Premiação, orçamento enxuto e técnico: como a Caldense chegou à final do Mineiro

Por Gabriela Chabatura - iG São Paulo |

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Clube de Poços de Caldas está na final do Campeonato Mineiro e joga por dois empates para ser campeão contra o Atlético. Conheça o caminho vitorioso da equipe do interior de Minas

Luiz Eduardo é o artilheiro da Caldense com sete gols. Só está atrás de Damião, que fez 9
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Luiz Eduardo é o artilheiro da Caldense com sete gols. Só está atrás de Damião, que fez 9

"É no pé e na raça que lutamos pela taça". Fazendo jus à letra de seu hino, a Caldense desbancou o favoritismo das principais forças do Estado e chegou como intrusa às finais do Campeonato Mineiro. Com retrospecto de clube grande e ambição de gigante, a equipe do interior do Estado se prepara para o duelo contra o Atlético-MG, no próximo domingo, no Mineirão, para escrever novos capítulos de seu caminho histórico.

Com um orçamento que não ultrapassa os R$ 220 mil mensais, a Caldense surpreendeu a todos com um desempenho de fazer inveja aos milionários Atlético-MG e Cruzeiro. Tornou-se o time com a melhor campanha na fase de classificação, a defesa menos vazada (apenas quatro gols sofridos) e o atacante (Luiz Eduardo, com sete gols) entre os artilheiros da competição. Feitos suficientes para ficar satisfeito, certo? Nada disso. Com a vantagem de dois empates para as decisões, levantar a taça do bicampeonato virou a palavra de ordem em Poços de Caldas. E quem está lá dentro acredita que é possível.

A explicação para tanto sucesso no Estadual está na organização e no planejamento pés no chão. Antes mesmo de o torneio começar, no fim do ano passado, a Caldense acertou o retorno do técnico Leonardo Condé e repatriou jogadores que estiveram no elenco de 2014.

“Nós fizemos uma reunião com a comissão técnica em 2014 para mantermos a mesma base para este ano. A partir daí, o Léo conseguiu colocar o plantel ao lado dele. Contratamos dois jogadores do mesmo nível para as mesmas posições, então quando o titular se machucava ou estava suspenso, tinha o reserva. E o time não caiu de produção por causa disso”, explica o presidente Laércio Martins, em entrevista ao iG.

Boa parte dos recursos financeiros da Caldense para manter o futebol profissional é oriundo de contrato com patrocinadores e parcerias com empresas da cidade, além do próprio clube social. Cerca de 10% de arrecadação dos sócios é repassado para o futebol, embora o estatuto permita o porcentual de até 20%. O dinheiro de bilheteria que é praticamente inexistente virou premiação para os jogadores.

"Não podemos contar com a renda de bilheteria, pois ela existe apenas para a manutenção do estádio. O nosso trabalho de arrecadação é extracampo. Na semifinal contra a Tombense, deixamos 50% da renda líquida para o elenco, porque não podemos prometer além disso. Temos de trabalhar com a nossa realidade", acrescentou Martins, que ainda não definiu o prêmio do time nas finais.

Léo Condé, técnico da Caldense no Mineiro
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Léo Condé, técnico da Caldense no Mineiro

Treinador é o grande trunfo

Formado em Educação Física e jovem, o técnico Leonardo Condé foi o grande responsável por colocar o planejamento em prática. Com um elenco repleto de jogadores com quem já havia trabalho, ele não teve dificuldades para unir o grupo durante a competição. Tudo na base da conversa e muito trabalho.

"Nós trabalhamos pensando em fazer o melhor. Quando se entra em uma competição que tem adversários como o Cruzeiro, o Atlético e o América, sabe que vai ter dificuldade. Mas em nenhum momento nós deixamos de acreditar. Nosso objetivo era chegar à semifinal e, como pegamos a Tombense, acabou nos possibilitando ir para as finais", enalteceu o comandante.

Hoje com 37 anos, Léo Condé começou a trabalhar com o futebol aos 19, quando treinava equipes de uma escolinha de futebol do Tupi-MG. Recebeu um convite do América-MG em 2001, onde ficou por cinco anos, até ser chamado para treinar o juniores do Atlético-MG após a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Permaneceu durante três anos no Galo e então iniciou a carreira no como treinador profissional, passando por clubes como Tupi, Ipatinga, Villa Nova e Nova Iguaçu. Uma vida nômade que o fez abdicar de muitos momentos da vida.

Um desses momentos aconteceu em 2005. Condé assumiu o time principal do América-MG de forma interina e precisou adiar a lua de mel porque um dia depois do casamento tinha jogo marcado. "Você abre mão de muitas coisas na vida pessoal. Eu sou casado, tenho dois filhos, e às vezes você não consegue levar a família e isso acaba prejudicando. Já perdi até o nascimento do meu filho", conta ele.

O jogo deste domingo será também para Condé o reencontro com o técnico Levir Culpi, profissional que admira e com quem trabalhou no próprio Atlético-MG quando era treinador nas categorias de base. "Eu sempre gostei do trabalho de campo do Levir, da maneira que ele lida com jogadores. Apesar de pouco contato, foi um grande aprendizado", lembra.

Mas quem pensa que Condé terá algum tipo de vantagem por conhecer o rival, ele trata de rechaçar. "Ajuda em alguns aspectos, mas não é determinante. Nós conhecemos a força do Atlético-MG, a torcida fanática que não vai deixar os jogadores se acomodarem. Mas nossa palavra-chave é equilíbrio."

Rodrigo, de 25 anos, sofreu apenas quatro gols no campeonato mineiro. Ele é fã de Taffarel
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Rodrigo, de 25 anos, sofreu apenas quatro gols no campeonato mineiro. Ele é fã de Taffarel

Goleiro e artilheiro são destaques
Autor de sete dos 18 gols marcados pela equipe na competição, Luiz Eduardo está dando a volta por cima na carreira pela Caldense. Após ficar quase três meses afastado por causa de uma lesão no joelho, no ano passado, quando defendia o Boa Esporte, o atacante voltou a brilhar.

"A lesão atrapalhou o meu desempenho, mas isso ficou para trás. Fiquei muito chateado na época, mas me apeguei muito a Deus e ele me deu força para sair desta situação. Esse ano é campeonato novo e novos sonhos", afirmou ao iG.

Assim como Luiz Eduardo, quem também se destacou durante a campanha foi o goleiro Rodrigo Viana, de 25 anos. Nascido em Niterói, no Rio de Janeiro, o jogador foi convidado por Léo Condé para defender a Caldense e se tornou peça fundamental do time.

Com apenas quatro gols sofridos durante toda a competição, Rodrigo divide os méritos com os profissionais do clube. "É feito um trabalho de muita qualidade com o preparador, além da concorrência ser muito forte. Aqui todos são muito qualificados e aumenta o nível de competitividade."

Fã de Taffarel, Rodrigo ainda revela que já sofreu preconceito por causa da altura: 1,83m, considerada baixa para goleiros. "Há preconceito com a altura. Apesar de não estar muito fora do padrão brasileiro, o preconceito existe. Mas nunca me senti atrapalhado por isso. Eu provo que não tem nada a ver, e o goleiro precisa de outras valências para ser bom", concluiu.

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