Léa Campos lembra que peitou o então presidente da CBD, foi apoiada por Médici e enfrentou ainda o machismo de outras mulheres: "Falavam que eu só queria casar com jogador"

Léa Campos atuou como árbitra nos anos 70, até um acidente interromper sua carreira
Arquivo pessoal
Léa Campos atuou como árbitra nos anos 70, até um acidente interromper sua carreira

A árbitra de futebol nunca foi uma figura tão comum no Brasil como atualmente, já que a CBF reúne hoje 63 mulheres no seu quadro de árbitros e assistentes. Mas o cenário de 2015 poderia ser bem diferente se, há mais de 40 anos, Léa Campos, mineira de Abaeté, não tivesse peitado João Havelange, então presidente da CBD (precedente da CBF), para tornar-se pioneira na função.

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Foi o ex-dirigente, presidente da Fifa por mais de 20 anos, o maior obstáculo para que Leá, hoje com 70 anos e atuando como jornalista em Nova York, conseguisse o certificado que a autorizou a apitar jogos de futebol.

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"E se você estiver menstruada? Como vai apitar?". Esta foi uma das perguntas, segundo Leá, feitas por Havelange a ela ao longo dos quatro anos em que brigou com a CBD pelo registro. "Ele era ridículo", conta. "Disse a ele que a única diferença entre homens e mulheres era que o sexo dele ficava pendurado no meio das pernas".

Havelange só foi dobrado pelo então presidente Emilio Garrastazu Médici. Rainha do Exército eleita em um concurso de beleza em Belo Horizonte, Léa conseguiu um encontro com o então presidente da ditadura militar na capital mineira. Queria dizer a Médici que tinha o convite para apitar um torneio feminino no México, em 1971, mas para isso precisaria do certificado da CBD. 

"Pedi a ele que falasse ao João Havelange para liberar meu diploma para poder viajar e apitar no México. O encontro aconteceu numa sexta-feira, durou três minutos e terminou com a seguinte frase do presidente militar: 'Aqui está um cartão meu. Você almoça comigo na segunda-feira, em Brasília. E tenho uma surpresa para você'", contou Léa.

Léa Campos com time de São João da Boa Vista
Arquivo pessoal
Léa Campos com time de São João da Boa Vista

"Estava com muito medo. Era ditadura militar, e eu estava com medo de estar fazendo alguma coisa contra a lei. Fiquei dando murro em ponta de faca e meu medo era de morrer em Brasília, ser presa, mas meu pai, que era militar, disse pra eu ficar tranquila. 'Se quisessem ter feito algo contra você, já teriam feito'", recorda.  

Em Brasília, Médici a recebeu na Granja do Torto e lhe deu uma carta escrita por ele e que deveria ser entregue a Havelange. Ele ordenava o dirigente a liberar o diploma de árbitro a Léa. A surpresa prometida era a coleção que um dos filhos do general guardava. Eram recortes de reportagens sobre Léa. 

Léa então embarcou num avião da Força Aérea Brasileira com destino ao Rio, onde encontrou João Havelange com a carta de Médici nas mãos. "Ele pegou a carta e nem disse pra eu sentar. Ele então convocou uma coletiva de imprensa para falar que 'na minha gestão, dou o registro à primeira árbitra profissional'. Deu vontade de cuspir na cara dele. Hipócrita", disse.

Hoje ela agradece a coletiva. Na mesma semana, aconteciam no Rio as festividades pelo último jogo de Pelé pela seleção brasileira, em 18 de julho, contra a Iugoslávia, no Maracanã. "A cidade estava lotada de repórter gringo. Não fosse o Havelange, eu não teria dividido as páginas de jornais com o Pelé", se recorda. 

Léa superou Havelange, mas por muito tempo teve de lutar contra outro preconceito: o das mulheres. "É triste dizer isso, mas o machismo era maior entre as mulheres. Falavam que eu só queria entrar no futebol para arranjar algum jogador e me casar. Nunca que eu faria isso. Ganhei concursos de beleza, de miss, rainha de carnaval, do exército, e se quisesse isso não precisaria entrar no futebol. Deus me livre".

Hoje vivendo nos Estados Unidos, para onde foi em 2003, Léa não pretende voltar tão cedo ao Brasil. Quer dizer, a não ser que algumas mudanças aconteçam: "Não volto enquanto o PT estiver no poder", diz ela, deixando o futebol de lado para entrar um pouco na política.

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