Brasileirão começa neste sábado, e primeira rodada já tem um jogaço atirado às traças. Meta é virar Premier League, mas há um longo caminho para tornar-se referência mundial

O Brasileirão tem muito a melhorar. A CBF reconhece e diz que tentará dar a ele um padrão europeu , mas o torneio, que terá sua 13ª edição por pontos corridos iniciada neste sábado, ainda apresenta desigualdades e uma desorganização que impedem que ele de fato seja referência mundial. 

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Alex não acredita em melhora do Brasileirão enquanto a CBF foi responsável por ele
Divulgação
Alex não acredita em melhora do Brasileirão enquanto a CBF foi responsável por ele

"Só mudança de calendário, divisão de cotas de TV mais justa e de gestão dos clubes e federações podem salvar o Brasileirão", disse o ex-jogador Alex, um dos líderes do Bom Senso FC, grupo de oposição à CBF que tenta dar mais voz aos atletas nas decisões em torno do futebol brasileiro.

O Brasileirão está na contramão dos principais torneios nacionais do mundo, começando pelo seu calendário. O principal campeonato do País começa no meio da temporada, quando alguns times têm outras prioridades, como a Libertadores, e depois dos Estaduais, que acabam sendo o primeiro contato dos torcedores com seus clubes no início do ano. 

Para Tim Vickery, correspondente da BBC no Brasil, a divisão das competições no calendário nacional desprestigia o Brasileirão. "Sinceramente, vocês aqui não entenderam ainda o que é pontos corridos. A grande graça dos pontos corridos é no início. No início é a festa de todas as torcidas, do país inteiro. O cara vai para o estádio com aquela fé, magia de torcedor: 'esse ano a gente pode surpreender', seja o clube dele grande ou modesto", disse ele durante o programa Redação Sportv .

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Paulo André, zagueiro do Cruzeiro e um dos líderes do Bom Senso FC, concorda que essa alternativa poderia ser adotada pela CBF. "Mas a CBF não ouve ninguém", comentou depois da partida de quarta-feira contra o São Paulo pela Libertadores no Morumbi. 

Um dos efeitos desse calendário reflete diretamente na primeira rodada do Brasileirão 2015. O atual bicampeão do torneio, o Cruzeiro, enfrenta o Corinthians em Cuiabá, por ter perdido mando de campo no ano passado. Os dois times candidatos ao título se enfrentam num jogo que deveria ser grandioso, mas ambos estão mais preocupados em reverter um cenário desfavorável na Libertadores. 

Lance do confronto entre Cruzeiro e Corinthians no segundo turno do Brasileirão 2014. Duelo será esvaziado na abertura desta edição
Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians
Lance do confronto entre Cruzeiro e Corinthians no segundo turno do Brasileirão 2014. Duelo será esvaziado na abertura desta edição

"É algo que nós infelizmente estamos acostumados. Quem acaba pagando o preço são os jogadores, os torcedores de bem", disse o goleiro Fábio, capitão do Cruzeiro, que defende punição aos torcedores que provocam confusão nos estádios, não aos clubes. O técnico Marcelo Oliveira já avisou que seu time vai iniciar a defesa do título com um time reserva. Mais desprestígio, impossível. 

Marco Polo Del Nero se defende dizendo que a CBF criou uma comissão para avaliar propostas dos clubes. Na última semana, em seminário com representantes dos 20 times da Série A, a entidade se colocou à disposição para ouvir e debater ajustes. Tudo muito superficial. A dependência que os clubes têm das federações e da CBF atrapalha o desenvolvimento do Campeonato Brasileiro.

"O Brasileiro precisa primeiro se tornar uma liga. Porque nós não temos uma liga. Na historia do nosso futebol, tivemos uma tentativa no ano de 1987 e até hoje temos uma bela discussão a respeito daquele ano. Feita uma união dos clubes e surgida a liga, deve vir a escolha de um nome simples e vendável. Todas as ligas mundiais têm um nome que fica gravado nas pessoas. Aí seria um começo" diz Alex. 

Marco Polo Del Nero diz que CBF está sempre aberta ao debate e a ouvir sugestões
Ricardo Stuckert/CBF
Marco Polo Del Nero diz que CBF está sempre aberta ao debate e a ouvir sugestões

Del Nero rebate dizendo que, se uma liga de clubes for formada, é ela que terá de se responsabilizar pelas Séries C e D. Hoje as duas divisões são sustentadas pela CBF, que paga boa parte dos gastos logísticos dos clubes dessas divisões. "Os clubes vão ter gasto com essa liga e não vão conseguir fazer o que a CBF faz. Os clubes não têm gastos na Série C e D. Se eles querem organizar, eles vão levar as outras séries. O pedaço bom, todos querem levar", disse em entrevista ao site da ESPN. 

Cotas de TV
Outro fator que ajuda para aumentar a disparidade dos clubes da Série A é o valor pago para os clubes pela TV Globo, detentora dos direitos de transmissão do torneio. Sem considerar campanhas ou o mérito em campo para dividir os valores, os clubes mais populares do País e que atraem mais audiência são os que abocanham a maior parte da quantia despejada pela emissora em futebol. 

Em 2014, só os dois clubes ficaram com mais de 20% de toda a cota. Os outros 80% foram divididos entre as outras 18 equipes da Série A. Alex externa o descontamento dos clubes menores com a divisão imposta pela emissora.

Times com mais jogos transmitidos, Flamengo e Corinthians são sempre alvo dos
Reprodução/Futirinhas
Times com mais jogos transmitidos, Flamengo e Corinthians são sempre alvo dos "memes"

"A tevê paga a tradição e o número de torcedores que o clube possui. Não existe meritocracia. Enquanto uma equipe considerada menor faz um esforço brutal e consegue chegar na Libertadores, ao invés de comemorar a conquista, sua diretoria passa a ficar preocupada com o orçamento futuro dela. Em contrapartida, se um médio grande cai de divisão, sua diretoria pensa. “É nossa chance de conter um pouco as despesas e retornar um pouco melhor". Onde está o mérito na conquista do pequeno? Somente no trabalho, porque em valores financeiros não acontece. É totalmente injusta. O Cruzeiro é um belo exemplo disso. É o atual bicampeão brasileiro e a cota de TV dele não obteve acréscimo sensível", comentou o ex-jogador. 

O Flamengo recebeu R$ 115,1 milhões da Globo em 2014, enquanto o Corinthians ficou com R$ 108,7 milhões. Bem atrás deles ficaram o Palmeiras e Atlético-MG, com R$ 80 milhões. O Figueirense recebeu apenas R$ 8,2 milhões.

A CBF diz que pretende mudar o cenário. "Eu tenho o interesse de resolver o problema de 18 clubes que sentem uma diferença muito grande em relação ao Flamengo e ao Corinthians. Vamos tirar do Flamengo e do Corinthians? Não, não podemos tirar de quem está bem. O que nós podemos fazer é buscar aumentar a cota desses 18 clubes", disse Del Nero. 

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