Pequeno time paranaense quase eliminou o Timão na Copa do Brasil de 2005. Ex-goleiro e atual gerente do clube, Adir revela problemas nos bastidores que contribuíram para a goleada por 5 a 1 sofrida no segundo jogo, em São Paulo

Há exatos dez anos e com apenas três de existência, o Cianorte se transformava na surpresa da Copa do Brasil ao atropelar o Corinthians  por 3 a 0, em Maringá, na primeira partida da segunda fase do torneio. Os coadjuvantes liderados por Adir, Edson e Márcio Machado ofuscaram as estrelas de Gustavo Nery, Roger, Gil e Tevez e já se viam próximos da classificação. O reconhecimento nacional, entretanto, deslumbrou o modesto clube do Paraná e transformou em frustração o sonho de escrever história.

Para relembrar aquele fatídico episódio, o iG Esporte entrevistou o goleiro Adir, um dos líderes daquele elenco, que revelou os bastidores do segundo jogo que culminou na virada do Timão por 5 a 1, no Pacaembu.

Torcida do Cianorte
Divulgação
Torcida do Cianorte

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“Eu me lembro muito daquele ano. Existiam muitas brincadeiras dentro do grupo. Na primeira partida estávamos muito relaxados porque não tínhamos responsabilidade alguma. Não entramos abatidos e isso facilitava. Por outro lado, o Corinthians era cheio de estrelas e sabíamos que poderia fazer a diferença em qualquer momento”, afirmou.

Antes daquele jogo, o Corinthians havia demitido o técnico Tite e contratado o argentino Daniel Passarella, estreante da noite. Do banco de reservas, o novo treinador só acompanhou a falha do goleiro Fábio Costa e o primeiro gol do Cianorte nos minutos iniciais. Sem tempo para qualquer reação, o time paulista levou o segundo em uma bola desviada por Márcio Machado, que também anotou o terceiro em um golaço de bicicleta. “Em 20 minutos, fizemos três gols. O Corinthians estava desestabilizado. Naquele dia em Maringá, se o Cianorte fosse o Corinthians, teria feito uns oito gols. Apesar do que aconteceu no segundo jogo, essa partida vai ficar para sempre na história”, disse Adir.

Um mês depois, o Corinthians – que precisava vencer por quatro gols de diferença para se classificar à próxima fase - estava recuperado do resultado do primeiro jogo e determinado a reverter o placar. Empurrado pela torcida que compareceu em peso no Pacaembu, a equipe alvinegra protagonizou uma partida emocionante com direito ao resultado elástico de 5 a 1, e gols de Gustavo Nery, Roger (2) e Tevez (2).  Mas, para Adir, a grandeza do Corinthians não foi o único motivo que desestabilizou o Cianorte.

Muito além das quatro linhas...

Em quase um mês desde que se tornara a sensação da Copa do Brasil, o Cianorte começou a perceber que a pressão por eliminar o Corinthians aumentava. O elenco que tinha 70% de jogadores que nunca sequer havia viajado de avião de repente se transformara no queridinho dos rivais. E isso começou a jogar contra. “O oba-oba nos enganou muito”, reconhece o ex-goleiro.

Ainda segundo Adir, outros fatores contribuíram para que o Cianorte não suportasse jogar no Pacaembu. Às vésperas da decisão, o elenco não conseguiu dormir porque estava hospedado na Rua Augusta, região boêmia no centro de São Paulo, e só chegou ao estádio 15 minutos antes de a bola rolar. “O local onde estávamos hospedados era totalmente inadequado, não dormimos. O ônibus que nos buscaria no hotel não apareceu e fomos de van para o estádio”, contou.

Uma discussão no vestiário do intervalo piorou o clima, que já era de nervosismo. Afinal, o Corinthians vencia por 2 a 1 e não diminuía o ímpeto. “Um atleta não queria sair do jogo e passou discutir feio dentro do vestiário. Quando olhamos para o relógio, já era hora de voltarmos para o campo. Não aproveitamos o intervalo. Essa situação desencadeou uma série de discussões e, a partir daí, o grupo se dividiu e ninguém mais falou de futebol. Não discutir como suportar aquela pressão do Corinthians. Analisando com calma, eu comentei que nunca vi aquilo acontecer em um dia importante como aquele”, revelou.

De exaltado no primeiro jogo (por ter defendido um pênalti), Adir foi criticado por parte da torcida por ter falhado no quarto gol do Corinthians, marcado por Roger em um chute de fora da área. E ele mesmo se cobrou bastante. “Eu era um dos pilares do time. Falhei no gol do Roger, era uma bola que eu defenderia. Senti bastante aquele gol até porque, quando saí de Cianorte, falei para a minha esposa que o Corinthians teria de passar por mim para se classificar. Mas todos ficaram tristes, não só durante o jogo como depois também. Em princípio, recebi algumas críticas do torcedor, mas tenho uma história dentro do Cianorte e sempre me respeitaram. Acabou que deu a lógica, deu Corinthians e fica para nós a lembrança do primeiro jogo”.

Atual gerente de futebol do Cianorte e braço direito do presidente Lucas Franzato, Adir diz que se pudesse voltar à época faria “muitas coisas diferentes”. “Com mais experiência, eu naquela época teria pegado o elenco colocado em um centro de treinamento no interior da cidade para dar mais tranquilidade. A história teria sido outra desde a concentração. Eu teria mudado a programação, levado os jogadores uma semana antes para São Paulo para se preparar para um jogo daquela grandeza. Tenho certeza que todos ficariam com o psicológico fortalecido”, concluiu.

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