Santos e São Paulo voltaram a ter equipe feminina e aumentam chances de valorização e regulamentação da profissão

Bebel era jogadora do Santos com passagem pela seleção brasileira quando chegou ao fundo do poço. Dependente química desde a adolescência, a ex-Sereia da Vila chegou a ser presa por furto qualificado em São Paulo e protagonizou diversas recaídas quando ainda lutava para se livrar do vício. Cogitou várias vezes tirar a própria vida, mas sucumbiu diante do amor pelo esporte. Transformou a bola em remédio, seguiu em frente e se reergueu para hoje defender a Portuguesa no Campeonato Paulista. Essa é uma de tantas outras histórias que reforçam o poder de mudar vidas que o futebol feminino tem.

Time feminino do São Paulo
Suseli Honório
Time feminino do São Paulo

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Neste ano, São Paulo e Santos reativaram suas equipes femininas e aumentaram a esperança de profissionalização dessas mulheres. A formação das duas equipes gerou emprego para ao menos 50 atletas, que hoje já conseguem dispor de vínculo contratual e benefícios regidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) – o que ainda é privilégio para poucas dentro da modalidade.

Coincidência ou não, o resgate dos dois clubes acontece no mesmo momento em que o futebol feminino ganha atenção especial do Governo Federal. O Ministro do Esporte, George Hilton, realizou reuniões em Brasília com ministros de outras pastas e dirigentes dos clubes para discutir a inclusão e profissionalizar do esporte no país e sugeriu a criação de uma liga independente para que seja elaborado um calendário com competições para o ano todo. A presidente Dilma Rousseff também se mostrou favorável e acrescentou no texto da MP 671/15, que refinancia as dívidas fiscais dos clubes e ainda está em discussão, a modalidade como contrapartida à aceitação do Profut.

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“Essa lei vai ajudar muito. Se o clube tem uma dívida e precisa saldar, ele vai ter de abrir portas para o futebol feminino. Ao optar pelo programa de refinanciamento, o clube vai ter que dar estrutura ao futebol feminino. É claro que teria sido mais legal se tudo isso acontecesse naturalmente, sem forçação de barra”, opinou Adriana Menezes – ex-jogadora e supervisora do futebol feminino da Portuguesa.

O Santos gasta mensalmente R$ 60 mil com folha salarial do elenco e conta com uma parceria com a Universidade Santa Cecília, que oferece bolsa de estudo às atletas em troca de ter o nome estampado no uniforme do time.

"O Santos sente amor pela modalidade. O presidente (Modesto Roma) tem uma grande identificação, amor e compreensão da modalidade, então fez questão de voltar com a equipe feminina. Ele adora isso. Tudo se tornou mais fácil, diferentemente de 2011 quando não fizeram questão nenhuma de continuar. As Sereias da Vila fazem parte do DNA do Santos", ressaltou Rubinho Quintas Ovalle Jr, diretor do futebol feminino do clube.

O São Paulo, após 14 anos, voltou a ter uma equipe feminina graças a uma parceira que firmou com a prefeitura de Barueri. Ao contrário do rival, o clube do Morumbi não gasta nada com a modalidade.

"Barueri cuida do campo, logística e folha de pagamento. O vínculo do São Paulo é ceder a camisa, a exploração da marca. É uma estratégia que já acontece muito no vôlei e futsal, mas no São Paulo é a primeira vez e confesso que às vezes me sinto perdida. Antes era uma atuação muito mais interna, que aproximava mais a equipe do clube, então era mais fácil", disse Cléo Brandão - responsável pela diretoria do feminino no São Paulo.

Cléo ainda acredita que o modelo adotado pelo São Paulo pode ser uma forma de outros clubes também abrirem as portas para o feminino. "Eu acho que neste molde que o São Paulo tem, sem aporte financeiro, não tem porque um clube dizer não. O clube pode vincular a sua marca, administrar de uma maneira saudável e fazer com que a camisa esteja em todas as modalidades".

Por outro lado, é um consenso de quem trabalha com o futebol feminino que é necessária uma atenção maior da mídia, desde matérias jornalistas até a transmissão de campeonatos em TVs aberta e fechada.

"Precisa de mais divulgação do produto. O direito de transmissão do futebol feminino é mais caótico. Alguns jogos são transmitidos e outros não. Eu tenho certeza que se isso fosse colocado em pauta fortaleceria e teria uma repercussão maior do esporte. A realidade é que isso está muito cru ainda", analisou Rubinho.

"A mídia não dá muita importância, e o valor do futebol feminino é tremendo. Precisamos de mais pessoas que busquem informações, fortaleça a modalidade, porque desta maneira você consegue criar mais trabalho para as meninas. Hoje, a menina não pode projetar a carreira porque tem de ter dois empregos. E mesmo assim, amam o que fazem", completou Adriana.

Priscilla Mayla, ex-goleira de São Paulo, Palmeiras, Santos e equipes norte-americanas, deixou os gramados para se tornar treinadora e agora analisa o cenário do futebol feminino de maneira diferente. Graduada em Educação Física e habilitada no curso de treinadores da CBF, hoje ela comanda os treinos de uma escolinha de futebol do Boca Juniors em Santos.

"O futebol feminino não teve uma base certa. A maioria dos clubes tratavam as jogadores como amadoras, que não tinham carteira assinada. Agora, eu estou vendo que existe esse possibilidade e que pode ser construído um caminho mais sólido. Vão poder enxergar o futebol como uma profissão e ter mais segurança para jogar".

A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) confirmou nesta semana Marco Aurélio Cunha como o novo coordenador de futebol feminino. A entidade também divulgou que na próxima semana organizará o "Seminário de Desenvolvimento do Futebol Feminino", que terá as presenças do presidente Marco Polo Del Nero, Vadão, do técnico da seleção brasileira feminina, Fabrício Maia, coordenador técnico, Mayi Cruz Blanco e Gregory Engelbrech, representantes da FIFA, e membros de clubes e federações estaduais.

Com uma seleção permanente, a CBF mantém jogadoras com salário fixo. A folha salarial gira em torno de R$ 250 mil por mês para 27 jogadoras.

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