Após quedas de Renato Gaúcho e Falcão, nenhum time da Série A tem um ex-ídolo como jogador no comando

A recente demissão de Paulo Roberto Falcão do comando do Internacional e, um pouco antes, a saída de Renato Gaúcho do Grêmio mostraram mais uma vez que não basta ter sido ídolo de um clube para segurar a pressão do cargo de técnico. Com as mudanças nos dois times gaúchos, a Série A do Brasileirão hoje não tem nenhum “técnico ídolo” no comando das 20 equipes participantes.

Vanderlei Luxemburgo , no Flamengo , e Abel Braga , no Fluminense , são os dois treinadores que também tiveram passagens como jogadores pelos respectivos clubes. Nenhum dos dois, no entanto, atingiu status de estrala do time na época de atleta. No Palmeiras , Luiz Felipe Scolari muitas vezes é considerado o grande nome. Mas mesmo sua primeira passagem pelo clube, na década de 90, foi já como técnico.

O posto de ídolo garantia a Renato Gaúcho o apoio da torcida no Grêmio, mas mesmo assim ele não suportou os maus resultados
Hector Werlang
O posto de ídolo garantia a Renato Gaúcho o apoio da torcida no Grêmio, mas mesmo assim ele não suportou os maus resultados

Falcão e Renato Gaúcho, no entanto, não são exceções. Praticamente todos os grandes clubes brasileiros possuem em suas histórias episódios de grandes jogadores voltaram como técnicos ou dirigentes e acabaram “queimados”, seja com a torcida ou com outros membros da diretoria.

Raul Plassmann, ex-goleiro do Cruzeiro e do Flamengo , mostra entender bem esses riscos. E descarta comandar uma das duas ex-equipes. “Jamais treinaria Cruzeiro ou Flamengo. Não entraria em uma posição no profissional onde teria que fazer parte do processo diariamente, sendo cobrado, pressionado. Por isso vim para a base do Cruzeiro”, afirmou ao iG .

“[Ser técnico desses times] arriscaria a minha condição de ídolo, algo que eu criei em muito tempo. Não dá para queimar a imagem que criei no Flamengo e no Cruzeiro por conta de um mau trabalho como treinador, sendo demitido rapidamente. Não que eu não tenha capacidade. Para qualquer outro time eu iria, aí se trabalha com mais tranquilidade”, completou.

Como nem todos os grandes ídolos do passado pensam como Plassmann, o iG relembra abaixo alguns dos casos mais marcantes de ex-jogadores que, como técnicos ou dirigentes, não tiveram o mesmo sucesso nas antigas equipes.

Falcão - Internacional

Foi anunciado pelo clube como um grande lance para substituir Celso Roh e ainda alavancar ações de marketing. Na primeira semana o ídolo participou de um comercial de TV pedindo novos sócios e nos primeiros jogos obteve três vitórias consecutivas. Mas a primeira crise também não demorou a chegar, com a queda nas oitavas-de-final da Libertadores dentro de casa contra o Peñarol.

Falcão deu a volta por cima ao conquistar o Estadual em cima do Grêmio, mas atraiu o desagrado dos dirigentes ao declarar, no começo do Brasileirão, que o elenco não era qualificado para disputar o título. Quando o time sofreu três derrotas seguidas, o presidente Giovanni Luigi ignorou o posto de ídolo e demitiu Falcão junto do vice de futebol Roberto Siegmann.

Renato Gaúcho - Grêmio

Contratado para salvar o time do rebaixamento em 2010, surpreendeu e classificou o Grêmio para a Libertadores. A troca na direção em 2011 trouxe rusgas, amenizadas pelo apoio da torcida e pelo posto de principal garoto propaganda assumido pelo treinador. Mas com a derrota no Gauchão contra o Inter e a eliminação na Libertadores, Renato não resistiu no cargo.

