Com cartas e documentos, conselheiros da oposição tentam pressionar Arnaldo Tirone a assinar nova escritura

Após ver o ex-presidente Mustafá Contursi agir para fazer valer no Palmeiras sua posição contrária ao projeto Arena Palestra/WTorre, a atual oposição palmeirense resolveu se mexer. Depois de batalhar dois anos pelas licenças municipais da obra, a antiga gestão palestrina, hoje fora do poder, também passou a pressionar o presidente Arnaldo Tirone para que o clube cumpra o acordo com Walter Torre Jr., que já reclamou da atuação da diretoria palmeirense, e a construção do novo estádio não seja paralisada.

O iG apurou diversas manifestações que têm origem em integrantes da oposição e até mesmo opiniões de cardeais alinhados com Tirone, caso de Afonso Della Mônica, ex-presidente e signatário do projeto. As ações mais comuns dos oposicionistas são cartas enviadas ao presidente. Uma delas foi assinada pelo conselheiro Vittorio Alessandro Pescosolido, que pede que Tirone assine logo a nova escritura.

“O documento é indispensável para a sequência dos trabalhos e não se constitui em favor algum. É um direito que a empresa reivindica, amparada por um contrato que, por sua vez, é um ato jurídico perfeito. Você sabe disto muitíssimo bem. (...) não pode arrastar-se, sob pena de causar uma reação mais contundente da WTorre, entidade que tem um histórico de sucessos”, afirma um trecho do documento, que ressalta que o local pode sediar a Copa das Confederações e até a Copa do Mundo .

Della Mônica tem agido com discrição, mas discorda da atuação do presidente. Conselheiros ligados ao ex-presidente, que inclusive assinou o contrato da Arena em 2008, dizem que são a favor da construção do estádio e não acham benéfica a paralisação das obras. A única restrição em relação ao "modus operandi" da WTorre fica por conta da troca de farpas via imprensa entre as partes, coisa que eles consideram maléfica para a imagem do clube e da empresa.

A divergência de um cardeal como Della Mônica chega a ser sentida por Tirone, que admitiu se sentir pressionado, mas afirmou que não assinará a nova escritura com "o revólver na cabeça" . O presidente também reconheceu que está pedindo uma coisa que não existe no mercado: o seguro de perfomance de 100%, mas que precisa ter garantias. Questionado sobre um possível plano B, o presidente do clube respondeu: "Jesus Cristo".

Uma outra maneira de pressionar Tirone é mostrar o documento feito pela consultoria Pluricorp, que comprova que não houve, até hoje, nenhuma proposta melhor que a apresentada pela WTorre. O argumento da oposição é que esse relatório foi contratado ainda na gestão de Mustafá Contursi, com aval de Carlos Facchina Nunes, outro ex-presidente e aliado de Tirone, e aprovado sem restrições pelos órgãos do clube.

Assinado pelo dono da empresa, o engenheiro Vladimir Rioli, o relatório afirma que o contrato deve superar todos os requisitos mínimos exigidos pela comissão. Um deles, por exemplo, é que a Arena representaria um acréscimo patrimonial de mais de R$ 330 milhões, muito além dos R$ 200 milhões exigidos pela comissão à época.

Outra parte do documento mostra que o projeto exigido pelo Palmeiras deveria, em 30 anos, dar um retorno de R$ 689 milhões. O da WTorre traria, no mínimo, R$ 840 milhões em valores da época. Corrigidos, hoje esse valor, segundo a companhia de engeharia, beira o R$ 1 bilhão.

O que também merece destaque, segundo o relatório, é que o Palmeiras não assume risco no negócio. O acordo palmeirense prevê participação apenas na receita e não no lucro. Ou seja, o clube ganhará dinheiro independente da WTorre ter ou não retorno maior que o investido. Além disso, não há doação de terrenos, há apenas a concessão pelo prazo de 30 anos.

