Comissão técnica do Barra Mansa não recebe salários desde novembro e pressiona diretoria por melhorias. Sem isotônico no estoque, fisiologista não descarta servir soro caseiro para hidratar jogadores após a partida desta quarta, no Maracanã

A derrota por 1 a 0 para o Volta Redonda, no último domingo, no Raulino de Oliveira, foi a situação menos desagradável que o Barra Mansa encarou em sua estreia na divisão de elite do Estadual do Rio de Janeiro. O clube enfrenta uma crise administrativa que afeta até o cardápio do time profissional. O lanche servido à noite para os jogadores na véspera da partida foi pão com mortadela e um copo de refrigerante, sem direito a repetição. Na pré-temporada, recheio foi artigo de luxo.

Jogadores do Barra Mansa rezam antes da estreia no Estadual do Rio, contra o Volta Redonda
Reprodução/Facebook
Jogadores do Barra Mansa rezam antes da estreia no Estadual do Rio, contra o Volta Redonda


"Quando você tira o atleta de casa a responsabilidade é do clube. Não tinha uma alimentação adequada para treinar em dois períodos. O almoço já era fraco, mas teve noite que era um pão de forma com uma fatia de presunto e teve gente que tinha pão com pão. É pão com êpa. O cara abre o pão e fala: "Êpa!". Aí o profissional vai no seu quarto e diz: "Professor, olha isso aqui...", contou ao iG Esporte o técnico Wilson Leite, fazendo piada para não se irritar ainda mais com a situação. 

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Wilson Leite, técnico do Barra Mansa
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Wilson Leite, técnico do Barra Mansa

A estreia no Estadual do Rio foi motivo de comemoração, mas nem todos usufruíram, segundo Leite. "Acabou o jogo no domingo e alguns jogadores foram avisados que a alimentação seria numa pizzaria, mas outros não foram avisados. Mostra o despreparo."  A falha de comunicação também justifica a política salarial do clube. "Nesta semana da estreia veja o que aconteceu: o Barra Mansa - a gente considera que as pessoas responsáveis não são capacitadas para isso - resolveu dar um adiantamento aos jogadores em relação a janeiro, sendo que toda a comissão técnica, do profissional e dos juniores, não recebe desde novembro. Deram adiantamento para determinados atletas e para outros, não. Salário relativo a janeiro você tem de pagar em fevereiro. Se você deve para algumas pessoas desde novembro, como vai pagar para outras adiantado? isso já criou um mal-estar porque um grupo de atletas não recebeu. Eu vim segurando a peteca porque tinha essa estreia, um jogo importante", ponderou  o técnico, campeão da Série B do Rio com o Barra Mansa em 2014.

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Na segunda-feira pela manhã, ninguém da diretoria apareceu na reapresentação do grupo. Não havia médico para avaliar os lesionados, nem gelo para fazer um tratamento prévio. Foi a gota d'água. Em vez de ir para o campo, todos foram até a sede do clube em busca de alguma satisfação. "Já que não vem aqui, nós fomos lá. Todos esses problemas nós narramos para o presidente (Almir Marques). Aí aproveitamos para falar dos outros problemas: pré-temporada, falta de alimentação adequada... O lanche da noite dos jogadores na véspera da estreia foi um copo de Coca-Cola e um pão com mortadela. No outro dia os jogadores vieram reclamar comigo. Não externamos isso no dia porque era estreia no Carioca e não queríamos tumulto. Disseram que a gente estava fazendo greve. Ninguém fez greve, a gente só queria conversar com alguém. Você não consegue fazer um grupo se empenhar com descaso, tratando alguns profissionais com ironia, e é esse pessoal que está dando a vida pelo Barra Mansa. A gente só queria uma resposta, mas não veio ninguém dar satisfação. Nem parabéns pela partida a gente ganha", desabafou Leite.

O início de temporada conturbada foi o motivo pelo qual o ex-jogador Athirson, com passagens por Flamengo  e Juventus-ITA , deixou o Barra Mansa antes do início do Campeonato Carioca. Ele ocupava o cargo de coordenador de futebol, mas se sentiu dresprestigiado após a diretoria contratar nove jogadores por conta própria, sem qualquer consulta à comissão técnica. Para Leite, a situação não é inédita. "Fui campeão com o Barra Mansa. Na Série B também era assim, mas pelo menos tinha transparência. Alguém falava que a situação era difícil e tinha de jogar assim mesmo. Agora o diretor e o gerente ficam arrotando camarão e não estão comendo nem carne moída." 

Esquecer por ora as dificuldades é a principal motivação do Barra Mansa para seu primeiro grande desafio na elite: enfrentar o Flamengo, nesta quarta-feira, às 22h (de Brasília), no Maracanã, pela segunda rodada do estadual. O clube conseguiu um alojamento no Rio para viajar na véspera do jogo, um luxo para os padrões atuais, mas se alguém precisar de uma hidratação com isotônico por conta de desgaste físico terá de se contentar com o improviso. "O fisiologista informou a ele (presidente) nessa reunião (de segunda-feira) que não tinha mais nada. O que usou no domingo não foi reposto. Não tem nada para atender os atletas. A única opção era fazer um soro caseiro e temperar com alguma coisa que dê gosto. Nós não usamos isso ainda, mas podemos usar, não vamos deixar o atleta sem. Os garotos aqui são sensacionais, bato palmas", disse o treinador.

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Fazer um bom papel no Maracanã diante de uma equipe de massa pode ser o chamariz que o Barra Mansa precisa para se reestruturar e atingir o principal objetivo de 2015: manter-se na primeira divisão estadual. Mas, segundo o técnico, era preciso protestar contra as condições de trabalho atuais. "Depois desse sacode que a gente deu os caras passaram vergonha, a prefeitura começou a criticar... Jogador de time pequeno não quer luxo, mas precisa ter o mínimo para trabalhar. Falamos isso agora pelo menos para a imprensa e a torcida saberem em que nível o Barra Mansa está se preparando para jogar com o Flamengo no Maracanã", finalizou Wilson Leite.

Outro lado

Almir Marques, presidente do Barra Mansa, não foi localizado para comentar o caso. Já Anderson Silva, diretor de futebol do clube, não atendeu à primeira ligação feita pela reportagem. Nas tentativas seguintes, as chamadas caíam na caixa postal.

Responsável pelo marketing do Barra Mansa, Cícero Augusto Silva confirmou que o clube passa por dificuldades. Captar patrocinadores é uma das funções dele. Há inclusive um anúncio no perfil do time no Facebook. "Precisamos de mais R$ 400 mil para se manter até o fim do estadual, para folha de pagamento, manutenção, viagens... Até o início do campeonato estava complicado, mas depois do jogo de domingo surgiram alguns interessados. Esse apoio é necessário para levar o clube com dignidade", disse.

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