Alexandre Mattos deixou o Cruzeiro, bicampeão brasileiro, para o encarar o desafio de ser o diretor de futebol do Palmeiras. Ele precisou de sete dias para fazer 14 contratações

Aos 38 anos, Alexandre Mattos chegou ao patamar que todos os executivos de futebol um dia esperam atingir. Ele foi responsável pela montagem do elenco do Cruzeiro  - time do coração - bicampeão brasileiro e se tornou alvo de cobiça de grandes clubes. Ousado, Mattos se desfez do estabelecimento do qual era proprietário em Belo Horizonte, mudou de profissão e realizou o sonho de trabalhar com futebol. O iG procurou amigos e profissionais que trabalharam com ele, e há unanimidade: Mattos é apaixonado pela profissão, não desiste até conseguir o que quer e mira um cargo na CBF.

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Alexandre Mattos chegou com prestígio ao Palmeiras
Reprodução
Alexandre Mattos chegou com prestígio ao Palmeiras

Agora, o que o dirigente ambiciona é fazer história no Palmeiras . Alexandre Mattos gosta de desafios, e foi por esse motivo que aceitou o convite do presidente Paulo Nobre para assumir o departamento de futebol do clube. A única exigência era ter autonomia para conduzir as negociações. E foi prontamente atendido.

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Formado em Educação Física pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Mattos era dono de uma academia de ginástica em Belo Horizonte quando resolveu deixar o negócio para aceitar o convite de Antônio Baltazar, então presidente do América-MG, e assumir em 2005 a função de assessor do então mandatário. E já no ano seguinte foi nomeado diretor de futebol do clube. Apesar do orçamento restrito, conseguiu com que o time conquistasse o acesso à primeira divisão no fim de 2010.

"Ele é muito exigente, com muita vontade de acertar", diz uma ex-funcionária que trabalhou com Mattos no América-MG. Ansioso para trabalhar em um clube da primeira divisão, resolveu sair. Foram pouco mais de seis anos no cargo, e uma agenda lotada de contatos e boa relação com empresários.

Mas o cargo de dirigente não caiu do céu para Alexandre Mattos. Ele se preparou para assumir tal responsabilidade. Após a primeira graduação, formou-se em Administração de Esportes e fez pós-graduação em Gestão de Esportes na FGV (Fundação Getúlio Vargas). Recusou até a proposta de um amigo para se tornar empresário de jogadores.

Desempregado, Mattos passou a ser assunto na reunião semanal do Cruzeiro que acontece sempre na sede do clube, na tradicional Confraria San Sebastian. É verdade que o nome dele não foi unanimidade entre os presentes, já que sócios e conselheiros questionavam a falta de rodagem, mas foi o escolhido pelo presidente Gilvan de Pinho Tavares para substituir Dimas Fonseca em março de 2012. Começava ali a realização de um sonho do menino que um dia frequentou a arquibancada como membro da Torcida Fanáti-Cruz, uma das organizadas da equipe celeste. O fanatismo acabou engolido pelo profissionalismo.

O início de trabalho no Cruzeiro coincidentemente se assemelha ao que tem feito agora no Palmeiras. Em ambas situações, Mattos assumiu a tarefa momentos depois de os times brigarem contra o rebaixamento para a Série B. Em Belo Horizonte, logo no primeiro ano, apresentou 11 jogadores (encerrou o ciclo com 40), formou a base em 2013 e, antes mesmo do que planejava, conquistou o título do Campeonato Brasileiro com destaques para as contratações de Egídio, Dedé, Ricardo Goulart e Everton Ribeiro. No ano passado, mais dez chegaram e ajudaram a levantar o bicampeonato consecutivo.

Com os resultados dentro de campo, Alexandre Mattos ganhou prestígio. Passou a ser ovacionado pelo jogadores nos vestiários, adorado pelos torcedores e mais requisitado que o próprio presidente do clube. A badalação chegou até a provocar ciúmes em Gilvan.

