Para o ex-jogador Gilberto Silva, articulação política para vetar itens da MP do Futebol considerados vitais pode prejudicar avanços na legislação esportiva e boa governança de clubes

Membros do Bom Senso com a presidente Dilma Rousseff, em 2014
Roberto Stuckert Filho/PR
Membros do Bom Senso com a presidente Dilma Rousseff, em 2014

Assinada pela presidente Dilma Rousseff em março, a Medida Provisória 671/2015, chamada de MP do Futebol, aguarda a apreciação de Congresso e Senado para ter seu texto definitivo, o que deve acontecer apenas em julho. No entanto, com mais de 180 propostas de emendas, a lei de refinanciamento da dívidas dos clubes com a União, baseada em contrapartidas de boa gestão a quem aderir, deve ter pontos considerados primordiais retirados ou aliviados por articulações políticas, o que desagrada o Bom Senso FC, grupo que representa os jogadores nessa discussão por melhorias no futebol.

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A perda de influência da base aliada do Governo Federal, aflorada com a crise política em Brasília, pode ter impacto direto na MP do futebol, acredita o ex-jogador Gilberto Silva, campeão da Copa do Mundo com a seleção brasileira em 2002 e um dos representantes do Bom Senso. Com as lideranças do Congresso e Senado em rota de colisão com o PT, partido da presidente Dilma, o movimento já lamenta possíveis alterações no texto para deixar as contrapartidas administrativas dos clubes menos rígidas.

"Em relação ao país, sabemos que o momento é muito delicado, e o futebol também está em crise. A gente torce para que haja pessoas que olhem para o futebol e queiram fazer algo melhor, para não ficar todo mundo se enganando, contando história da carochinha, e a gente está cansado de historinha. Uns fingem que vão fazer alguma coisa, mas na hora vão articulando de alguma forma e juntando a turma que não tem interesse em mudanças, isso os fortalece e algo que poderia ser muito bom é vetado. Espero que isso não aconteça", avaliou Gilberto Silva ao iG . "Realmente tem alguns políticos abertos a mudanças, que realmente precisam ser feitas em relação ao futebol. Todo mundo sabe que pode ser feito algo melhor do que o momento que estamos vivendo e se todo mundo olhar e não fizer nada... Já estamos sofrendo um prejuízo grande, vamos ter um prejuízo muito maior. Obviamente seria melhor se tivéssemos mais pessoas envolvidas na parte política para que (a MP) talvez ganhasse mais força."

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Até o momento, apenas Bahia  e Flamengo  se manifestaram favoráveis à proposta original da MP 671. Ex-presidente do Corinthians  e deputado federal, Andrés Sanchez é uma das vozes contrárias ao atual texto, e isso pode levá-lo a se aproximar de um inimigo do passado: Marco Polo del Nero, o chefão da CBF, que acusa a lei de afrontar a independência dos clubes - tópicos como o investimento obrigatório em futebol feminino e o uso máximo de 70% do orçamento no departamento de futebol também geram controvérsias. A chamada Bancada da Bola em Brasília já está em ação para vetar ou enfraquecer esses itens. Um reflexo da forma como o futebol brasileiro é gerenciado, na avaliação de Gilberto Silva.

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Resumo dos pontos propostos pela MP do Futebol divulgado pelo Ministério do Esporte
Reprodução/Twitter
Resumo dos pontos propostos pela MP do Futebol divulgado pelo Ministério do Esporte

"O ideal era que todos se preocupassem com a melhora do processo, mas pelo visto nem todo mundo se preocupa. Fica tudo ao Deus dará, cada um se preocupando com o próprio umbigo e fazendo de qualquer jeito, até porque ninguém é punido, ninguém tem responsabilidade. O futebol é uma casa sem dono, e de repente aparece alguém para mandar, daqui a pouco esse cara sai e não responde por nada, pela administração, não tem responsabilidade de nada, e fica sempre o pepino para o próximo", disparou o ex-jogador, com passagens marcantes por Atlético-MG  e Arsenal .

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Gilberto Silva lamenta que, em dicussões anteriores sobre como melhorar a gestão do futebol brasileiro, as partes envolvidas - CBF, federações e clubes - nem sequer fizeram sugestões aos pontos levantados pelos jogadores.  "É importante ouvir, sentar, conversar e tentar chegar da melhor forma possível a um consenso. Precisa ter um ponto de partida. Acho que todo mundo deve ser propositivo. O Bom Senso fez suas propostas e não recebeu nenhuma sugestão por parte de federações e confederações, nem mesmo por parte dos clubes, todo mundo achando que está bom. Não concordar é um direito, então vamos propor uma outra situação. Precisa ter um ponto de partida para que a discussão avance, e ela vai refinando para todos os lados até chegar a um consenso, melhorar o processo mês a mês, ano a ano, para chegar ao ideal."

"Muita gente ainda vê o Bom Senso como adversário, mas o que a gente quer é simplesmente dar contribuição para um processo que está em decadência. Essa é a realidade", completou Gilberto Silva.

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