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Apesar de ainda não terem a estutura ideal, times melhoram administrações e colhem bons resultados

Alexandre Vidal/Fla Imagem
Vanderlei Luxemburgo acompanha obras no 'Ninho do Urubu', centro de treinamento do Flamengo
Caso consigam manter o aproveitamento que alcançaram até a 24ª rodada do Campeonato Brasileiro , os clubes do Rio de Janeiro podem fazer história. Se a competição terminasse hoje, Vasco , Botafogo e Fluminense estariam classificados para a Copa Libertadores de 2012 - a primeira vez que três equipes do estado garantiriam vaga no torneio internacional.

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A mudança de desempenho das equipes cariocas no futebol brasileiro não é exclusiva desta temporada. Em 2009, o título de campeão brasileiro ficou com o Flamengo . Um ano depois, o Fluminense repetiu a conquista. Nesta temporada o Vasco já garantiu o título da Copa do Brasil , a vaga na Copa Libertadores e ainda lidera o Brasileirão mesmo com o abalo pelo AVC (Acidente Vascular Cerebral) sofrido pelo técnico Ricardo Gomes .

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Porém, mesmo com a conquista do título brasileiro, o técnico Muricy Ramalho deixou o Fluminense nesta temporada alegando que a estrutura da equipe das Laranjeiras ainda era deficiente e que as melhorias não eram realizadas. As queixas levantaram a questão sobre o bom momento dos times no Brasileiro. Fruto de administrações realmente diferentes ou apenas uma combinação de sucesso dentro de campo? Para o presidente do Botafogo, Maurício Assumpção, a primeira alternativa é a correta.

"Ninguém é campeão por acaso. Os times podem não ter, e ainda não têm, a melhor estrutura do país, mas é possível tentar dar melhores condições de treinamento, de suporte profissional. Na última pesquisa da Universidade Federal de Viçosa, do ano passado, estávamos em 10º lugar, a melhor equipe do Rio. Temos cada vez mais trabalhado para melhorar essa questão, assim como sei do esforço da Patrícia Amorim (presidente do Flamengo), do Peter Siemsen (Fluminense) e do Roberto Dinamite (Vasco) pelo mesmo objetivo", declarou Assumpção.

Profissionalização dos dirigentes
Mais do que a questão dos CTs, para Assumpção a grande mudança dos clubes aconteceu pela profissionalização dos cargos de gerência dos times de futebol e manutenção de funcionários das comissões técnicas mesmo com troca de treinadores. Antes, era comum que vice-presidentes de futebol, posto que na maioria dos clubes não é remunerado, fossem responsáveis por contratações e planejamento das equipes.

A disputa por profissionais para cargos administrativos se tornou tão grande quando por bons jogadores. Rodrigo Caetano, diretor executivo do Vasco, foi disputado pelo Fluminense no início deste ano, mas optou por permanecer em São Januário após o título da Copa do Brasil.

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Planejamento agradou jogadores de seleção brasileira, como Renato, do Botafogo
Satiro Sodré/Divulgação AGIF
Planejamento agradou jogadores de seleção brasileira, como Renato, do Botafogo
"As diretorias estão mais profissionais, as comissões técnicas mais estáveis. Hoje nós temos o Rodrigo Caetano no Vasco e o Luiz Augusto Veloso no Flamengo como diretores executivos, cuidando do futebol. O Fluminense contratou o Marcelo Teixeira para gerente de futebol e nós temos o Anderson Barros, que está desde que eu assumi, em 2009. É importante ter essa gestão profissional, com pessoas que além da vontade em ajudar, são capacitadas na área", declarou Assumpção.

Salários em dia atraem jogadores
Se no passado, os jogadores das equipes cariocas sofriam com meses de salários atrasados, o cenário atualmente é bem mais animador com os clubes pagando em dia. Além de garantir a manutenção de peças importantes, a adimplência passou a atrair atletas que antes não teriam interesse em defender as equipes cariocas.

"Meu pai jogou no futebol do Rio e falava muito bem. Quando o Vasco me procurou, aceitei o desafio. Já tinha jogado em outros estados, faltava o Rio. Vim para o Vasco, e realmente tudo aquilo que o Rodrigo Caetano (diretor executivo) e o Roberto Dinamite (presidente) me disseram foi cumprido. Aqui no Vasco não falta nada, é um clube de muita tradição e que confirma sua condição de vencedor", declarou o atacante Alecsandro.

O goleiro Felipe, do Flamengo, concorda com a evolução na administração dos clubes. O jogador também cita o aumento da qualidade técnica das equipes cariocas, que contrataram jogadores como Ronaldinho Gaúcho , Renato , Thiago Neves e outros jogadores com passagem pela seleção brasileira .

"Nada é por acaso. Ninguém pegou o Flamengo e colocou ali entre os primeiros colocados. Os clubes estão trabalhando, montando elencos fortes, com grandes atletas de fora voltando para jogar no Rio. Antes, eles sempre foram para São Paulo. Temos muitos jogadores convocados no Rio, como Jefferson, Dedé, Ronaldinho e Thiago Neves", declarou o goleiro Felipe.

