Fisioterapia, massagem dolorida e tuberculose: os dramas de Xandão na Rússia

Por Gabriela Chabatura - iG São Paulo |

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Zagueiro que defendeu o São Paulo joga pelo Kuban Krasnodar contou o desespero ao ser "diagnosticado" com tuberculose. Em entrevista ao iG, ele ainda falou sobre o conflito no país

“Falta do lado esquerdo entre a linha lateral e o bico da grande área. O meia Matías Fernández cobrou falta em direção ao gol, mas a bola foi forte e pingou na grande área do goleiro. Neste quique, o goleiro foi fazer a defesa, e eu estava por último – atrás de todos no segundo pau. Corri para a diagonal já esperando pegar o rebote. O goleiro soltou a bola no meu pé, eu tentei de primeira, e a bola bateu em cima dele. Quando voltou, estava de costas e não pensei suas vezes: dei de calcanhar”. É com essa riqueza de detalhes que o zagueiro Xandão lembra com clareza o gol mais bonito da carreira marcado no dia 8 de março de 2013, quando ainda defendia o Sporting, de Portugal. A vitória por 1 a 0 contra o Manchester City, nas oitavas de final da Liga Europa, é apenas uma das diversas histórias que brasileiro coleciona em três anos longe do Brasil.

Xandão se destaca no Krasnodar, da Rússia
Getty Images
Xandão se destaca no Krasnodar, da Rússia

Em entrevista exclusiva ao iG, Xandão, que hoje defende o modesto Kuban Krasnodar, da Rússia, relata as dificuldades do tratamento médico no país e reconhece que foi difícil cavar uma vaga nas equipes em que passou por ter os direitos econômicos atrelados ao Desportivo Brasil, braço esportivo da Traffic. Já sem nenhum vínculo com a empresa, o defensor se tornou titular absoluto e destaque da equipe na última temporada.

Fã de pescaria, religioso e caipira de Araçatuba, cidade do interior de São Paulo, Xandão ganhou visibilidade após defender o São Paulo de 2010 a 2012. Revelado pelo Guarani, ele ainda passou pelo Fluminense e Barueri até ser emprestado pelo Sporting e, posteriormente, comprado pelo Kuban. Mas o auge mesmo foi a atuação memorável contra o City, garante ele.

“Depois do jogo, passado a euforia, e eu minha esposa fomos ao culto da igreja que frequentávamos (eles são evangélicos). Fomos agradecer aquele momento e acabei convidado pelo pastor para dar o meu testemunho. Testemunhei o que havia acontecido naquele momento. É o gol que vai ficar marcado para a sempre em minha carreira porque ele abriu portas para mim na Europa. Não teve felicidade maior que esse jogo. Ficou para sempre na memória”, contou ele.  

Apesar das portas abertas, Xandão sofreu com a desvalorização no mercado depois que deixou Portugal, segundo o site Transfermarkt. Ele, porém, sabe que ter trocado o Sporting por um clube de menor expressão na Rússia contribuiu. “A minha opção por jogar no país como a Rússia e num clube que não é tão conhecido é claro que interferiu. Por não ter tanta visibilidade como antes, é natural que isso aconteça”, minimiza. Ele ainda argumenta que ter usado as equipes anteriores como vitrine também o atrapalhou. “Quando você não é um jogador do clube, acaba não recebendo tantos olhares de quando você pertence ao clube. São interesses. E, no meu caso, quem ia ganhar era a Traffic. Foi um fator que prejudicou ao longo desses anos. Mas são águas passadas e agora não tem nenhum problema porque sou 100% do Kuban”.

Há quase dois anos na Rússia, a única coisa a qual Xandão ainda não se acostumou é com o tratamento médico. Além de conviver com com a falta de aparelhos, o brasileiro ainda passou por uma situação assustadora logo depois passar as férias no Brasil e se reapresentar: foi “diagnosticado” com uma suspeita de tuberculose.

“Foi tenso no momento. Depois de fazer os exames de rotina, os resultados deram todos ok. Mas o raio-x do pulmão apresentou uma alteração. Aí quando eu já estava tranquilo em casa, o médico do clube me ligou e disse que eu precisava refazer o exame, pois do contrário eu não poderia viajar com o time. Eu perguntei para o meu tradutor e ele disse que o médico estava desconfiando que eu estava com tuberculoso e falou para voltar urgentemente para o hospital. Eu pensei: ‘Meu Deus do céu que notícia é essa aí?’. Viajei e o filme passou pela minha cabeça. Como eu ia dar essa notícia para a minha família caso isso fosse confirmado?. Passaram mil coisas até o caminho do hospital, e sempre orando para Deus para que não fosse nada. O coração estava apertado”, contou.

