Brasileiro naturalizado polonês atua na Grécia, país que passa por grave crise econômica, e diz não ter mágoa do Corinthians

Roger Guerreiro, brasileiro que joga pela seleção da Polônia
Getty Images
Roger Guerreiro, brasileiro que joga pela seleção da Polônia

O ano era 2003, e o Corinthians enfrentava o River Plate pelas oitavas de final da Copa Libertadores. No último minuto do primeiro tempo, o lateral esquerdo Roger Guerreiro foi expulso depois de acertar um pontapé em D'Alessandro , prejudicando a equipe brasileira, que seria eliminada pelos argentinos dentro de casa, diante de 66.666 pessoas no estádio do Morumbi. Acabava ali a trajetória do atleta na equipe alvinegra.

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Entretanto, a carreira de Roger tomou um rumo diferente e inesperado depois dessa partida. O jogador se transferiu para o Flamengo , brilhou na conquista do estadual de 2004 e despertou interesse do futebol europeu. E foi na Polônia, defendendo as cores do Legia Varsóvia, que ele se destacou e, a pedido do treinador da seleção daquele país, se naturalizou para jogar a Euro de 2008.

"Nada acontece por acaso. Passei por muitas coisas no futebol e o que aconteceu de ruim serviu como experiência. Se eu não tivesse sido expulso naquele jogo, minha sequência no Corinthians teria sido diferente e minha carreira teria seguido um outro rumo", disse Roger Guerreiro em entrevista exclusiva ao iG , sem demonstrar qualquer mágoa pelo clube paulista.

Roger Guerreiro joga no AEK, da Grécia
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Roger Guerreiro joga no AEK, da Grécia
O atleta sonha em disputar mais uma edição da Eurocopa, desta vez na própria Polônia, que vai organizar o torneio de 2012 em conjunto com a Ucrânia. Antes, porém, Roger tem que saber lidar com a dificuldade de jogar no futebol grego. Atualmente no AEK Atenas, clube que defende desde 2009, o brasileiro admitiu que não recebe salários há algum tempo, muito em função da grave crise financeira que assola o país.

Confira a íntegra do bate-papo com Roger :

iG: Pretende disputar a Euro 2012 com a camisa da Polônia?
Roger: Eu tenho esperança. O treinador não é o mesmo que pediu minha naturalização, na época foi o Leo Beenhakker, joguei dois anos seguidos na seleção polonesa, mas aí houve a mudança de treinador, mudei de clube, passei por alguns problemas e acabei não sendo mais convocado. Depois fui chamado de novo. Não fui mais com a mesma frequência, mas continuo com a esperança de ir para a Euro sim.

iG: Existiu algum tipo de resistência ou reclamação por conta da sua naturalização?
Roger: Mexeu muito com a Polônia. No dia da entrega da minha cidadania passou em todos os canais de TV, fizeram enquete para ver quem era a favor e quem era contra, mas o importante é que no final deu tudo certo, fui bem recebido na seleção. E depois fiquei sabendo que o treinador fez uma reunião com os principais jogadores do time para questioná-los sobre a possibilidade e eles falaram que eu seria bem-vindo se fosse com pensamento coletivo, de ajudar. E não foi à toa que joguei a Euro de 2008 e quase todos os jogos das eliminatórias da Copa de 2010.

iG: Você atua na Grécia, mas costuma visitar a Polônia?
Roger: Não tenho residência fixa na Polônia, morei três anos e meio lá e hoje vivo na Grécia. Mas tenho amigos na Polônia, tenho contrato de patrocínio com a Nike polonesa e sempre retorno ao país.

iG: E a Polônia já está preparada para sediar a Euro?
Roger: Estão preparados sim. Não visitei todos os estádios, foram todos reformados. Acho que vai acontecer com a Polônia o que aconteceu com Portugal, que foi sede da Euro de 2004, o país deu uma crescida em muito aspectos. Na Polônia foi feita uma mudança no transporte coletivo, muitas coisas para receber bem os turistas. Vai ser uma grande Eurocopa.

iG: E visitas ao Brasil?
Roger: Volto sim. Eu voltava duas vezes por ano quando eu jogava na Polônia, porque tem a pausa de inverno, mas na Grécia não tem férias de fim de ano, o campeonato não para, então todo meio do ano eu visito a família no Brasil.

iG: Se você não tivesse sido expulso naquele fatídico jogo de 2003, quando o Corinthians foi eliminado pelo River Plate na Libertadores, acha que estaria jogando pela Polônia?
Roger: Nada acontece por acaso. Passei por muitas coisas no futebol e o que aconteceu de ruim serviu como experiência. Se eu não tivesse sido expulso naquele jogo, minha sequência no Corinthians teria sido diferente e minha carreira teria seguido um outro rumo. Mas depois fui para o Flamengo, tive um ano muito bom, logo depois fui para a Polônia. Aprendi com tudo que aconteceu e até hoje fiz uma carreira boa, tenho muitos títulos e estou feliz com minha trajetória.

Roger é expulso na partida em que o Corinthians foi eliminado pelo River Plate, em 2003
Gazeta Press
Roger é expulso na partida em que o Corinthians foi eliminado pelo River Plate, em 2003
iG: Então você aceitaria voltar para o Corinthians? Tem algum tipo de mágoa do clube?
Roger: Não vejo nenhum problema nisso. Mas o Corinthians tem outras prioridades nas contratações. Eu jogava de lateral esquerdo no Brasil e aqui na Europa sempre joguei no meio-campo, então acho bem improvável uma volta para o Corinthians agora. Mas se surgisse alguma proposta, eu ficaria bem contente.

iG: Voltar para o Brasil agora, então, nem pensar?
Roger: Nunca podemos fechar as portas. Estou há sete anos na Europa e às vezes bate uma saudade do futebol brasileiro, uma vontade de jogar no Brasil novamente. A gente deixa nas mãos de Deus, o que ele preparar a gente tem que seguir, seja na Europa ou no Brasil. Tenho pensamento de jogar a Euro e voltando para o Brasil minha visibilidade vai diminuir e aqui é mais fácil de tentar uma convocação.

iG: Mas algum clube brasileiro te procurou recentemente para você retornar?
Roger: Sondagens recebi sim, mas quem pode falar alguma coisa mais concreta é meu representante, que me confirmou esses contatos, mas não falou nome de clubes. Sempre aparece sondagem e tal. Tenho mais um ano e meio de contrato aqui na Grécia, então para qualquer negociação teria que conversar com o clube. Tudo é possível.

iG: Por falar em Grécia, o país vive uma grave crise financeira. Como está sendo morar e jogar no meio de tanta pressão?
Roger: Eu moro longe do centro de Atenas, onde acontecem os protestos e os conflitos, mas a gente sempre fica sabendo o que o governo pretende fazer. E essa crise pegou todo mundo, aqui no clube já estamos há um bom tempo sem receber salários. O AEK, inclusive, está procurando investidor para comprar o clube e acertar as dívidas. Estamos passando um sufoco, mas a gente segue trabalhando.

iG: Sobre esse atraso salarial, não pensa em acionar a Justiça ou procurar a Fifa?
Roger: Sempre converso com meu empresário sobre as possibilidades. A última coisa que o atleta deve fazer é entrar na Justiça, mas caso não haja alguma outra solução, não tem jeito. É uma coisa que a gente não pode dizer nem que sim e nem que não.

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