Novo treinador se emociona ao rever antigos companheiros e promete aos torcedores entrega total

Emoção e muita nostalgia marcaram a apresentação de Abel Braga como técnico do Fluminense , nesta quarta-feira, no salão nobre das Laranjeiras. Após 87 dias de espera , finalmente os sócios e torcedores tricolores puderam reverenciar seu novo comandante. Ao lado do vice-presidente de futebol Sandro Lima, o ex-zagueiro foi recepcionado na sua chegada pelos ex-companheiros Marco Antônio, Gil, Lula, Nielsen e Rubens Galaxe, além de Marcão, capitão do time campeão carioca de 2005, dirigido por ele na sua primeira passagem como treinador pelo clube.

“Já me emocionei na chegada ao ver meus ex-companheiros. Eu sempre disse que esse clube me formou homem na fase mais perigosa da minha vida. Tinha 15 anos, morava na Penha e perdi muitos amigos de infância para o tráfico. Se tivesse fugido naquele momento do Fluminense, não sei se estaria vivo hoje. Sou eternamente grato”, disse, emocionado Abel Braga.

Feliz com a chegada do novo técnico, o presidente Peter Siemsen enalteceu o passado glorioso de Abel como jogador do Fluminense e comemorou a contratação do novo treinador como um título.

“Essa contratação é como se fosse um título. Contratar um técnico pode ser bom. Contratar um dos melhores do Brasil, melhor ainda. Contratar uma pessoa com raízes tricolores é um momento excepcional”, afirmou o dirigente.

null



Já o vice-presidente de futebol Sandro Lima disse que jamais temeu por qualquer tipo de imprevisto durante os 87 dias de espera pelo novo treinador. “Ele recebeu duas propostas da Europa e duas seleções, mas mesmo assim manteve seu compromisso com o Fluminense. Um dia antes de chegar, ele me ligou e disse que os árabes não queriam deixar ele vir embora, mas que eu podia ficar tranqüilo que ele já estava dentro do avião”, lembrou Sandro Lima.

Abel Braga recebe a camisa do Fluminense com seu nome das mãos do presidente Peter Siemsen
Photocamera
Abel Braga recebe a camisa do Fluminense com seu nome das mãos do presidente Peter Siemsen


Acompanhe os principais trechos da entrevista de Abel Braga:

Volta ao Fluminense

“Eu me emocionei na chegada ao ver meus ex-companheiros. Eu sempre disse que esse clube me formou homem na fase mais perigosa da minha vida. Tinha 15 anos, morava na penha e perdi muitos amigos de infância para o tráfico. Sou espelho de dignidade das pessoas que eu convivi. Se tivesse fugido naquele momento do Fluminense, não sei se estaria vivo hoje. Quando voltei em 2005, vim feliz, mas magoado. Achei que o clube demorou demais a me chamar para ser treinador. Hoje, não consigo dimensionar esse retorno. É inédito. O clube não conseguiu o esperado no Carioca, na Libertadores e todos foram pacientes. A palavra dada foi cumprida e hoje está se realizando. Aumenta a minha responsabilidade, mas aumenta a minha identidade. Faço uma promessa, o torcedor vai sentir orgulho de ser tricolor. A casa boa está recebendo o filho. Não vai faltar entrega”

Pressão

“Não me sinto mais responsável. A espera é para a torcida saber que minha entrega será total. Ontem cheguei às 3h da manhã e começo a trabalhar hoje. O Fluminense me trouxe de volta para o meu país, para o clube me tornei homem e para a minha cidade após cinco anos e meio longe. Sei da resposta que posso dar ao clube”

Presença do filho Fábio no clube

“Eu entendo a situação dele. Não quero misturar a emoção do pai com a do treinador. No Inter em três oportunidades ele desceu do carro antes de chegar ao estádio para não ser visto comigo. Para mim, não tem nada a ver. Ele vai ter de subir com as próprias pernas. Futebol é coletivo, mas a concorrência é grande. Nem todos vão conseguir chegar aonde cheguei. Eu tive sorte. Não era um grande jogador, mas me achava inteligente dentro de campo e consegui o que muitos melhores do que eu não conseguiram. Espero que ele consiga com a camisa do Fluminense”.

Elenco do Fluminense

“Não preciso passar garra aos jogadores. Assisti o que eles fizeram em 2009 com o Cuca e, em 2010, com o Muricy. Assisti o que eles fizeram contra o Atlético-GO e Cruzeiro. Jogador tem que gostar um pouco do clube, mas é um pouco difícil hoje ter essa identidade. Tem de ter entrega. Eles não estão fazendo mais do que a obrigação. Fluminense não é um clube qualquer. Aqui, o jogador já chega com esse espírito do time de guerreiros”.

