Técnico estrangeiro não se firma no Brasil, e a culpa muitas vezes é dos clubes

Por Gabriela Chabatura - iG São Paulo |

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Equipes apontam falta de conhecimento dos profissionais e diferença de cultural para justificar prazo curto de validade

A possível contratação de Alejandro Sabella pelo São Paulo retomou o debate sobre a presença (ou seria ausência?) de técnicos estrangeiros no futebol brasileiro. Daniel Passarella, Ricardo Gareca, Juan Ramón Carrasco, Miguel Ángel Portugal e Lothar Matthäus ficaram poucos jogos à frente de suas equipes e engrossam o histórico de insucessos dee treinadores importados no País. Os motivos são os mais diversos, desde a dificuldade com o idioma até a falta de profissionalismo dos clubes e que esses profissionais têm do mercado do local.

Sabella é o favorito da diretoria do São Paulo
Getty Images/Matthias Hangst
Sabella é o favorito da diretoria do São Paulo

Leia também: Idioma, conceitos e dinheiro: por que técnicos brasileiros não trabalham no futebol europeu?

O meia Alex, que no Internacional é comandado pelo uruguaio Diego Aguirre, analisou esse cenário na última semana, no programa Seleção Sportv. Ele vê resistência do futebol brasileiro aos treinadores estrangeiros e não está errado na análise.

O Atlético-PR nos últimos anos teve três treinadores que nasceram fora do Brasil: o alemão Lothar Matthäus (2006), o uruguaio Juan Ramón Carrasco (2012) e o espanhol Miguel Ángel Portugal (2014). Nenhum deles completou um ano no cargo.  Para o presidente Mário Celso Petraglia, o choque de culturas é enorme e interfere em uma relação mais duradoura com esses profissionais.

“Infelizmente há uma dificuldade básica e fundamental que é o confronto de culturas. No Brasil, os treinadores em sua maioria – assim como no resto do mundo – são ex-jogadores com grande dificuldade de estudos, conhecimento, escola, base cultural mais profunda e, com isso, o futebol brasileiro se habituou ao não profissionalismo profundo. Esses treinadores estrangeiros também são ex-jogadores, mas têm uma cultura, um profissionalismo profundo europeu. Quando chegam ao Brasil, há i conflito”, afirmou ao iG

Miguel Ángel Portugal,passou pelo Atlético-PR, mas ficou pouco tempo no comando
Divulgação/CAP
Miguel Ángel Portugal,passou pelo Atlético-PR, mas ficou pouco tempo no comando

“Os dois europeus (Matthäus e Portugal) se foram por entender que não tinham condições de trazer os resultados que o clube esperava. O Carrasco, por ser uruguaio, é mais ou menos igual ao brasileiro, mas houve uma saída dele por falta de conhecimento dos jogadores e do futebol brasileiro”, completou o mandatário.

Os problemas apontados por Petraglia foram exatamente os mesmos que levaram o Palmeiras a demitir o argentino Ricardo Gareca em setembro do ano passado. Em menos de três meses de trabalho, o técnico foi dispensado por acumular oito derrotas em 13 jogos e pedir contratações de compatriotas, como as de Pablo Mouche, Cristaldo e Allione.

“O conhecimento do futebol brasileiro é importante para qualquer técnico ter sucesso aqui no Brasil, seja brasileiro que esteja fora ou um estrangeiro que eventualmente não tenha contato com o futebol brasileiro, não conheça os adversários, os outros jogadores... Acho que influencia muito para eles conhecerem bem o próprio elenco. Tenho certeza que se tiver tempo e conhecimento, eles vão ter o mesmo sucesso no Brasil o que tem fora também”, declarou o presidente Paulo Nobre.

Para o executivo Rodrigo Caetano, diretor de futebol do Flamengo, a impaciência dos clubes interfere na longevidade dos treinadores vindos de fora. “Como os brasileiros muitas vezes têm uma certa dificuldade fora, acontece com os estrangeiros aqui no Brasil também. A língua é um problema, assim como a metodologia diferente, comissão técnica grande, mais o imediatismo dos clubes. É uma série de fatores".

Daniel Passarella: insucesso no Corinthians
AP
Daniel Passarella: insucesso no Corinthians

O dirigente ainda tenta explicar a atual demanda por esses profissionais. "Eles aparecem como uma alternativa à escassez de novos nomes, mas os clubes não querem fazer novas apostas. Por esse motivo, muitas vezes os clubes acabam contratando treinadores renomados e dividindo a responsabilidade”, analisou Caetano, que nos tempos de jogador teve como treinadores o húngaro Izidor Kürschner e o paraguaio Fleitas Solich.

Se a ideia é dar "tempo de trabalho", como defende o gerente Edu Gaspar, essa decisão nem sempre foi seguida pelo Corinthians, onde o cartola trabalha. Em 2005, durante a parceria com a MSI, o clube contratou o argentino Daniel Passarella, mas dois meses depois resolveu demiti-lo. A decisão aconteceu após uma goleada vexatória para o São Paulo por 5 a 1.

Tidos como mais atualizados que os treinadores brasileiros, os estrangeiros muitas vezes saem do Brasil desacreditados e deixam uma imagem ruim para trás. Culpa da mentalidade atrasada do futebol nacional e da pressão por resultados nos clubes. Ao mesmo tempo que pregam a procura pela modernidade, as agremiações voltam às velhas práticas e não pensam duas vezes antes de atribuir ao treinador a culpa pela própria falta de planejamento. Sabella pode ter a chance de quebrar essa sequência. Ou pode ajudar a ampliá-la.

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