Premiações maiores atraem os presidentes das equipes, que pedem pela reformulação no calendário do futebol brasileiro. Com estádios vazios, Estaduais tiram dinheiro dos clubes

Com os Estaduais causando prejuízos aos clubes , a discussão entre os dirigentes para promover o retorno dos regionais se intensificou. Tendo as Copas do Nordeste e Verde, ambas organizadas pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol), como exemplos, as equipes pleiteiam a volta da Taça Rio-São Paulo e da Copa Sul-Minas com o argumento de elas serem mais atrativas, sobretudo, por causa das melhores premiações e qualidade técnica dos adversários.

Mário Celso Petraglia, presidente do Atlético-PR, pede a volta dos Regionais
Divulgação
Mário Celso Petraglia, presidente do Atlético-PR, pede a volta dos Regionais

Há três anos, o Atlético-PR despreza o Campeonato Paranaense e articula o fim dele nos bastidores. Tudo isso porque, desde 2012, o clube literalmente paga para disputar o torneio ao somar o rombo de R$ 935.279,5 (somente de bilheteria, fora as despesas operacionais) nos cofres. Tamanho gasto foi primordial para que o clube optasse por ignorar a competição e escalar apenas o time sub-23 nos jogos.

“O Atlético-PR não prestigia o campeonato estadual porque ele traz vários prejuízos e tem uma dissonância muito grande entre os clubes. São 12 clubes, sendo apenas dois deles com profissionalismo puro porque o resto é clube de aluguel, de empresários que formam jogadores para ganharem dinheiro. Portanto, nós gostaríamos e estamos trabalhando muito para a volta dos regionais. Se não for possível a eliminação definitiva dos Estaduais, precisamos pensar em um outro calendário nacional ou uma fórmula de disputa com uma limitação de idade e patrocínios para os clubes menores. Nesse início de calendário, o prejuízo está grande e acaba se arrastando durante o ano todo”, disse o presidente Mário Celso Petraglia ao iG .

O Bahia que, além disputar o Campeonato Baiano, participa da Copa do Nordeste defende até a possibilidade de manter a disputa simultânea das duas competições.  “A volta dos regionais seria muito para os clubes em geral. É possível fazer isso sem matar os Estaduais e prejudicar os times locais, chamados de pequenos. Uma fórmula conjunta, ou até uma segunda divisão regional, baseada na classificação do Estadual pode ser uma alternativa para que os times locais não dependam apenas dos Estaduais”, analisou o diretor de futebol Alexandre Faria.

Para efeito de comparação, a Copa do Nordeste – que está na fase final com a decisão entre Bahia e Ceará - arrecadou quase 11 vezes mais que o Campeonato Baiano: R$ 4.222.743,73 de renda contra apenas R$ 384.564,86 do Estadual.

Souza comemora gol do Bahia sobre o Sport pela Copa do Nordeste. Final será contra o Ceará
Felipe Oliveira/EC Bahia/Divulgação
Souza comemora gol do Bahia sobre o Sport pela Copa do Nordeste. Final será contra o Ceará

O Flamengo, um dos defensores da volta do mata-mata no Brasileirão, reconhece que os regionais são mais rentáveis para os clubes, mas vê o calendário do futebol brasileiro como empecilho. “É uma questão de discutir uma melhora na fórmula de disputa dos Estaduais, de rever questões sobre os estádios, principalmente para clubes de menor expressão. Mas eu não vejo que vai acontecer (que o regional vai voltar). A discussão precisa ser sobre todas as competições, não tem jeito”, argumentou Rodrigo Caetano, diretor de futebol do clube da Gávea.  

As poucas datas disponíveis no calendário preocupa também os grandes clubes paulistas. O presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, é um dos admiradores da Taça Rio-São Paulo, porém, não acredita que seja possível resgatá-la. “O campeonato regional é interessante, mas eu não sei se o nosso calendário permite, se há datas para isso”, explicou à reportagem.

Modesto Roma Júnior, presidente do Santos, amplia a discussão. Ele defende mudanças no calendário geral e questiona a soberania da TV Globo, responsável por repassar individualmente aos clubes as cotas no direito de transmissão do campeonato. “Eu acho que nós temos de mudar o calendário. Temos de repensar, e não é uma coisa pequena. Nós precisamos mudar a distribuição de datas, precisamos fazer uma readaptação do calendário. A fórmula desse Campeonato Paulista, por exemplo, está um pouco esvaziada”.

“O futebol não pode ficar restrito aos grandes clubes, do contrário, vai para a mesmice. Não pode ter o futebol pensado simplesmente nos interesses da emissora de TV, que precisa de jogos para a sua grade e eventos para seus canais. Por outro lado, o pagamento é feito pela própria emissora. É preciso que se repense tudo”, completou.

O Corinthians engrossa o discurso do rival e critica o excesso de jogos. “Hoje nós estamos brigando porque há muitos jogos em um calendário muito pequeno. Com partidas de quarta e domingo, os clubes não estão tendo folga. Sempre que muito adaptada e pensada, uma competição não traz problemas. Eles aparecem quando encavalam muitos jogos, colocando mais onde não cabe. Isso é preocupante”, falou o gerente de futebol Edu Gaspar.

Mesmo com as críticas dos clubes, a CBF preferiu não fazer mudanças drásticas no calendário. Neste ano, a única alteração foi dar uma semana a mais às equipes na pré-temporada e respeitar os 30 dias de férias dos atletas. O Bom Senso FC chegou a montar um calendário, inclusive com competições para atender clubes menores, e a apresentar à entidade, mas ela preferiu por ignorar a sugestão do movimento.

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