A saída, nesse caso, partiu do próprio treinador. À época, o presidente Paulo Odone até lamentou o ocorrido. “É muito difícil demitir um ídolo. Tem gente que diz que nunca se deve contratar quem não se pode demitir. Renato não é um ídolo só da torcida, é um ídolo meu. Mas não é por causa dessa condição que ele será eternamente treinador”.

O posto de ídolo garantia a Renato Gaúcho o apoio da torcida no Grêmio, mas mesmo assim ele não suportou os maus resultados
Hector Werlang
O posto de ídolo garantia a Renato Gaúcho o apoio da torcida no Grêmio, mas mesmo assim ele não suportou os maus resultados

Hugo de León - Grêmio

Colega de Renato Gaúcho no título mundial de 1983, também foi demitido por Paulo Odone. Em 2005, assumiu o time com a missão de voltar à Série A após o rebaixamento no ano anterior. Com eliminações prematuras no Estadual e na Copa do Brasil, caiu antes mesmo do início da Série B, abrindo espaço para a chegada de Mano Menezes.

Andrade - Flamengo

Campeão brasileiro em 2009, acabou dispensado no ano seguinte mesmo tendo classificado o time para a segunda fase da Libertadores. Até hoje o clube não pagou tudo que deve ao treinador, que está desempregado no momento. Na época, mesmo com um confronto com o Corinthians se aproximando, foi substituído por Rogério Lourenço, que jamais havia comandado uma equipe profissional.

Zico - Flamengo

O ex-camisa 10 durou apenas quatro meses no cargo de diretor de futebol em 2010. Perseguido por algumas alas de dirigentes do clube, teve dificuldades para reforçar o elenco, sofreu com acusações e acabou pedindo demissão por meio de um SMS enviado à presidente Patrícia Amorim um dia antes do último jogo do técnico Silas no comando do time.

Júnior - Flamengo

Foi escolhido pelo então presidente Márcio Braga para comandar o futebol do Flamengo em 2004. Depois de conquistar o Campeonato Carioca, viu o trabalho entrar em queda com a derrota para o Santo André na final da Copa do Brasil. Entrou em conflito com o vice-presidente Artur Rocha quando este pagou R$ 1 milhao pelo atacante Dimba ao mesmo tempo em que muitos jogadores estavam com salários atrasados. O time teve quatro técnicos na temporada e passou por séria ameaça de rebaixamento, o que provocou sua saída.

Leão - Palmeiras

Assumiu o comando do time em julho de 2005 e conseguiu classificar a equipe para a Copa Libertadores do ano seguinte. Mas após uma série de maus resultados, acabou demitido. Houve especulações de que ele teria sido “derrubado” pelos próprios jogadores, incomodados com seu estilo autoritário.

Toninho Cerezo - Atlético-MG

Os torcedores mais radicais já tinham restrições a Toninho por ele ter defendido o Cruzeiro em 1994. Cinco anos depois, como diretor de futebol, brigou com o então técnico Carlos Alberto Torres e assumiu seu lugar. Foi demitido depois de ser eliminado pelo Bahia na Copa do Brasil e de ser goleado por 5 a 1 pelo Cruzeiro. No mesmo ano, já comandando o Vitória, foi chamado de mercenário por 100 mil atleticanos em jogo contra o ex-clube. Hoje ele frequenta os jogos do Atlético-MG e faz questão até de pagar ingressos, atitude que o reaproximou da torcida.

Pablo Forlán - São Paulo

Antigo ídolo do clube do Morumbi, o uruguaio dirigiu o time em 1990, mas sem grandes resultados logo acabou demitido. Foi substituído pelo treinador mais vitorioso da história do clube, Telê Santana. Até por isso, faz questão de ressaltar sua contribuição para os títulos que viriam nos anos seguinte. “Eu coloquei no time de cima o Cafu e o Antônio Carlos. E mandei contratar o Leonardo, que era do Flamengo”, já disse o ex-lateral-direito.

* com iG Rio de Janeiro, iG Porto Alegre e iG Belo Horizonte

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.