E depois da aflição, veio a confirmação: tudo não passou de um engano. “Eu cheguei no hospital, refiz o exame e levei o resultado para a avaliação dos médicos. Aí eles viram que não tinha nada. O que havia acontecido era um erro na máquina que provou uma mancha branca no meu pulmão. Na hora eu falei para o tradutor dizer ao médico que ele era louco e que não se dava uma notícia como aquela de maneira precipitada. Eu fiquei apavorado”.  

Xandão quando foi apresentado no Kuban Krasnodar
Site oficial
Xandão quando foi apresentado no Kuban Krasnodar

O episódio causou ainda mais receio à respeito da medicina esportiva na Rússia. “Aqui, infelizmente, acaba deixando um pouco a desejar. Está atrás do Brasil. No meu clube, nós não temos fisioterapeuta porque a cultura deles é assim, é o método que eles adotam. Lesões de estiramento e torções são tratadas na base da massagem. Aqui é bem precário em relação à recuperação. Ao longo desses dois anos, três companheiros sofreram lesões sérias e viajaram para a Alemanha e Espanha para poder curar esse tipo de problema. E o clube paga todo o tratamento”, contou.

“Ao contrário do que se pensa, a massagem também não é relaxante. Pelo contrário, é muito agressivo, dolorido, massacrante. Você não consegue relaxar, sai mais dolorido do que quando entrou. É claro que você consegue se recuperar, mas não é com a mesma efetividade da fisioterapia. Talvez, eles poderiam rever esses métodos para poder evoluir. Graças a Deus, nunca tive lesões graves”, completou.

Violência

O conflito entre Rússia e Ucrânia, que se arrasta desde novembro de 2013, ainda causa apreensão dos brasileiros que vivem em taís países. No caso de Xandão, isso não é diferente. Embora o clube faça de tudo para oferecer a segurança dos jogadores e os afastem das zonas de perigo, a preocupação - principalmente da família - é inevitável.

“Nós acompanhamos o clima aqui pela televisão, mesmo porque é o que passa o dia inteiro. São mostradas imagens de ataques nas fronteiras, mas isso não acaba atingindo nós jogadores. A minha cidade (Krasnodar) é próxima à fronteira russo-ucraniana (passagem pela região de Rostov e Kuban), região de conflito, então é claro que a gente fica com receio. Há uma base militar bem em frente ao cento de treinamento, então passam aviões sobrevoando e soldados saltando de paraquedas, mas não tem nos atingido”, disse.

Xandão ainda confessa que evita contar tudo que acontece na Rússia para os familiares. Ele prefere poupá-los a deixarem preocupados com o risco da guerra. “Sempre estamos em contato com os familiares, e as primeiras perguntas são sempre sobre isso. Mas eu tento não passar toda a situação para a família, porque o conflito acaba não sendo tão agressivo para nós jogadores. É claro que as imagens na TV os deixam preocupados, mas quando eu converso com meus pais tento explicar. Mas a tensão é grande”.

Copa de 2018

Acompanhando de perto os preparativos do país para sediar a Copa do Mundo de 2018, Xandão acredita que a organização da Rússia – em termos de planejamentos e prazos – será mais eficaz do que a do Brasil no ano passado. Ele, porém, admite que vai ser difícil o próximo Mundial repetir a mesma qualidade técnico do anterior.

“A Rússia está um passo adiante em termos de organização, estrutura. Ainda faltam três anos para começar o Mundial e eu tenho acompanho nos noticiários que dois estádios já estão prontos. E eles foram construíram do zero e estão prontos. Ainda faltam dez estádios para a Copa, mas eles estão em estado avanço de construção. Em organização, a Rússia já está dando um show no que o Brasil fez. Nós deixamos a desejar”, afirmou.

“Dentro de campo, o nível de competitividade e estádios sempre lotados do Mundial no Brasil vai ser difícil de ser batido”, acrescentou.

Futuro

Com contrato até o meio do ano de 2016, Xandão ainda tem tempo para planejar o futuro e deseja seguir o caminho na Europa. Aos 27 anos, ele ainda quer fazer o pé de meia antes de voltar para o Brasil.

“Eu penso em me manter na Europa por mais alguns anos e ir para os grandes centros como a Itália, Espanha e Portugal. Mas se for para eu continuar na Rússia, que é um país em que já estou adaptado ao frio por exemplo, eu toparia jogar em um grande clube de Moscou. Quero fazer meu pé de meia para depois retornar ao Brasil e desfrutar da família”, concluiu.

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