Apesar de contatos, ex-jogador prioriza carreira de comentarista. Na cadeia, ele recebeu visitas de Marcelinho Carioca e Viola

Após 30 dias na prisão, o ex-jogador reencontrou os filhos do atual casamento
AE
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Depois de ser figura frequente no noticiário durante os meses de julho e agosto por ser preso pelo não pagamento de pensão à ex-esposa, o ex-jogador Zé Elias pode em breve voltar a ser assunto por outro motivo. Em entrevista exclusiva ao iG , ele revelou já ter sido procurado por um partido para discutir uma possível entrada na vida política.

Ao sair da prisão no dia 19 de agosto , Zé Elias chamou a atenção por assumir uma postura de porta-voz de pessoas presas na mesma situação que ele . Citou diversos casos, como de um companheiro de cela preso por 90 dias por conta de uma dívida de R$ 490. “Você acha que se o cara tivesse 490 reais ele não pagaria? Acha que ia ficar 90 dias preso?”, questiona. E embora diga que ainda precisa pensar sobre a possibilidade de se candidatar a algum cargo, ele admite que esse cenário de “injustiças” pode servir de motivação.

No período preso, além de visitas da atual esposa e do pai, o ex-jogador também recebeu alguns amigos do mundo do futebol, como o “irmão” Paulinho Kobayashi, um de seus melhores amigos, e o “pai” Ricardo Rosa, preparador físico do Santos. Também foi visitado pelos ex-companheiros de Corinthians Marcelinho Carioca e Viola. Mas embora o primeiro seja suplente de deputado federal e o segundo já tenha se candidatado, ele afirma que o assunto política não surgiu com os dois.

Sobre o futuro, ele prioriza a carreira de comentarista e quer voltar para a rádio Globo, onde estava trabalhando antes de receber o mandado de prisão. Não pensa, por enquanto, em voltar ao futebol ocupando alguma função de comissão técnica, mas também reconhece: “não posso dizer que dessa água nunca beberei”. E pensa em estudar letras, já que fala cinco idiomas além do português - italiano, grego, inglês, alemão e espanhol.

Outra curiosidade revelada por Zé Elias foi sua estratégia para se acostumar com as limitações de espaço da prisão. “Aí eu usei a experiência da concentração”, conta com bom humor, dizendo que as diferenças entre a delegacia e os hotéis por onde passou são óbvias, mas que a paciência adquirida com as concentrações na época de jogador ajudou a “ocupar a mente”.

Ele ainda não pode comentar o processo relacionado à dívida de quase R$ 1 milhão com a ex-esposa, já que uma liminar mantém o processo em segredo de Justiça . Mas explica que esse valor se acumulou porque no final da carreira, jogando em times pequenos na Ucrânia, Áustria e Chipre, não conseguia mais pagar a pensão estabelecida quando defendia o Santos . Em relação aos outros problemas familiares divulgados nas últimas semanas , ele não quis entrar em detalhes, dizendo apenas que nunca vai mudar o que sente pela mãe e que já combinou de ter uma conversa com o irmão Rubinho quando ele voltar ao Brasil.

Confira os principais trechos da entrevista com Zé Elias:

iG - Como está a rotina de volta à sua casa, já se acostumou?
Zé Elias - Ainda não. Tem coisas que eu ainda não sei onde estão, à noite está difícil pra dormir. Eu procuro ficar analisando as coisas, então à noite volta, dia após dia, as situações que a gente viveu, eu, minha esposa, meus filhos. Da janela do meu quarto dá pra ver a rua, o corredor, e muitas vezes que eu olho acho que vai ter polícia. É uma rotina que eu acho que não vai ser o tempo que vai apagar. Tem coisa que o tempo não apaga.

iG - Na prisão, o que era do jeito que você imaginou e o que era diferente?
Zé Elias - Eu estava preparado pra encontrar um ambiente ruim, mas o que encontrei ali foi um clima de solidariedade, porque se não houvesse isso acho que ninguém aguentaria. Mas o que eu não estava preparado era pra ver coisas como pais que entram assustados, querendo se matar porque não conseguem ficar ali dois, três dias, entram em desespero. Gente chorando. Senhores de 69, 70, 82 anos chorando. Essas situações acabam te destruindo e jogando por terra tudo que você estava preparado.