CTs ainda são 'calcanhar de Aquiles'
Apesar da evolução na administração dos clubes cariocas, os centros de treinamento continuam sendo um dos principal problemas para os treinadores e jogadores. Apenas o Flamengo possui um CT separado da sede social, o 'Ninho do Urubu', que ainda não foi finalizado e conta com estruturas provisórias. O Botafogo treina em General Severiano ou no campo anexo do estádio Engenhão. O Fluminense realiza suas atividades na sede das Laranjeiras, enquanto o Vasco treina em São Januário.

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O atacante Fred , do Fluminense, comenta a melhoria administrativa, mas lamenta que os locais de treinos não sejam adequados. "Os clubes do Rio aprenderam a se organizar, mas a falta de um CT ainda pesa muito no dia a dia do nosso trabalho. Isso faz toda a diferença. Em relação ao nível técnico, os clubes do Rio hoje se equiparam a qualquer um do país. Os clube se organizaram, se planejam com antecedência e melhoraram demais a estrutura interna, como sala de fisioterapia, fisiologia, academia, entre outras coisas", disse Fred.

Planejamento agradou jogadores de seleção brasileira, como Renato, do Botafogo
Satiro Sodré/Divulgação AGIF
Planejamento agradou jogadores de seleção brasileira, como Renato, do Botafogo
No início de setembro, dirigentes dos quatro clubes se reuniram com o prefeito do Rio, Eduardo Paes, para obter ajuda do município na construção dos centros de treinamento. Ainda não foram definidas as formas da parceria, que poderá contar com incentivos fiscais ou mesmo doação de terrenos. Outro ponto que não foi definido é a contrapartida que os times terão que dar, com projetos sociais e ações que beneficiem a população. Além disso, a prefeitura quer oferecer os CTs como sede para as seleções na Copa de 2014.

"Estamos em entendimento com a prefeitura para um acordo de investimento dos Cts dos quatro clubes grandes do Rio de Janeiro. Mas ainda estão definindo a contrapartida, o que os clubes irão oferecer para a sociedade. Além disso, os espaços seriam usados como sedes para as seleções na Copa", explicou o presidente do Botafogo, Maurício Assumpção.

Administração elogiada por outros clubes
Fora do Rio de Janeiro, a opinião sobre o novo momento dos clubes cariocas e as mudanças de planejamento também são destacadas por dirigentes. Para o vice-presidente de futebol do São Paulo, João Paulo de Jesus Lopes, a fórmula de pontos corridos, aplicada desde 2003, obrigou os times a se organizarem, já que a possibilidade de uma equipe irregular chegar ao título é pequena.

"A fórmula dos pontos corridos estimula a organização. Ou seja, os clubes que se organizaram melhor, sem dúvida nenhuma vão ter uma participação muito melhor no Brasileirão do que aqueles que não forem organizados. Isso é uma decorrência dos pontos corridos, as coisas são mais lógicas, foge da eventualidade que acontecem no mata-mata. Acabam se posicionando melhor aqueles com estrutura melhor. E isso a gente tem observado nos últimos três anos no futebol carioca", declarou Jesus Lopes.

Para Duílio Monteiro Alves, diretor de futebol do Corinthians, a evolução não acontece apenas no futebol do Rio. O dirigente acredita que todos os times estão melhorando na gestão do esporte. "Não só no Rio, mas no futebol brasileiro está mais evidente que os clubes estão tentando profissionalizar sua gestão. A administração bem conduzida de um clube é que vai dar condições a ele para disputar títulos. Não garante, mas possibilita. A gente vê isso no Vasco que passou por algo parecido com o Corinthians (rebaixamento) e se reergueu", declarou o cartola corintiano.

Planejamento agradou jogadores de seleção brasileira, como Renato, do Botafogo
Satiro Sodré/Divulgação AGIF
Planejamento agradou jogadores de seleção brasileira, como Renato, do Botafogo
Responsável pelo início da recuperação do Vasco, o técnico Dorival Júnior, que subiu com a equipe carioca para a primeira divisão em 2009 e atualmente comanda o Internacional, acredita em uma mudança de mentalidade nos quatro times do Rio.

"Alguma coisa está sendo feita. O Vasco reiniciou um trabalho e está começando a colher. Souberam usar desse período recente para um aprendizado. Foi assim com o Fluminense no ano passado, com o Flamengo também. Estarão brigando novamente neste ano. Algo diferente está sendo feito. Botafogo também está fazendo uma campanha bonita. Acho que as equipes do Rio voltaram a serem equipes competitivas. É um fato novo no nosso futebol", disse o técnico do Internacional.

*Colaboraram: Bruno Winckler e Mário Monteiro, iG São Paulo; Gabriel Cardoso, iG Porto Alegre e Hilton Mattos, Thales Soares e Marcello Pires, iG Rio de Janeiro

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