Cercados por muitos jogadores ainda jovens, os dois treinadores se comportam de modo semelhante com a imprensa: protegem seus pupilos de ataques e funcionam como bazucas apontadas para os adversários, principalmente treinadores de postura mais agressiva, como o português José Mourinho. A ação paternal de Ferguson foi acentuada nesta semana com um de seus atletas mais veteranos, o galês Ryan Giggs – a quem ele dedicou cuidados especiais, quando era jovem, e que se envolveu recentemente em um escândalo extraconjugal muito explorado pela imprensa britânica.

Ferguson foi duro, na última coletiva em Manchester antes da vinda a Londres para a final, com um jornalista que lhe endereçou uma pergunta marota sobre qual seria a importância de Giggs para o jogo de sábado. Depois de responder que “todos são importantes”, Ferguson foi pego pelo microfone da sala pedindo à assessora de imprensa do clube que impedisse o jornalista de comparecer à coletiva desta sexta-feira em Wembley. Logo em seguida, o clube admitiu que não poderia fazer isso.

Em títulos europeus, eles estão empatados. Ferguson foi campeão em 1999, com a virada histórica sobre o Bayern de Munique em Barcelona, e em 2008, na decisão por pênaltis contra o Chelsea em Moscou. Guardiola levantou a taça como jogador em 1992, batendo a Sampdoria em Londres, e como treinador em 2009, derrotando o próprio Manchester de Ferguson em Roma. O desempate será uma oportunidade de devolver a derrota? “Não é porque perdemos em 2009 que agora queremos nos vingar”, disse Ferguson na coletiva desta sexta-feira em Wembley. E, depois de elogiar a maturidade de Guardiola, apostou que o jogo de amanhã tem os ingredientes para ser “a melhor final da década, em que tudo pode acontecer”.

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