Da bronca no vestiário na final às mudanças no time, a trajetória do "Velho Lobo" no seu primeiro Mundial como treinador

Os 80 anos que Mário Jorge Lobo Zagallo são festejados por antigos companheiros de uma competição que marcou a vida do treinador. Na Copa do Mundo de 1970, ele recebeu uma geração de craques em meio a grande polêmica envolvendo a convocação de Dadá Maravilha, uma "recomendação" do então presidente Emílio Médici que João Saldanha, seu antecessor, se recusou a aceitar. Zagallo, ao contrário, era a favor da presença do jogador e serviu como seu protetor quando as críticas vieram, como contou o próprio Dadá.

Essa e outras histórias do Mundial foram relatadas ao iG pelos personagens da seleção que muitos consideram a maior de todos os tempos. Da bronca no vestiário no intervalo da final contra a Itália às modificações pontuais na forma de jogar e na escalação do time antes conhecido como "as feras do Saldanha", Tostão, Jairzinho, Piaza, Carlos Alberto Torres descrevem como foi a convivência e a trajetória do "Velho Lobo" no México.

Confira abaixo os relatos dos jogadores de 1970:

Wilson Piazza era volante, mas foi escalado por Zagallo como quarto zagueiro em 1970
Gazeta
Wilson Piazza era volante, mas foi escalado por Zagallo como quarto zagueiro em 1970

Carlos Alberto Torres
"O que lembro de mais importante naquela Copa em 70, foi a intervenção dele no intervalo da final contra a Itália. Estávamos ganhando, demos uma bobeada, e o Zagallo deu uma bronca geral no vestiário. Ele ficava com o braço todo arrepiado. Foi aquele negócio tipo “o que está havendo, vocês estão brincando, vamos lá!”. Foi para acordar quem estava dormindo e voltamos bem para ganhar a Copa. Era um cara muito inteligente, tinha o dom da palavra, se fazia entender com muita facilidade. Essa eu acho que é a razão do sucesso dele. Tem treinador que fala e ninguém entende nada. Ele, com poucas palavras, conseguia o que queria".

"O Zagallo teve uma importância fundamental. Não quero dizer que o João Saldanha não ganharia aquela Copa, não sei. Mas a chegada do Zagallo mudou tudo, tranquilizou todo mundo. O clima estava muito pesado. Ele armou um time diferente do Saldanha. Gosto muito do Zagallo e fico muito feliz de vê-lo chegar aos 80 anos com essa saúde, recuperado daquele problema que teve. Só acho uma coisa que está faltando, a CBF tinha de colocá-lo como diretor de futebol para a Copa de 2014. Por merecimento, não é por favor não. Acho que seria o nome ideal para dar apoio a todo esse trabalho".

Veja também: Atletas da Copa do Mundo de 1994 lembram a empolgação de Zagallo

Tostão
"Zagallo em 1970 quando foi técnico da seleção, fiquei surpreso. Porque os técnicos da época era meio orientadores, falavam em linhas gerais. O Zagallo foi o primeiro que vi trabalhar especificamente a tática, os fundamentos técnicos, os detalhes do adversário, o que os técnicos tentam fazer até hoje. Ele estava à frente daquele tempo, foi um precursor disso tudo. Muita gente até hoje fala que a seleção de 70 não precisava de técnico, porque tinha grandes jogadores, e é o contrário, ele deu uma força de conjunto e disciplina tática muito grande. A participação do Zagallo foi muito importante para a conquista. É uma pessoa extremamente detalhista na parte técnica e tática do jogo, e isso era uma continuação da sua carreira como jogador. Em 58, quando os times jogavam só com dois no meio, ele percebeu que era pouco, e passou a voltar para marcar. Como jogador e como técnico, foi extremamente competente".