O modelo foi praticamente copiado pelo Sport. O time de Recife se prepara para reformar seu estádio e teve a aprovação maciça para esse tipo de gestão. Lá, a empresa de engenharia responsável será a Engevix. No caso do Grêmio, por exemplo, o clube cede o terreno do Olímpico de maneira definitiva à OAS, companhia que construirá o novo estádio. Sendo assim, o time perde de fato seu patrimônio e será deslocado para outro local, além de dividir lucro e prejuízo com a empresa.

Parte do documento mostra que parceria com WTorre supera as expectativas
Reprodução
Parte do documento mostra que parceria com WTorre supera as expectativas
Mustafá reconhece que contratou Rioli, mas disse que não concordou com o seu parecer. O ex-presidente afirma que a WTorre ganhará R$ 361 milhões em cinco anos , mas não considera os juros que a companhia pagará, os gastos de manutenção (que estão 100% sob a responsabilidade da empresa) e a possibilidade do grupo preferir investir o montante em ações, por exemplo, e lucrar muito mais do que ganharia com a Arena.

Recentemente, um novo relatório foi encomendado e pago por Paulo Nobre, candidato derrotado por Tirone na última eleição. O iG apurou que Nobre contratou uma instituição financeira para uma avaliação do modelo de reforma do estádio. O conselheiro não revela qual empresa, mas explicou a seus companheiros de chapa que o projeto também foi amplamente aprovado. É o que explica um dos nomes fortes de seu grupo, o ex-diretor de futebol Genaro Marino.

“As pessoas estão reclamando por reclamar. O Paulo Nobre encomendou um relatório, pagou do próprio bolso e mostrou que o negócio era bom. Queríamos apresentar esse estudo para o presidente, mas ainda não fomos atendidos. Eles reclamam do seguro, mas não existe um seguro maior do que 10% e a WTorre fez de 38%. O clube ganha 15 quadras e antes tinha 11. Eles não deviam ficar atacando pela imprensa, mas poderiam propor algo melhor. Se eles querem reclamar, eles poderiam mostrar o que pode melhorar e apresentar algo que nós aprovaríamos”, disse Marino, que foi candidato à 1º vice-presidente do clube na eleição passada.

Mudanças no contrato

Outro ex-diretor de futebol que defende a Arena é Wlademir Pescarmona. Ele rebate as acusações de nomes como Gilto Avallone e Mustafá Contursi, que reclamam da mudança de alguns itens do contrato.

“Foram seis mudanças, sendo que três delas foram assinadas pelo senhor Affonso Della Mônica, duas pelo professor Luiz Gonzaga Belluzzo e uma pelo (Salvador Hugo) Palaia. Cinco delas foram por causa do prazo, pelo atraso que eles mesmos causaram impondo dificuldades na obtenção das licenças. Outra era para mudar uma parte da escritura por causa de um muro em um terreno. Tirando isso, o contrato está igualzinho e esteve à disposição de todos os conselheiros para a análise”, afirmou Pescarmona.

Já José Cyrillo Jr. foi um dos nomes fortes no apoio à Arena durante a gestão Belluzzo. Ele faz coro a Genaro Marino e Wlademir Pescarmona, dizendo que os obstáculos que Mustafá e sua ala tentam impor são meramente de cunhos políticos.

“Não tenho dúvida nenhuma que é de cunho político, porque eles sabem que não vão conseguir mudar o contrato. Eles sabem que o contrato é bom. Até essa manifestação do Rioli mostrou isso. Antes, eles queriam outro tipo de parceria, que seria pior para o clube. Não era um contrato nesse estilo, já que o Palmeiras participava no lucro ou no prejuízo. Esse não. Não tem risco. Por isso, só pode ter cunho político”, disse ele.

Pelo lado da WTorre, o diretor de novos negócios, Rogério Dezembro, e o presidente, Walter Torre Jr., fazem um desafio: “Nós duvidamos que o Palmeiras encontre um negócio melhor do que esse que oferecemos. É bom para nós e bom para o clube. É um negócio, não uma caridade”. 

Rogério Dezembro e Walter Torre Jr. desafiam:
Guilherme Tosetto, iG São Paulo
Rogério Dezembro e Walter Torre Jr. desafiam: "Não há coisa melhor"

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