Para dirigente, união entre atletas e comissão e salários e premiações em dia motivam a equipe em campo

Servidor público há 35 anos, Edson Antônio Ermenegildo chega ao José Maria de Campos Maia geralmente em cima da hora das partidas do Mirassol, mas cumprimenta uma a uma as pessoas que encontra na subida até a tribuna. Dentro do estádio, o "doutor Edson" esquece um pouco a profissão de delegado de polícia e o cargo de presidente do Mirassol Futebol Clube e assume a condição de simples torcedor de futebol.

"O doutor é um cara muito ponderado, centrado, tem muito discernimento nos comentários dele. Ele está sempre sereno. Independentemente de ser delegado ou não, é uma pessoa muito fácil de lidar, que nos trata muito bem, o que é difícil existir no comando dos clubes de futebol", elogia o treinador da equipe interiorana, Ivan Baitello.

Presidente do clube desde 1994 e delegado seccional de Catanduva (muncípio próximo de Mirassol) desde 2000, Edson, de 53 anos, divide as funções com respaldo do diretor de futebol Júnior Antunes, que vive na cidade e recebe orientações à distância. Fora isso, as premiações e a folha salarial mensal de cerca de R$ 400 mil em dia, fator visto pelo presidente como fundamental para a boa campanha do time, evitam maiores problemas no dia a dia do clube. Veja a entrevista com Edson.

Como o senhor entrou no meio do futebol?
Edson - Estou nessa desde dezembro de 1994. O futebol (de Mirassol) era entre aspas tocado pela prefeitura municipal. Eu era vereador, presidente da Câmara, e por solicitação do prefeito de então acabei assumindo a direção do Mirassol. Hoje não temos mais apoio da prefeitura, o clube anda com suas próprias pernas, a única coisa que a prefeitura faz é ceder o estádio ( o clube paga as despesas de manutenção e cede 10% da renda a instituições de caridade da cidade ).

Dá para dividir facilmente o cargo de presidente de clube com o de delegado?
Edson - Já me disseram uma vez: quando você precisar de um favor, peça para uma pessoa que esteja bastante ocupada, porque ela vai dar conta do recado (risos). Acho que essa é a regra. Consigo dividir a função profissional de servidor público, que é meu ganho de vida, principalmente porque tenho um excelente diretor de futebol, que tem bastante experiência. Com a facilidade do telefone, da internet, de rádio, a comunicação é muito fácil, e os jogos são à noite e aos finais de semana. Então, não me atrapalha em nada.

Existe um mito de que crime, no interior, é roubo de galinha. Isso ainda ocorre?
Edson - Houve uma época. Isso evidentemente ainda existe (risos), mas o índice criminal já tem aumentado no interior e a gravidade dos delitos também.

Falando do clube, que estrutura é oferecida a comissão técnica e jogadores?
Temos um departamento médico e de fisiologia bem estruturados e contamos também com um Centro de Treinamento em virtude de uma parceria com o departamento amador e a empresa CR Promoções. Então, temos todas as condições de trabalho para oferecer ao atleta profissional.

Quantos funcionários ao todo o Mirassol tem hoje?
Edson - Entre atleta e comissão técnica, são 40 funcionários, incluindo roupeiro, massagista, médico...

A preparação do time para este ano difere alguma coisa em relação ao que foi feito nas três edições anteriores em que estiveram na primeira divisão do Campeonato Paulista?
Edson - A preparação foi praticamente a mesma. O que está ocorrendo, acredito, é que fomos mais felizes na montagem da comissão técnica e do grupo de atletas.

E o que o senhor vê de especial nesse time em campo?
Esdon - A união que se formou entre a comissão técnica e os próprios atletas, além das modestas condições que damos à equipe, com salário e premiação em dia.

O contrato dos jogadores vai até quando?
Edson - Os atletas que vieram da base, que são em torno de oito, têm contrato um pouco mais longo. Mas todos os demais têm contrato até 16 de maio.

Encerrado o Paulista, alguns deles podem continuar?
Edson - Exatamente. Temos que renegociar o contrato, coisa que é muito difícil, tendo em vista que a realidade econômica do clube muda drasticamente de um semestre para o outro ( durante o Paulistão, o clube recebe R$ 1,8 milhão da Federação Paulista de Futebol de cota da televisão ).

É possível, em um clube pequeno, ganhar dinheiro vendendo camisa?
Edson - É lógico que a venda é bem menor do que os times de grande torcida, mas a gente tem alguma renda com venda de camisa. E um detalhe: nós pagamos pela confecção de camisas que são colocadas à venda. Nós só temos gratuitamente o fornecimento do material de treino e de jogo, o restante nós pagamos.

O clube tem um ônibus para transporte aqui na cidade. Em jogos fora, vocês viajam com que ônibus?
Edson - Nós alugamos um ônibus em excelentes condições, top de linha. Nós pagamos aproximadamente R$ 3,00 por quilômetro rodado. É um valor considerável, mas em virtude das condições financeiras do Mirassol, que ainda não tem como adquirir um ônibus dessa qualidade, é a maneira viável que encontramos para atender a necessidade.

Como é que fica a situação financeira do clube se for garantida a vaga na Série D do Campeonato Brasileiro, já que terá viagens para cidades mais distantes, por exemplo?
Edson - Já fizemos isso três anos atrás, disputando a Série C, e conseguimos ultrapassar este obstáculo. É evidente que a realidade será outra, mas se nós obtivermos a vaga, como estamos obtendo, vamos tentar também mais uma parceria, um patrocínio para o segundo semestre.

Além de presidente do Mirassol, o senhor é conselheiro do Grêmio Catanduvense, que hoje está na Série A-2. Se o Grêmio subir para a primeira divisão do ano que vem, como vai ser?
Edson - Sou presidente do Conselho e ajudei a fundar o novo clube lá para reiniciar a disputa profissional. Evidentemente que se, isso ocorrer, e eu espero que ocorra, terei que abdicar de uma das funções, ficaria inviável com os dois disputando a mesma divisão. Vamos ter que escolher um clube. Com certeza, não havendo problema na continuidade aqui na presidência do Mirassol, vou continuar como presidente daqui.

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