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Consultor do Botafogo relembra histórias e busca título 'em casa'

Com mais de 40 clubes no currículo, Evandro Mota conta histórias do tetra e defende trabalho de mobilização

Renan Rodrigues, iG Rio de Janeiro |

Evandro Mota tem um currículo invejável, mas não é tão conhecido como jogadores e treinadores do futebol brasileiro. Engenheiro de formação, mas campeão mundial com a seleção em 1994 e com o Inter em 2006, além de ter participado da conquista de diversos outros torneios, o consultor do Botafogo concedeu entrevista exclusiva ao iG. Nela, ele recusa o rótulo de 'motivador', explica a relação especial com o Botafogo, defende a importância do trabalho de mobilização e palestras, e revela histórias dos bastidores da seleção. Confira a íntegra da entrevista.

iG: Como foi a transição de estudante de Engenharia para consultor e mobilizador?
Evandro Mota: Eu sempre fui envolvido com esporte. Fui atleta de basquete, natação e futebol de praia do Botafogo. Estava terminando meu curso de Engenharia pela PUC e um dia, saindo de um treino da equipe de futsal da faculdade, um colega me convidou para acompanhar uma palestra. Para não perder o amigo, acabei aceitando sem muito entusiasmo, mas fiquei perto da porta para sair na primeira brecha.
A palestra era sobre qualidade total e naquele dia tive uma ideia: aplicar aqueles princípios industriais em mim, como atleta. Conversei com Carlos Alberto Gaglianoni, que era triatleta e meu amigo pessoal e ele começou a colocar em prática aquela ideia, batendo recordes e conquistando bons resultados. O boca a boca dos resultados objetivos me levou para outros esportes, como o vôlei, basquete e então não parei mais.

Renan Rodrigues
Evandro Mota, à esquerda, conversa com o preparador físico Solivan Dalla Valle no Engenhão
iG: Muricy disse recentemente que acha absurdo ‘colocar um vídeo com a avó do jogador chorando’, pois os jogadores podem entrar desconcentrados. O que você acha de treinadores que não utilizam palestras e trabalhos motivacionais?
Evandro Mota:
É importante que cada um tenha a liberdade de usar os instrumentos que acredita. Só funciona a partir do momento que o comando acredita no instrumento. Com relação a essa caricatura que o Muricy faz a respeito deste tipo de trabalho, passa bem longe do que faço. Sou engenheiro, meu trabalho é baseado em números, em fatos, exemplos. Nunca passei vídeos com vovozinha de jogador pedindo que ele vença a partida, que fique chorando. Essa caricatura não bate com meu trabalho, se bate com outros, não sei. Tenho que respeitar a decisão do comandante de usar ou não esse instrumento. Mas os que usam têm passado um feedback muito legal. Um exemplo que dou é que de 2004 para cá, foram 24 situações de times campeões. Acho que é muita coincidência para ser só coincidência.

iG: E os jogadores? Não existe uma parcela que desvaloriza ou ignora seu trabalho? Como é a aceitação nos clubes?
Evandro Mota:
O jogador profissional, quando chega num determinado nível, qualquer coisa que ele sinta que pode ajudar, ele se abre para o trabalho. Então quando chego nos lugares, é difícil que tenha algum atleta que eu não tenha dado uma palestra e isso é positivo. Na própria conversa entre eles, os comentários, recomendações. Isso facilita meu trabalho, me ajuda.

iG: Você esteve no Botafogo na infância, como atleta, no título Brasileiro de 95 e agora. Qual a visão sobre a estrutura? Melhorou ou piorou?
Evandro Mota:
Fiquei feliz como profissional e também como botafoguense de encontrar o Botafogo do jeito que está hoje. Pessoas sérias, competentes. Quando se fala em busca da excelência, isso está muito bem representado aqui no dia a dia do clube. As pessoas, os profissionais envolvidos, a direção, então fiquei muito feliz em ver as condições que estão sendo dadas aos atletas do Botafogo. E depois de passar por mais de 40 clubes, posso dizer isso de maneira isenta.