MiGCompLinks_C:undefined iG - Como foi se ver limitado em um espaço físico tão pequeno, depois de uma vida inteira de atleta, trabalhando sempre em grandes espaços abertos?
Zé Elias - Aí eu usei a experiência da concentração. Porque na concentração teoricamente você fica limitado a um determinado espaço. O quarto, o corredor do hotel. Você fica ali e não pode sair. Então usei essa paciência que eu tinha por causa da concentração, procurava sempre ocupar a mente fazendo alguma coisa. Mas mesmo assim... você olha para o lado, vê grade. Olha para cima, vê grade. No banheiro, você sabe que é um banheiro de cadeia. Você está ali, não tem como. Então eu procurava ler bastante, conversar com o pessoal, mas foi a experiência de concentração que me ajudou.

iG - Ficou até com saudade da concentração?
Zé Elias - Eu nunca reclamei da concentração. Era o meu trabalho, não tinha jeito. Mas é bem diferente. Você tem tudo ali, um café, um lanche, pode ir pro saguão.

iG - Você comentou que a leitura foi um passatempo. O que você leu?
Zé Elias - Li o livro do Andrew Jennings [repórter britânico que investiga casos de corrupção no esporte], o “Jogo Sujo”. E também um de história, do século 15 até o século 21.

iG - O que achou do “Jogo Sujo”? Tem muita coisa que você não sabia, outras que começaram a fazer sentido?
Zé Elias - Algumas coisas a gente já sabe como funciona. Não é novidade o que ele fala, nós sabemos como funciona um pouco nos bastidores do futebol. Mas sempre choca. Você sabe, mas quer desacreditar que é aquilo lá. Mas eu lia para um deficiente visual que estava lá e quando ele saiu me pediu o livro e eu dei de presente, então não terminei de ler.

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AE
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iG - Durante a prisão você teve contato com amigos do futebol, ex-jogadores? Como foram as conversas?

Zé Elias - O Viola foi lá me ver, na delegacia. O Marcelinho Carioca, o preparador físico Ricardo Rosa, do Santos, o Paulinho Kobayashi e o Marcos Vizolli, ex-jogador do São Paulo. O Vizolli foi junto com o Ricardo Rosa, que eles são amigos. O Kobayashi é um grande amigo meu. O Paulinho é como se fosse um irmão e o Ricardo rosa é como se fosse meu pai, porque trabalhei com ele dos 11 anos aos 20. Então toda a minha formação, transição da adolescência pra adulto foi com ele. As conversas foram mais através de bilhetes. Só o Kobayashi que realmente o carcereiro teve um gesto muito legal, de deixar ele vir falar comigo, porque ele estava chorando. Nós vivemos três anos na Grécia e ele sabe todas as situações, tudo que eu passei. Então ficou bem abalado, chorou. Eu acalmei ele, mas depois também voltei pra cela e chorei.

iG - Falando sobre o futuro, você já retomou as conversas com a rádio [Globo, onde vinha trabalhando antes de receber o mandado de prisão]? Seu objetivo é seguir na carreira de comentarista?
Zé Elias - Conversei com algumas pessoas, estou esperando resolver alguns problemas burocráticos para poder voltar a trabalhar. Mas quero voltar o mais rápido possível. Eu gostei, foi um ano muito bom, e só parei por causa desses problemas. Por mim eu já teria voltado lá de dentro [da delegacia], se pudesse montar uma base lá. Estamos conversando, eles têm a intenção de que eu volte e eu encontrei uma família lá. Demorei 33 anos para encontrar essa família. Lá todos são como se fossem meus pais, porque tem muita gente mais velha. Tem coisas que você não consegue descrever. O carinho, respeito, reconhecimento, e tudo isso eu encontrei lá. As pessoas me ajudaram pra crescer dentro da profissão, sempre me trataram bem. Isso faz você querer voltar o mais rápido possível. E eu dei uma palavra de que assim que resolvesse os meus problemas eu voltaria.

