Sem desespero e passiva, torcida corintiana muda sua relação com a Libertadores

Por Bruno Winckler - iG São Paulo |

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Em segunda eliminação após título, o choro e as vaias comuns pré-2012 ficaram para trás

Reverter um placar de 2 a 0, ainda que contra um time sem os mesmos investimentos do Corinthians, não parecia missão simples. Cientes disso, mais de 39 mil corintianos estiveram em Itaquera na noite de quarta-feira. Esperavam uma virada histórica. Ela esteve longe todo o tempo e se confirmou quando o Guaraní fez 1 a 0 no final do jogo

Nem assim se viu nas arquibancadas da Arena Corinthians qualquer sinal que pudesse lembrar o clube que por pelo menos 20 anos teve na Libertadores sua maior obsessão.

E mais: Expulsões estúpidas enterraram pretensões do Corinthians na Libertadores

Na véspera da partida, o presidente Roberto de Andrade disse que não temia qualquer reação violenta dos torcedores em caso de eliminação. “Não tenho preocupação em relação a isso. O torcedor está um pouco mais maduro”, disse. Ele estava certo. A última reação violenta do torcedor organizado do Corinthians por uma eliminação continental aconteceu em 2011, após a chegada da Colômbia, onde o time caiu para o Tolima na fase pré-grupos da Libertadores.

Confira outros vexames brasileiros na Libertadores:

2011: Com Ronaldo em campo, o Corinthians não passou do modesto Tolima e parou antes mesmo de chegar à fase de grupos da Libertadores. Foto: AP2008: O América-MEX de Cabañas eliminou o Flamengo na Libertadores com direito a vitória por 3 a 0 no Maracanã. Foto: AP2002: O Atlético-PR vencia o Bolívar por 5 a 1 fora de casa e permitiu que o rival empatasse. Na rodada seguinte, deixou a Libertadores levando 5 a 0 do América de Cali. Foto: Arquivo2007: Atual campeão, o Internacional tropeçou para Vélez Sarsfield, Nacional-URU e Emelec e foi eliminado na fase de grupos da Libertadores. Foto: Jefferson Bernardes/VIPCOMM/Divulgação2015: O Guaraní do Paraguai comemora a vitória sobre o Corinthians por 1 a 0 em Itaquera e a vaga nas quartas de final da Libertadores. Foto: Andre Penner/AP2014: Sob o comando de Eduardo Hungaro, o Botafogo não conseguiu passar da fase de grupos da Libertadores. Foto: Vitor Silva/SSPress

O novo estádio corintiano recém nascido viu em menos de um mês duas eliminações. Uma para o Palmeiras, no Paulistão, e agora, na Libertadores, tratada como prioridade por todos no clube. Nem uma, nem outra gerou qualquer reação exagerada do torcedor do Corinthians mais apaixonado. Talvez o presidente esteja certo quanto à maturidade do corintiano, ainda que apenas no estádio, já que cobranças públicas no CT aconteceram após 2012 e certamente voltarão a acontecer.

Mas o ambiente em Itaquera criado pelo próprio clube não parecia nada ao de uma partida decisiva. Antes do jogo, os gritos dos torcedores foram sufocados pelo som pesado do Guns N’ Roses. O aquecimento dos jogadores, um momento em que eles poderiam receber o apoio do torcedor, foi feito ao som estridente da guitarra de Slash, e o hit “Sweet Child O’mine”.

No intervalo do jogo, ainda com o placar inicial que eliminaria o Corinthians, o humorista Diogo Portugal promoveu no telão o seu stand up comedy no teatro do Parque São Jorge. Em seguida, a música “A kind of magic”, do Queen, começou a tocar alto, muito alto. Não havia nada de Corinthians ali. Em outros tempos (leia-se pré-2012), esse cenário era impensado dada a tensão natural de um jogo eliminatório de Libertadores, especialmente em um que o Corinthians está em desvantagem. Ao fim da música que abafaria qualquer grito, uma vaia se alastrou partindo das torcidas organizadas.

Só aí, talvez percebendo que aquele não era o momento de promover qualquer pessoa alheia ao Corinthians ou de qualquer descontração, os alto falantes ficaram mudos. Ouviu-se apenas o grito da torcida. Como sempre foi, sem os artificialismos que as novas arenas europeizadas tentam fazer parecer algo natural aos brasileiros, especificamente aos corintianos que amaram o Pacaembu e que só tem um ano de casa nova.

Danilo para na marcação do Guarani em Itaquera
Andre Penner/AP
Danilo para na marcação do Guarani em Itaquera

Quando os jogadores já estavam de volta a campo após o intervalo, o hino do Corinthians foi acionado em bom tom. Tradição respeitada prontamente aceita pela torcida que voltou a empurrar o time como sempre fez com sua mais antiga canção. Mas este foi apenas um sopro do antigo Corinthians.

As expulsões de Fábio Santos e Jadson, que poderiam entrar no hall onde estão a de Roger, contra o River Plate, em 2003, ou o gol contra de Coelho em 2006, causaram certa revolta, mas o sentimento que a maioria dos presentes ali deixava transparecer era de que a derrota deveria ser aceita, sem necessidade de escolher novos vilões. “ Ôôô corintiano maloqueiro e sofredor”, o grito cantado na derrota preferido dos corintianos voltou a ser entoado, numa maquiagem do que já foi espírito corintiano.  

Aos 40 minutos do segundo tempo, alguns torcedores começaram a deixar o estádio. Os que ficaram, não deixaram de apoiar o time. Nada parecido ao que aconteceu nas eliminações pré-título, à exceção de 2010, quando houve apoio na vitória insuficiente contra o Flamengo.

Em 2013, quando caiu para o Boca Juniors no Pacaembu, também nas oitavas, o apoio ao time foi irrestrito. Em Itaquera, mesmo não conseguindo um gol sequer contra a pior defesa entre os classificados para as oitavas, não houve vaias, não houve xingamentos exagerados. Apenas a resignação.

No apito final, a locutora do estádio com sua voz charmosa anunciou: “Fim de jogo. O placar da partida foi Corinthians zero, Guaraní, um”. Algo que nunca precisou ser dito de tão óbvio, mas que foi aceito, como poucas vezes se viu numa derrota. E resignado o corintiano correu para pegar o metrô e voltar para a casa.

Apenas um grito tímido de que “o Brasileirão é obrigação” foi ouvido, o máximo de cobrança que chegou ao elenco mais caro do Brasil, que deixou o estádio de cabeça erguida. “Quem ficou no campo lutou, e a torcida aplaudiu. Jogamos bem”, disse Renato Augusto. Sem choro, sem desespero o Corinthians deixou a Libertadores. Novos tempos.

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