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Futebol
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Carpegiani revela 'tara' pela Libertadores e diz: "Mato no peito"

Em entrevista ao iG, treinador relembra momentos da carreira e fala da postura serena, mas perfeccionista

Levi Guimarães, iG São Paulo |

Mesmo com o São Paulo fora da Copa Libertadores em 2011, o técnico da equipe, Paulo César Carpegiani, mostra um sentimento especial ao falar da competição e o desejo de voltar a vencê-la - ele foi campeão com o Flamengo, em 1981, logo em seu primeiro trabalho como treinador. Em entrevista exclusiva ao iG, o comandante são-paulino diz ter uma "tara” pelo principal torneio do continente. Se o torcedor do clube ainda não se identificava com ele, são boas as chances de isso mudar.

Carpegiani também demonstra ser um técnico sereno, que dificilmente vai “estourar” com o time à beira do gramado ou se estressar tanto a ponto de ter problemas de saúde. Questionado se é um estudioso do futebol ou um técnico motivador, ele encontra uma outra opção. “Sou um pouco sonhador. Sou aquariano, imagino que as coisas vão sempre ser boas, perfeitas”.

Perfeccionista ao extremo, como ele mesmo faz questão de destacar, Carpegiani sabe que às vezes exagera na cobrança. Aconteceu recentemente. Apesar da vitória do São Paulo por 3 a 0 sobre o São Bernardo na segunda rodada do Paulistão, ele reclamou muito, ao final do jogo, da queda de rendimento no segundo tempo.

E acontece desde o início de sua carreira como técnico. Também em 1981, ao vencer o Mundial de Clubes vencendo o Liverpool por 3 a 0, ele fechou a cara após o jogo pelo mesmo motivo. “Não está satisfeito?”, perguntou Raul, então goleiro do Flamengo. A resposta? “Meu time não jogou nada no segundo tempo”.

Mesmo assim, aquele título é uma das melhores memórias do treinador. Ao comentar a façanha, ele parece reconhecer que poderia ter comemorado mais, já que nunca voltou a disputar esse título. Mas deixa claro que se orgulha muito de fazer parte do seleto clube de treinadores brasileiros campeões mundiais de clubes, que, nas suas palavras, “não enche uma mão”.

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Carpegiani diz que o perfeccionismo é o seu defeito; em 1981, reclamou depois de vencer o Mundial de Clubes: "meu time não jogou nada no segundo tempo"

Confira a seguir a primeira parte da entrevista exclusiva com Carpegiani, na qual o técnico ainda comenta o apelido de “professor Pardal”, recebido em 1999, diz não sentir qualquer frustração por não ter treinado a seleção brasileira, apesar de ter chegado perto naquele mesmo ano, afirma que, apesar ser grato à bola, já não depende mais do futebol para viver a sua vida. E explica que apesar de dar os méritos para os jogadores nas vitórias, assume a responsabilidade nas derrotas: "eu mato no peito".

Confira também a segunda parte da entrevista com o comandante são-paulino.

iG: Você teve um início de carreira como treinador um pouco diferente do habitual, abandonou a carreira de jogador com apenas 31 anos, logo virou técnico e já ganhou o Mundial de Clubes. Como foi esse processo?
Paulo César Carpegiani - Eu escolhi aquele momento em 1981 para a minha parada porque eu tinha recebido uma possibilidade de uma proposta da Arábia Saudita, mas larguei o futebol devido a uma dificuldade que eu tive clinicamente, problema no joelho etc. E tive o convite do Dino Sani para ser auxiliar dele. Me convidou e eu aceitei. Depois tive a possibilidade de dirigir o time. Eu já conhecia o grupo, então isso me favoreceu. Quando assumi aquele grupo o primeiro jogo foi contra o Olimpia, do Paraguai, nós estávamos vencendo o jogo por 1 a 0, e empatamos por 1 a 1. Daquele time até o final de 1981 nós tivemos seis ou sete modificações que com o tempo eu fui fazendo. Alguns jogadores estavam treinando separado, recompomos o grupo, e eu tive a felicidade de já ganhar. Hoje naquele mundo seleto de campeões mundiais, de toda a história do futebol do Brasil você bota aí, não enche uma mão de campeões mundiais. Eu estou nesse grupo de campeões mundiais de clubes. É uma honra, uma satisfação. Foi há muito tempo atrás, mas tanta gente busca e para entrar nessa mão é tão difícil, é um mundo seleto. E eu me sinto muito satisfeito de ter começado e ter conseguido logo de cara aquilo que hoje tantos buscam e não se consegue.

