Jogadores de elite no Brasil comprometem a carreira para jogar em um campeonato pouco badalado, mas com salários altos e contratos feitos especialmente para agradá-los

O Campeonato Brasileiro vale quatro vezes mais do que a principal competição na China, de acordo com o site Transfer Markt . Entretanto, são os chineses que levam a melhor no mercado, ao contrataerm alguns dos principais jogadores do Breasil. As vendas de Ricardo Goulart e Diego Tardelli são fruto do investimento milionário dos chineses, e o dinheiro convence os jogadores aceitarem atuar em um país onde o futebol ainda está engatinhando. A reportagem do iG Esporte conversou com profissionais que atuam por lá e constatou que não apenas o dinheiro, mas também algumas exigências especiais dos atletas permitidas no contratos tornam a China um destino atraente.

Diego Tardelli posou com a camisa do Shandong Luneng
Reprodução
Diego Tardelli posou com a camisa do Shandong Luneng

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Somente neste início de 2015, o futebol chinês desembolsou cerca de R$ 110 milhões para contratar três brasileiros: Ricardo Goulart, do Cruzeiro , Diego Tardelli, do Atlético-MG , e Alan, que estava no Red Bull Salzburg, da Áustria. Para ter o ex-jogador do Cruzeiro, o Guangzhou Evergrande gastou R$ 55,85 milhões.  O valor do negócio fez com que Goulart se tornasse o atleta mais valioso da Liga Chinesa mesmo sem sequer ter entrado em campo.

Há pouco mais de um ano, foi exatamente o que aconteceu com Vagner Love. Então no CSKA, da Rússia, o atacante foi vendido para o Shandong Luneng por R$ 21,46 milhões. E, por enquanto, não faz planos de retornar ao Brasil. “Escolhi ir para China porque o time tinha um plano de montar um grupo campeão para disputar a Champions League da Ásia, por ter uma estrutura excelente e pelo lado financeiro também. É um país que está economicamente muito bem, que dá condições de trabalho muito boas e tranquilidade e respaldo para continuar trabalhando”, afirmou o atacante em entrevista exclusiva ao iG .

Os salários também foram determinantes para Aloísio deixar o São Paulo em janeiro do ano passado. Vendido também para o Shandong por R$ 17,45 milhões, o atacante passou a receber o quádruplo do que recebia no Brasil. “Era uma proposta quatro vezes maior daquilo o que eu ganhava no São Paulo na época. O próprio São Paulo no primeiro momento me perguntou em junho se eu queria ir para China, e depois fiquei sabendo pela imprensa que já estava vendido e que era só eu acertar o meu salário. Eu não poderia deixar passar aquele momento”, revela o jogador, que tem propostas para voltar ao futebol brasileiro.

Ricardo Goulart acertou com o Guangzhou Evergrande, da China
Divulgação
Ricardo Goulart acertou com o Guangzhou Evergrande, da China

Outro fator preponderante para o sucesso dos chineses no mercado é que eles aceitam as condições impostas pelos jogadores, que tentam compensar a falta de visibilidade no país com exigências especiais no contrato. Foi assim com o argentino Montillo, que estava no Santos quando recebeu a oferta de R$ 26 milhões do Shandong Luneng e acabou convencido pelo técnico Cuca, com quem já havia trabalhado no Cruzeiro.  “Eu conhecia o Cuca muito bem. Ele me seduziu e eu gostei da ideia. Depois, no contrato, tinha muita coisa que eu coloquei para a minha família e a parte financeira me agradou. O futebol é um trabalho e você precisa aproveitar as oportunidades”, argumentou Montillo.

A pouca visibilidade do futebol chinês fez com que Tardelli, antes de aceitar a proposta, consultasse a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para saber se teria chances de retornar à seleção brasileira mesmo atuando fora da Europa e futebol brasileiro. Quem está por lá reconhece. “É bem complicado porque ficamos escondidos, a gente não pode negar isso. A China não é um mercado onde todo mundo está olhando, fica mais fechado para a Ásia, então financeiramente tem de pesar mais na decisão. Como os casos de (Ricardo) Goulart e (Diego) Tardelli, que são jogadores de seleção. Espero que eles possam fazer gols e voltar o mais rápido possível para a seleção”, disse Aloísio.

Para Vagner Love, a decisão à época foi um pouco mais fácil, por já não pensar mais em seleção. “É uma coisa que o atleta pensa com certeza, mas como eu já estava na Rússia, distante da seleção brasileira, não parei para pensar. Quando chegou a proposta, eu vi que era boa para mim e para o clube e resolvi me transferir para a China sem pensar na seleção brasileira”.

Apesar do desnível técnico do campeonato, os jogadores acreditam ele está melhorando aos poucos, sobretudo por causa da chegada dos gringos. “Os estrangeiros estão mostrando a eles como jogamos aqui na América (do Sul)”. Atualmente, a China possui 68 jogadores na liga principal, sendo 27 deles brasileiros – o equivalente a 40%.

Cuca, técnico do Shandong Luneng, foi responsável por indicar brasileiros ao clube
China Photos/Getty Images
Cuca, técnico do Shandong Luneng, foi responsável por indicar brasileiros ao clube

Futebol chinês amplia negócios no Brasil

Os investimentos dos chineses não se restringem às transações de atletas. Em abril do ano passado, o próprio Shandong Luneng comprou o Centro de Treinamento do Desportivo Brasil, localizado em Porto Feliz, no interior de São Paulo. O negócio com a Traffic, então proprietária da academia, foi intermediada pelo empresário Joseph Lee (leia mais sobre ele abaixo) e garantiu à empresa a utilização das instalações por tempo indeterminado.

Antes, em 2012, a parceria havia sido com o São Paulo.  Os clubes acordaram um intercâmbio envolvendo profissionais das categorias, entre eles o coordenador técnico Sérgio Baresi, e a estrutura de Cotia, o CFA Presidente Laudo Natel. Posteriormente, o clube do Morumbi ampliou o negócio e inaugurou uma escolinha licenciada na China, localizada na Ilha de Taipa.

O futebol tem despertado tanto a atenção na China que o ministério da educação do país determinou que o futebol fará parte, de forma obrigatória, do currículo escolar. Em até dois anos, serão cerca de 20 mil escolas equipadas para formar 100 mil novos jogadores.

Lee Yue Hung Joseph é empresario e conduz negócios entre Brasil e China
Divulgação
Lee Yue Hung Joseph é empresario e conduz negócios entre Brasil e China

Empresário intermedia negócios milionários

Naturalizado chinês, o indonésio Lee Yue Hung Joseph é responsável por realizar grandes negócios envolvendo clubes chineses e brasileiros. Além de intermediar a venda da academia da Traffic, ele participou das contratações de Guangzhou Evergrande e Shandong Luneng, entre elas de Montillo.

Discreto, Joseph Lee é agente Fifa e proprietário da Kirin Soccer, empresa cuja sede fica na Avenida Paulista, na região central de São Paulo. No próprio site é possível comprovar a atividade do empresário, que é dono de seis atletas da base do São Paulo e nomes conhecidos como o corintiano Petros e o meia Hernanes, hoje na Inter de Milão-ITA.

Joseph Lee ainda tem boa relação com Mário Celso Petraglia, presidente do Atlético-MG, e Juvenal Juvêncio, ex-presidente do São Paulo. Em 2000, o nome dele esteve na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do futebol no Senado, que investigava os contratos e vendas de jogadores do Brasil para o exterior.

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