iG: Você esteve na comissão técnica da seleção em dois momentos distintos. O tetra na Copa de 94 e o vice-campeonato em 98. Qual a lembrança mais marcantes desses momentos?
Evandro Mota: Em 1994, passamos por um momento muito difícil, de crise e conseguimos dar aquela volta por cima. Mas o que mais me marcou foi a influência do Ayrton Senna. Um mês antes da primeira palestra, tinha todo material pronto, baseado no Senna, mas infelizmente no dia 1° de maio ele faleceu. Só tive coragem de ligar para o Carlos Alberto Parreira três dias depois para avisar. Ele me chamou para uma conversa e contou um episódio. Num amistoso contra o PSG, da França, Senna deu o pontapé inicial e foi até o vestiário. Ele cumprimentou os atletas e disse uma coisa para o Parreira: “Esse ano um de nós dará uma grande alegria ao povo brasileiro. Ou eu serei tetra na Fórmula 1, ou vocês serão tetra com a seleção. Vamos dividir essa responsabilidade”. Perguntei ao Parreira se os jogadores sabiam disso e ele disse que não. Pensei ‘meu material está salvo’.

Abri minha palestra contando isso aos jogadores e dizendo que o Senna, infelizmente, não poderia mais dar o título, mas que nós estávamos ali e poderíamos vencer a Copa usando ensinamentos que ele havia deixado. Fomos campeões e os jogadores lembraram dele com aquela faixa em campo, foi a coisa que mais me marcou nestes anos de trabalho com a seleção brasileira.

iG: Você já realizou trabalhos em times diferentes, mas que disputavam a mesma competição. Isso não cria uma situação antiética? Como os clubes encaram isso?
Evandro Mota:
Já aconteceu e eu fico muito feliz na confiança que os profissionais depositam em mim neste aspecto. Em 2005, aconteceu de eu estar no Fluminense e o Vágner Mancini, então treinador no Paulista, antes da Copa do Brasil começar, me chamar para realizar um trabalho. Ele minimizou, disse que os clubes estavam em chaves diferentes e não teria problema. Resultado? A final daquele ano foi justamente entre Fluminense e Paulista. Antes do jogo, era a única pessoa no estádio que tinha certeza de que não iria comemorar nada, porque estava envolvido com as duas histórias. É claro que o atendimento que dei para o Santos quando estava lá full time, era diferente do que dava para outro clube. Eu sempre deixava claro para a equipe que me procurava e para a equipe onde estava fixo. Por isso tenho o respeito dos profissionais e técnicos até hoje.

iG: A cultura no Brasil ainda é de procurar palestras e trabalhos de mobilização quando o time está correndo risco de rebaixamento?
Evandro Mota:
Já foi assim, mas atualmente melhorou muito. Faço muito mais projetos em equipes durante a pré-temporada do que fazia antigamente. Mas aconteceu também de ser chamado no ‘sufoco’. Foram 14 equipes que peguei lutando para não cair e acabei sendo rebaixado com quatro delas. Acho que os clubes estão entendendo que o trabalho de preparação é melhor que o de correção.

iG: Dentro de uma equipe campeã, qual o percentual responsável pelas palestras? Qual o peso disso?
Evandro Mota:
Fico muito à vontade para falar disso, porque sou daqueles que acreditam no trabalho, que confiança e segurança vem com bons treinamentos, melhoria de desempenho. Acredito num trabalho integrado, como é feito aqui no Botafogo. Sinceramente nunca me preocupei em colocar o peso, mas sim em ter as intervenções nos momentos certos. Em algumas etapas, são fundamentais as intervenções, por exemplo na pré-temporada, antes de alguma competição, ao longo do torneio, seja numa sequência ruim ou boa. Estou totalmente integrado à filosofia da comissão técnica e acredito que assim deve funcionar o trabalho.

iG: Com tanto tempo de carreira, nunca passou pela sua cabeça se tornar treinador profissional, fazer algum curso para assumir o comando de um time?
Evandro Mota:
Cada macaco no seu galho. Tive o prazer e o privilégio de desenvolver um trabalho que é único, não existe dessa maneira. E no Botafogo é ainda mais legal, pois eu trabalho em conjunto com a Maíra Ruas Justo, que é a psicóloga. Muitas vezes se bagunça na cabeça das pessoas, que o meu trabalho substituiria a psicologia e não é nada disso. Está sendo excelente para mostrar de que não tem nada uma coisa com outra. Tenho uma estrada de mais de 30 anos, mas ainda quero crescer, ainda dentro da minha área.