iG: É verdade que mesmo com a vitória por 3 a 0 você ainda deu uma bronca nos jogadores depois do jogo?
Carpegiani - Eu tenho um grande defeito, e o jogador que convive comigo tem que entender e muitas vezes o que não me entende é motivo de desencontros. Nós vencemos o jogo por 3 a 0, no primeiro tempo o time jogando fantasticamente bem, no segundo tempo a equipe se desinteressou, cabe a comparação... [referência ao jogo do São Paulo contra o São Bernardo na semana passada]. Se desinteressou, tivemos muita dificuldade. Vencemos, fomos campeões mundiais, e terminou o jogo o Raul que era o goleiro perguntou 'não tá satisfeito?' e eu disse ' o meu time não jogou nada no segundo tempo'. Aí ele disse 'olha, velho' - e eu estava com 31 anos, ele tinha mais idade do que eu quase - 'olha, esse título aqui a gente consegue uma vez na vida e outra na morte, pode ser que nunca mais esteja aqui'. E eu nunca mais fui lá, nunca mais fui campeão da Libertadores. Então pra tu ver que eu tenho um defeito que eu sou muito perfeccionista, sou muito cobrador. As coisas tem que ser exatas, precisas. A perfeição. E isso não existe. É um defeito que eu tenho que tirar de mim, mas não consigo tirar. Mas também, por outro lado, na medida que existe a cobrança, quanto mais perto a gente está chegando... A vida é uma cobrança. É um defeito que eu não faço muita questão de tirar de mim principalmente na cobrança com os meus jogadores.

iG: Se fosse apontada uma definição para você, entre estudioso do futebol e um técnico motivador, parece não haver muita dúvida de que seria estudioso. Você concorda com isso?
Carpegiani - Eu sou um pouco sonhador. Sou aquariano, sou um pouco sonhador. E imagino que todas as coisas vão sempre ser boas, perfeitas. Quando na realidade a vida é um contraste, você tem que enfrentar muitos desafios para chegar realmente àquilo que você quer. O que eu poderia dizer é que eu sou um pouco exagerado na minha cobrança, se os jogadores não me entenderem realmente há desencontro sobre isso. Mas sou muito paternalista também ao mesmo tempo. Reconheço aquilo que eu tenho, sou muito realista com o que tenho, mas me considero um pouco sonhador também.

iG: Você também parece não se abalar tanto com o que acontece em campo. Não dá para imaginar você na beira do campo gritando tanto como o Muricy Ramalho, por exemplo, ou tendo atitudes muito explosivas...
Carpegiani: Nós tivemos aqui quatro ou cinco técnicos que deram baixa [no departamento médico], fizeram exames, tiveram que fazer exames. Os últimos quatro ou cinco, não foi? [Questiona olhando para o assessor de imprensa Juca Pacheco, que acompanhou a entrevista]. Pelo menos essa é a história que me contaram.

iG: O Ricardo Gomes [que comandou o São Paulo até julho de 2010] chegou a ter um AVC...
Carpegiani: Oxalá Deus me permita que eu não vá também. E não vai naquilo que eu vou dizer nenhuma comparação. Eu sou o tipo de pessoa que explico bastante aquilo que eu quero, perco um tempo, insisto, faço com que os jogadores entendam perfeitamente. Então, na hora ali eu não vou resolver, na hora ali eu sou um observador. Nos treinamentos eu sou o treinador do time, na hora do jogo sou um mero observador daquilo que nós já treinamos, ensaiamos. Eu acho que o futebol é uma imposição de um estilo, de uma maneira de jogar sobre a outra. Nós treinamos para nos impor sobre todo e qualquer adversário, então a gente tenta realmente aquilo, independente de como venha o adversário. E às vezes a gente não consegue, o adversário é melhor que nós, nos supera, mas eu tento não perder a tranquilidade, porque não vou resolver ali. Quem resolve são os jogadores dentro de campo, eles são os responsáveis pelos resultados. Ali na hora eu somente penso o que eu tenho que fazer. Eu sempre me programo, não sou uma pessoa que vou para o jogo e olho para o meu banco de reservas para ver o que vai dar pra resolver. Eu já sei o que não está funcionando, o que eu tenho no banco. Na hora de escolher o banco, penso também no que já vou projetar. Se deixar para escolher na hora... Com raras exceções você decide ali, mas já tem coisas programadas, senão você vai errar. Então esse conhecimento, essa tranquilidade, aquilo que eu sei que posso fazer, não que os outros não tenham, nenhuma comparação. Eu tenho toda a tranquilidade do mundo para poder passar, pra poder explicar, cobrar os jogadores. E algumas vezes a gente é superado mesmo e eu tenho que entender isso.