iG - Quando você deixou a prisão, em vez de falar muito de coisas individuais, falou das injustiças com outros presos, disse que queria chamar a atenção do governador Geraldo Alckmin, do prefeito Gilberto Kassab. Isso não te fez pensar em entrar na carreira política?
Zé Elias - Olha, eu já conversei com algumas pessoas que me ligaram aqui para tentar fazer com que eu comece na carreira política. Mas eu não sei ainda, estou pensando. Porque realmente é uma situação totalmente diferente daquilo que eu sempre vivi. Sempre que eu entro numa situação eu tenho que estar preparado, se eu entrar eu vou até o final, eu não gosto de deixar nada parado pela metade. Então esse lado da política acho que se tiver a intenção de entrar eu tenho que começar a me preparar. Não posso entrar só por causa do meu nome ou só por aquilo que aconteceu. Tenho que me preparar, porque se eu fizer alguma coisa errada tudo aquilo que eu construí ao longo da minha vida pode ser perdido.

iG - Teve contato com mais de um partido, já fizeram alguma proposta?
Zé Elias - Foram duas ou três pessoas, mas do mesmo partido. Por enquanto foi só para sentar, conversar, porque cada partido tem seus ideais, suas diretrizes. Então é pra ver a disponibilidade, se existe alguma forma de tentar um projeto. Foi mais pra fazer o primeiro contato.

iG - O Marcelinho Carioca, que te visitou, é suplente de deputado federal. Você conversou com ele sobre essa questão da política?
Zé Elias - Não cheguei a conversar com ele não. Isso aí é uma coisa muito pessoal, cada um tem um jeito de trabalhar dentro da política. E também não dava para conversar muito no momento lá na delegacia.

MiGCompLinks_C:undefined iG - E a injustiça que você diz ter visto na cadeia pode ser uma motivação?
Zé Elias - Sempre é uma motivação. Eu acho que se os políticos entrarem na cadeia e verem como as coisas são, alguma coisa eles vão querer mudar. A lei existe e tem que se cumprir, mas a forma de cobrança dessa lei é muito dura. Tem gente lá que tem 90 dias de condenação por 490 reais. Você acha que se o cara tivesse 490 reais ele não pagaria? Acha que ia ficar 90 dias preso? Então são determinadas situações que tem que mudar. Você impossibilita o pai de trabalhar, impede o convívio com os filhos. Tira o pai, tira a ajuda financeira, tira o alicerce de uma família.

iG - E como está o plano para o livro que você quer lançar contando essa experiência?
Zé Elias - Eu estou terminando. No começo usei para passar o tempo, depois fui vendo as coisas e comecei a colocar situações minhas com situações que a gente estava vivendo lá. Agora estou vendo se consigo terminar e vou correr atrás de editoras. As pessoas só ouvem o lado ruim, mas tem o lado do ser humano e é isso que eu gostaria de mostrar. O que significa a prisão por pensão alimentícia. Eu nunca fui escritor, mas acho que as pessoas precisam começar a analisar essas situações. A intenção é fazer as pessoas pensarem em mudanças que vão beneficiar não a mim, mas os filhos. Eu não quero visitar os meus filhos como o meu pai fez. E acho que nenhum pai, nenhuma mãe quer isso. E gostaria que as pessoas fizessem essa reflexão.

iG - Essa visita do seu pai que você citou foi um dos piores momentos desse mês preso, por ter que recebê-lo naquela situação?
Zé Elias - Foi, porque eu nunca dei problema para os meus pais, desde os 12 anos treinava profissionalmente. Era estudo, treino, estudo, treino. Eu não fumo, não bebo, e aí o primeiro trabalho que você dá é o seu pai ter que te visitar na cadeia. Eu chorei pra caramba o primeiro dia que ele foi lá. Por isso que eu falo que tem coisa que não dá pra apagar.

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