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iG acompanhou rotina do campeonato de várzea no qual atacante do Inter e da seleção brasileira começou

nullO drible que consagrou Leandro Damião, a lambreta contra a Argentina , dificilmente seria tentado pelo atacante há cinco anos. Na época, o camisa 9 do Inter e da seleção brasileira jogava no futebol de várzea de São Paulo. Mais precisamente em um campo no distrito de Jardim Ângela, na periferia da capital paulista.

Torneio de várzea de Jardim Ângela teve Damião em 2006
Paulo Passos
Torneio de várzea de Jardim Ângela teve Damião em 2006
“Aqui é embaçado. Ele não faria, não. Na várzea isso é visto como desmerecer o adversário”, conta Osvaldo Júnior, ex-colega de Damião no Família Tupi City, time que o atacante defendeu por dois anos . “Aqui juiz fecha o olho, faz que não vê, não tem mídia”, diz Leandro Alexandre, ex-volante da equipe. “Se pegar um marcador doido, fica sem joelho”, completa.

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O presidente do Família Tupi City, Paulo Enoc Calazans, confirma o “veto” ao drible. “Ele até tentava umas lambretinhas, mas o pessoal reclamava. Dizia: vamos jogar sério”, lembra, rindo. “Mas o Leandro era fogo. Chegou e, no primeiro jogo com a gente, meteu duas caixas. Ai já era, fez gol, caiu nas graças”, diz Paulo.

Damião defendeu a equipe em dois campeonatos de várzea do Jardim Ângela. Em 2006, foi campeão da liga “Nós Travamos”, disputada no meio da favela paulistana. No último domingo, o iG acompanhou a primeira rodada da atual edição do campeonato, realizado no mesmo local.

O Damião até tentava umas lambretinhas, mas o pessoal reclamava. Dizia: vamos jogar sério.

O campo baixo, como é chamado pelos moradores de Jardim Ângela, fica em um terreno baldio, no bairro de Jardim Tupi. “É a nossa casa, mas a gente nem joga tanto aqui, porque disputamos campeonatos mais vistosos”, conta o presidente do Família Tupi City.

De vistoso, realmente, o campo tem pouco. Grama, quase já não resta. O terrão tomou conta e, em volta, os jogadores encontram pouca estrutura. “Nós não temos vestiários, nem banheiro. É tudo muito difícil aqui, mas é organizadinho”, diz Jairo Moreira dos Santos, responsável pela organização do campeonato.

Sentado ao lado do campo, apoiado em uma mesa de plástico, ele confere a documentação dos jogadores. “Aqui só joga se trouxer a identidade”, avisa. Manter a bola cheia, anotar os gols, cartões amarelos e expulsões e convocar os árbitros para os jogos também são funções dele.

Dezesseis times jogam a liga “Nós Travamos”. A cada rodada são quatro partidas, de 60 minutos cada, disputadas todas no mesmo campo. A identidade do dono do terreno onde está o gramado é um mistério para a maioria dos atletas. “Eu mesmo não sei quem é, não. Deve ser ‘boy’, porque nunca aparece aqui”, diz um dos jogadores.

“É do seu Michel. Ele tem muitas dívidas com a prefeitura e deve perder o terreno. Não podemos construir nada, mas ele deixa a gente jogar aqui”, conta o responsável pela organização do campeonato, sem se aprofundar mais sobre o "seu Michel".

Remunerado, juiz ouve...


Nenhum jogador ganha para defender os times. Mais, eles pagam para disputar o torneio. Cada equipe dá R$ 250 para se inscrever e R$ 50 por partida de taxa para os árbitros.

Os juízes – dois em cada jogo - são os únicos remunerados e apitam as quatro partidas da rodada. São eles também os que mais ouvem. “Ô, quem disse que você é juiz? Você não sabe nada. Dá logo a taça para eles”, grita o camisa 10 do Vale Verde, rival do Família Tupi City, com dedo em riste. O árbitro Francisco Antônio de Sena só ri e, com o cartão vermelho levantado, avisa: “Você também está fora!”.

MiGCompLinks_C:undefined O jogo já tinha terminado, mas o juiz não aceitou a ofensa. “Tem é ameaça, nada mais que isso. O pessoal fica nervoso, mas não faz nada, não”, conta seu Chicão, como é conhecido, enquanto come, tranquilamente, um churrasco "de gato" com muito farinha e pimenta, ao lado do campo.

O segundo jogo da rodada terminou. O Família Tupi City empatou por 1 a 1. Chicão, que é motorista durante a semana, ainda tem mais duas partidas para apitar. “A gente ganha pouco, nem vale a pena pelo dinheiro. Mas é o futebol que nos diverte. Como não tenho mais perna para jogar, participo desse jeito”, diz, antes de correr para o gramado para mais uma partida.

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