iG: Já aconteceu algumas vezes na reta final do Brasileirão e parece também ser uma característica sua de sempre fazer uma análise fria do que foi o jogo, ganhando ou perdendo.
Carpegiani - Não adianta, porque o jogo já passou. E você trabalha particularmente para ver o sucesso. É maravilhoso ser treinador de futebol justamente porque você vê o resultado do teu trabalho perante o outro. Eu acho isso maravilhoso, isso é uma alegria, uma satisfação fantástica. Mas tem e o inverso. O outro lado da medalha é medonho, a perda. Então eu sempre tenho a esperança - e por isso a minha tranquilidade -, eu sempre tenho a esperança de que imediatamente no outro dia vou modificar alguma coisa e vamos voltar realmente a nos impor.

iG: Apesar de toda essa postura você não gosta nem que os jogadores te chamem de professor, certo?
Carpegiani - Chamam pelo nome.

iG: E “professor Pardal”, então? Foi o apelido que você ganhou na primeira passagem pelo São Paulo, em 1999, por supostamente improvisar demais, usar formações muito inusitadas.
Carpegiani - Eu acho que quando as pessoas estudarem um pouco, verem, verificarem, acompanharem o futebol elas vão me entender e vão ficar até com vergonha de expressarem que eu 'invento' alguma coisa. Eu não contrario nunca as características dos meus jogadores. Um exemplo disso: em 1999 nós tivemos uma passagem aqui pelo São Paulo que ficou muito marcada e que deu uma sequência que daí o São Paulo em 2000, 2001, 2002 naquela grande fase começou a jogar com três zagueiros, se caracterizou por jogar com três zagueiros. Quem iniciou isso... Então as pessoas diziam 'pô, o São Paulo nunca jogou com três zagueiros'. Aí os maiores títulos foram com três zagueiros e se cristalizou até hoje com três zagueiros. Então, aquilo era taxado 'pô, não pode fazer isso'. Quantas vezes eu fui criticado por isso. E os maiores títulos que o São Paulo teve foram com três zagueiros. Mas eu sentia que naquele momento era necessário ter segurança, porque eu quando armo um time, armo por trás, gosto de ter times seguros, não sou oba-oba. Gosto de time firme, gosto de ter time ofensivo, agressivo, mas sou muito, muito resguardado. A hora que o meu time estiver atacando e levar um contra-ataque, pode ter certeza que eu estou em cima disso. Gosto de time seguro, que ataque, apresente futebol ofensivo, mas que tenha a serenidade também de ser bem resguardado. São só exemplos. Quando vejo que o jogador tem características pra fazer, pra desempenhar, eu coloco ali. Eu acho que ele pode render ali. Modestamente, não que tenha um passo na frente, mas quando vejo que o jogador tenha característica pra desempenha aquilo, vou fazer, não tem dificuldade nenhuma. E algumas vezes não sou compreendido por esse fator. Eu acho que posso jogar com três atacantes, hoje está todo mundo jogando. Dois, três, quatro atacantes. Eu acho que posso jogar com quatro atacantes sim, não vejo dificuldade, é uma questão de filosofia de que os jogadores entendam algumas coisas que tem que ser evoluídas para que a gente possa jogar. Aí vou jogar com quatro atacantes e dizem 'pô, não pode, que é isso, professor Pardal'. Eu acho que posso. Por isso, se estiverem com esse pensamento, eu não vou me incomodar nada, nunca me incomodei. Mas há aqueles que precisam sim amadurecer, acompanhar o pensamento, ter uma evolução pra depois comentar, pra falar, etc.