Ídolo

“A torcida sabe que chega um cara que vai tentar se virar para fazer o melhor. Não será diferente. A entrega e a relação são muito fortes. Nada na minha vida pagará o meu caráter. Eu sou mais um. Quero ser o intermediário do que pensam e querem o meu grupo de jogadores”

Fred na seleção

“Não é problema, nem surpresa. Surpresa se ele tivesse convocado o Ronaldo novamente (risos). Fred fez o gol ontem. Conversei com ele por telefone em um momento difícil, que ele não estava falando com vocês. Eu fui totalmente claro com ele sobre o que eu quero. Foi bom o clube não deixar ele falar naquele momento. Enquanto ele não falava, muitos estavam falando. E eu reclamei. Estou feliz por ele e pelo Fluminense, que terá um representante na seleção”

Estreia

“A princípio não vou mudar muita coisa. Por sorte, passou Flamengo e Corinthians em Abu Dhabi e fizemos observações. O futebol brasileiro é complicado, todos os jogos são difíceis. O Fluminense mostrou a sua cara nos últimos dois jogos e vai precisar fazer isso novamente no domingo”

Abel Braga é recepcionado por antigos companheiros (a partir da esq.): Gerônimo (roupeiro), Rubens Galaxe, Aloísio (roupeiro), Nielsen, Lula, Gil e Marco Antônio
Photocamera
Abel Braga é recepcionado por antigos companheiros (a partir da esq.): Gerônimo (roupeiro), Rubens Galaxe, Aloísio (roupeiro), Nielsen, Lula, Gil e Marco Antônio


Postura do time em campo

“Eu gostei muito da postura defensiva contra o Atlético-GO, mas acho que buscou pouco o gol. No segundo tempo contra o Cruzeiro o time teve problema de sobra e foi assim que tomamos o gol. O grupo é muito bom e pode chegar longe. Mas sinto que está muito dependente da capacidade individual. O coletivo tem de subir”

Estrutura

“O vestiário melhorou muito. Tenho de me meter no meu time. Tenho jogadores de qualidade e tenho que fazer eles jogarem. Essa é minha obrigação. Todo clube almeja um Centro de Treinamento, mas isso cabe ao presidente do clube. Eu posso até fazer uma crítica internamente à estrutura do clube, mas jamais vou reclamar publicamente. Estou no salão nobre do Fluminense. Qual clube no Rio de Janeiro tem um lugar deste? Foi nesse campo que fomos rebaixados, que conquistamos títulos estaduais, brasileiros e da Copa do Brasil. Esse campo está na alma do clube e vai ser perpetuado na História para sempre”

Enderson Moreira

“Queria agradecer ao Enderson. Pegou o time em um momento complicado. Ele é um jovem treinador, contratado pelo clube. O Fluminense não conseguiu chegar à final do Carioca, mas foi muito mais longe na Libertadores do que qualquer pessoa imaginava. Aconteceram situações normais em qualquer clube. Declarações inoportunas e jogador reclamar de reserva, coisas que não aceito. Isso é uma crítica indireta e covarde ao treinador. Criou-se uma instabilidade muito grande e eu acho que o Enderson soube administrar as coisas. Ele jamais bateu de frente com os jogadores”

Lembranças de 2005

“Não me considero em dívida pela não ida à Libertadores. Independentemente de ganhar ou não, sempre faço o meu melhor. Tive uma parcela de culpa naquele momento. Fui pouco sábio. Deveria ter sido mais observador. Quando chegamos nos últimos sete jogos, com a Libertadores nas mãos, percebi que quatro ou cinco jogadores já estavam com a cabeça fora do Fluminense. Deveria tê-los afastados. Mas fiquei naquela dúvida. Vai mexer na estrutura, os colegas vão sentir. Tentei ir no caminho da conversa. Falta uma vitória. Infelizmente não deu. Me responsabilizo por isso”

Atual momento do futebol carioca

“É muito bom para o Rio de Janeiro. Os cariocas estavam precisando disso. Os dois títulos nacionais com a dupla Fla-Flu foram importantes, dá um glamour totalmente diferente. O Vasco em uma final de Copa do Brasil. É um momento muito bom e temos que aproveitar”

Reforços

“Vocês não querem que eu fale de reforços com o Sandro Lima aqui do meu lado, né? (risos). Vai ser difícil vocês arrancarem isso de mim”

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.