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Ronaldo e Viola beijam taça da Copa de 1994. Mota trabalhou com aquele elenco
iG: Qual foi o primeiro contato com o técnico Caio Júnior? Como surgiu o convite para o Botafogo?
Evandro Mota:
Foi no Paraná Clube, quando ele ainda era jogador. Inclusive fez o gol do título estadual numa época muito boa do Paraná. A gente sempre manteve contato depois da minha passagem por lá. Quando ele começou como técnico, passei a ajudar também. Fiz trabalhos no Palmeiras, Flamengo, Goiás, em várias equipes. Ele é um dos 12 ex-jogadores que viram minha palestra e, depois de se tornarem treinadores, continuaram pedindo minha participação nos projetos de suas equipes. Então foi tudo de maneira natural.

iG: O Campeonato Brasileiro de pontos corridos é longo e totalmente diferente de uma Libertadores, por exemplo, que possui jogos eliminatórios. Como motivar um grupo durante um período tão maior?
Evandro Mota:
Na realidade meu trabalho não é de motivação. Ela até faz parte, mas é um trabalho de mobilização que envolve conscientização, reconhecimento, busca na melhoria da performance e a qualidade total. Envolve tudo isso e também a motivação. Só que a motivação acaba sendo consequência de outras coisas.

No caso das experiências bem sucedidas que tive no Brasileirão, sempre tratamos o campeonato com estratégia de uma maratona. Não adianta tratar como uma prova de 100m rasos. Na realidade são vários campeonatos brasileiros em um só. Existe a janela internacional, um período de jogos no meio da semana, um período de longas viagens. Então a comissão técnica identifica essas particularidades e traça metas, em cima disso que nós trabalhamos.

iG: Qual foi o sentimento por ter participado de boa parte das eliminatórias para a Copa de 2006 e não ter sido chamado para realizar trabalhos durante o torneio?
Evandro Mota:
Eu sou engenheiro, então vejo as coisas numa parte bem prática e realista. Não posso dizer que se estivesse lá, algo teria sido diferente. Por outro lado, como minha mãe diz, tudo dá certo comigo. Não fui para a Copa, mas fui trabalhar no Internacional durante o período da competição internacional. Conquistamos a Copa Libertadores e depois o Mundial. No fim, conquistei um título muito importante e que não tinha no currículo. Acho que deu tudo certo.

iG: Existem casos em que o próprio elenco apresenta um tema interessante para uma palestra? Qual caso ficou marcado?
Evandro Mota:
Sim, aliás é uma das melhores e mais marcantes histórias. Com o Inter, em 2006, indo para a disputa do Mundial de Clubes, ouvi um jogador, no momento em que o avião fazia uma escala em Paris, comentar na poltrona de trás. “Jamais pensei que voltaria aqui nesta situação”. Insisti e ele me contou sua história. O jovem jogador foi para Paris levado por empresários, mas acabou sendo enganado. Lá não foi contratado por nenhum clube, teve que morar em um lugar horrível e mal tinha dinheiro para comer. Fingia que fazia compras em um supermercado e comia frutas para sobreviver. Sem dinheiro para voltar ao Brasil, ele foi de trem até Marselha, na França, pedir ajuda para um brasileiro recém-contratado do Olympique.

O jovem foi auxiliado, alimentado e encontrou um time. Pôde ganhar dinheiro e voltar ao Brasil. E por obra do destino, os dois estavam naquele mesmo time e contei essa história para todo elenco. Um era o zagueiro Edinho, que atualmente está no Fluminense, e o outro era o Fernandão, atacante do São Paulo, que havia ajudado Edinho. Isso foi muito legal, pois fechou mais ainda o grupo. Disse ‘é muita coincidência para ser só coincidência. É uma história de filme e vai ter um final feliz’. Foi algo que me marcou muito no Mundial e que ficou na memória daquele elenco na vitória.

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