iG: Qual você acha que é o papel de um técnico em um time de futebol? Alguns dizem que é de 20%, mas atualmente também temos o exemplo do José Mourinho, que jogou a modéstia de lado e diz que ele resove mesmo.
Carpegiani - São três coisas na evolução de um time de futebol. A primeira é a organização, você que dá essa organização e distribui s jogadores, certo? Ponta direita, ponta esquerda, ou três zagueiros, 3-5-2, 4-4-2... Não é uma seleção brasileira. Na seleção você escolhe. Tem o esquema definido e você escolhe. No clube não, é a organização, você define quem é quem, aonde vai jogar, define o sistema de acordo com os jogadores que tu tem. A segunda é a qualidade técnica. Você tem que ter um grupo qualificado para ter bom futebol, ganhar títulos, marcar época, etc. E a terceira é a dinâmica de jogo. Isso é a pessoa que está à frente do grupo que fatalmente dá e define a dinâmica. 3-5-2, 4-4-2, a movimentação do time. Isso é a dinâmica. Então são as três coisas fundamentais. Agora, você classificar aí dentro acho que quem ganha são os jogadores. Quem perde são eles também. Mas a responsabilidade é do treinador, eu digo pra eles. Eu mato no peito no final e vou falar com vocês [imprensa]. Eu sou responsável por tudo aquilo que está ocorrendo. Quando eles ganham eu prefiro transferir toda essa responsabilidade pra eles. Eu acho que nós representamos sim, o que disserem pra mim eu não discuto, 20%, 5%, nada, ou 80%, 90%. Não discuto, não gostaria de definir isso. Agora, que você tem que matar com o peito quando está no insucesso... Você paga com o cargo. Então, se você paga com o cargo, o clube te julga um incompetente. Ou, quando está ganhando, competente. Nós definimos competente ou incompetente, essa é a verdade do futebol brasileiro.

iG: Quais são as suas ambições hoje? Se sente um pouco frustrado de nunca ter trabalhado como técnico na seleção brasileira?
Carpegiani - Eu não tenho essa ambição, não me sinto frustrado. Eu me sinto realizado com o trabalho que eu faço, estou num grande clube, plenamente satisfeito. Torço para que quem esteja lá se saia bem, porque o sucesso com uma seleção é a continuidade do futebol brasileiro, indica que ele está bem. E nós vivemos nesse meio. Agora, não tenho assim, ambição. Acho uma coisa natural, não tenho essa preocupação. Tive em 1999 logo após a Copa do Mundo, era eu ou o Vanderlei e foi o Vanderlei. Mas nunca me senti frustrado.

iG: E outras ambições, algum título específico, por exemplo?
Carpegiani - Eu, todo título que tem eu gostaria sempre de disputar, independente de qual seja a competição. Mas tem um carinho especial pela Libertadores. Minha vida toda fui várias vezes campeão, mas como atleta nunca joguei um minuto da Libertadores, sempre estava machucado, lesionado. Fui várias vezes campeão brasileiro, mas nunca disputei a Libertadores como atleta profissional. Como treinador também busco e é uma competição fantástica, que realmente é o chuchuzinho, é a menina dos olhos.

iG: Essa declaração mostra mais ainda que você pode ser considerado a cara do São Paulo?
Carpegiani - Mas não estou fazendo isso pra puxar. É uma competição que realmente, acho que todo mundo, não só eu, mas eu tenho uma tara pela Libertadores.

iG: A possibilidade de disputar a Libertadores no futuro foi um dos motivos que te fez vir para o São Paulo? Porque você já disse que se não fosse a proposta do clube teria parado em 2011.
Carpegiani - Acho que por aquele momento que estava vivendo poderia até estar classificado [com o Atlético-PR para a Libertadores]. Mera suposição, pela pontuação que tínhamos. Eu realmente trabalho espaçosamente, não trabalho seguidamente. Ao longo da minha carreira tu vê que tem espaços, você vai observar. Trabalho, paro, passo um ano... Eu sempre fui um pouco mão dura, então eu tenho essa tranquilidade. Eu sou muito grato à bola, mas posso dizer que não necessito hoje do futebol para viver a minha vida. Então por isso que eu tenho essa serenidade, essa separação bem profissional e decido realmente o que acho que precisa ser feito. Com a minha comissão sempre decido as coisas, ninguém interfere. Mas sempre a minha vida tem sido espaçosa. Porque o trabalho eu acho desgastante. Apesar de não nunca graças a Deus ter baixado [no departamento médico]. Então é esse o cuidado que a gente tem.

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