Wilson Piazza era volante, mas foi escalado por Zagallo como quarto zagueiro em 1970
Gazeta
Wilson Piazza era volante, mas foi escalado por Zagallo como quarto zagueiro em 1970
Jairzinho
"Coragem, acompanhada da inteligência, e a escalação de vários camisas 10 juntos na Copa do Mundo, um dos motivos do nosso sucesso. Acho que foi a decisão mais importante daquela Copa. Ele sempre foi um grande comandante. Há pessoas que sempre procuram uma forma de colocar defeito, mas quem fez a seleção de 70 ser reconhecida como uma das maiores de todos os tempos foi ele. O time do Saldanha era um, do Zagallo era outro. Ele mudou 80% da equipe. Está de parabéns, que tenha muita felicidade, é uma grande pessoa e um grande conhecedor da arte de jogar futebol".





Dadá Maravilha

"Só tenho a agradecer ao Zagallo. Ele era o grande responsável pelo ambiente fantástico na seleção. E outra coisa: antes do jogo contra a Itália, ele detalhou por completo o gol que o Jairzinho faria. Disse: “Vai pela esquerda porque você é mais rápido e vai pegar o zagueiro em marcação homem a homem. Não deu outra”. Era um treinador detalhista, de muita categoria, não é à toa que tem esse reconhecimento todo. Naquela confusão envolvendo a minha convocação, ele foi o meu protetor. É um homem de muita personalidade. Podia muito bem não me convocar, porque parecia que estava sendo imposto, mas convocou porque eu estava em uma fase esplendorosa, era o jogador que mais fazia gol no Brasil. Ele poderia ter adotado outra postura, mas veio e falou: ‘Convoquei porque é um dos melhores atacantes do Brasil e vou precisar de especialista na posição. Na hora de um sufoco, ninguém é melhor do que o Dadá para cabecear’. Isso enquanto a imprensa era solidária com o João Saldanha. Ele foi o meu protetor e mudou todo o time naquela Copa. Foi importantíssimo para a conquista".

Wilson Piazza era volante, mas foi escalado por Zagallo como quarto zagueiro em 1970
Gazeta
Wilson Piazza era volante, mas foi escalado por Zagallo como quarto zagueiro em 1970
Wilson Piazza
"A chegada do Zagallo foi ruim e boa no meu caso. Logo de início foi ruim. Eu era titular com o Saldanha, jogando como volante. Quando ele chegou, começou a fazer as alterações que julgava necessárias e me sacou da equipe. Em certo momento, veio me perguntar se eu toparia jogar como zagueiro, pois houve algumas contusões. Aceitei na hora, o importante era estar ali naquele grupo. Se quisesse me colocar no gol, eu iria. Nessa hora, o Zagallo chegou para mim e falou então para ficar como quarto zagueiro, que naquela época era um jogador que desafogava a saída de bola quando a marcação estava forte. Fui treinando e as coisas foram acontecendo, a imprensa começou a dizer que acharam um lugar para o Piazza, até que veio um jogo que o Zagallo resolveu fazer teste, contra a Áustria, e fui bem. Vi que tinha segurado a minha vaga entre os 22, mas não era titular ainda. Só vi que seria titular já no México".

"A bronca na final da Copa foi para mexer com os brios. Eu não disse isso para evitar salto alto, nem para o Tostão, com quem eu dividia o quarto, mas senti que seríamos campeões depois que passamos pelo Uruguai. Até fiquei com medo de entrar com excesso de tranquilidade naquela final. A bronca foi, entre outras coisas, pela ‘chaleira’ que o Clodoaldo tentou dar em um italiano, que acabou dando o gol de empate a eles. Ele usou os caras que participaram em 66, porque já tinham aquela experiência ruim que não poderia se repetir. Engraçado mesmo foi logo depois, já no campeonato nacional. Joguei de quarto zagueiro pelo Cruzeiro, fui muito bem, e ganhamos do Botafogo, que depois falou: 'Criei uma cobra para me picar, não é?'. Só quero dizer parabéns, saúde, muitos anos de vida e obrigado pela oportunidade de ser campeão sob comando dele".

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