Alexandre Mattos recebe camisa em sua apresentação como diretor de futebol do Palmeiras
Leandro Martins/Futura Press
Alexandre Mattos recebe camisa em sua apresentação como diretor de futebol do Palmeiras

Lábia boa e sonho com a CBF

O novo palmeirense não costuma perder oportunidade de negócio. Sempre atento ao mercado e persistente nas conversas com agentes e atletas, ele não desiste fácil. Basta recordar a negociação que envolveu o zagueiro Dedé, que pertencia ao Vasco. À época, Mattos viajou para o Rio de Janeiro para convencer o defensor a jogar no Cruzeiro e ficaria um dia na cidade. A negociação, porém, se arrastou e ele precisou ficar sete dias lá até ouvir a afirmativa do jogador. Foi a contratação mais cara da história do Cruzeiro: R$ 14 milhões.

Segundo as pessoas ouvidas pela reportagem, a argumentação é o forte de Mattos. Para convencer um atleta, ele não se restringe ao valor do salário e propõe luvas e tempos de contrato maiores. O volante Tinga, ex-Internacional, é um desses exemplos, pois aceitou o negócio porque teve estabilidade garantida com quatro anos de vínculo.

É claro que Alexandre Mattos também erra. Apesar de ter levado jogadores pouco aproveitados para o Cruzeiro - como os casos de Vilson e Neílton -, ele consegue minimizar a margem de erro ao fazer o clube gerar receita em uma futura transação e recuperar o investimento. Foi assim com Ricardo Goulart, o meia-atacante que chegou sem custos e foi vendido esta semana para o clube chinês Guangzhou Evergrande por R$ 48 milhões.

O executivo também não esconde o desejo de chegar à CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Para construir o caminho até a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, entendeu que precisava trabalhar em clube grande do Rio de Janeiro ou São Paulo, pólos com maior visibilidade e atenção da mídia. Com o fim da parceria com o Cruzeiro em dezembro e a proposta do Palmeiras, a chance não foi desprezada.

Apelido incompreendido

Com tanta exposição e sucesso não demorou para que o dirigente ganhasse um apelido da torcida do Cruzeiro: Alexandre Mittos. A primeira vez que assim foi chamado na rua, não entendeu. Ligou para o melhor amigo e perguntou o motivo do trocadilho, e ouviu que ele era o novo mito do mercado da bola. Riu da brincadeira, e o apelido pegou entre os mais íntimos.

Outra história curiosa é que mesmo quando não está trabalhando Mattos está falando de futebol. Respira 24 horas por dia o esporte. "O passatempo para ele é o futebol. Ele me ligou nesta semana para dizer que havia contratado o Dudu. É o que ele gosta de fazer", confidenciou o amigo.

Episódio para esquecer

Em maio do ano passado, Mattos foi suspenso por 120 dias pelo STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) por causa de uma declaração machista e preconceituosa contra a assistente Fernanda Colombo Uliana. No clássico com o Atlético-MG, a bandeira marcou, aos 41 minutos do segundo tempo, impedimento de Alisson, que estava atrás do último homem do adversário. O erro provocou a revolta do diretor, que sugeriu que ela posasse para uma revista masculina.

"Aí, a gente pega essa bandeira, bonitinha, que estava ali no canto. Os caras gritam no ouvido dela e, como ela não tem preparo, levanta a bandeira, porque fica apavorada. Estão tentando promover ela porque ela é bonitinha, e não é por ai. Ela tem que ser boa de serviço, profissional e competente. O erro dela foi muito, muito, muito anormal, coisa de quem está começando uma carreira. Se é bonitinha, que vá posar para a Playboy, não trabalhar com futebol", disparou ele naquele episódio.

O cartola pediu desculpas a Fernanda pelas declarações e reconheceu o erro. "Eu fui um babaca. Falei num momento de cabeça quente e reconheço que exagerei na crítica".

A caminhada árdua e dura - maneira como classificou a missão no Palmeiras - já começou. Agora, é trabalhar pára tentar fazer os palmeirenses "sorrirem bastante", como ele mesmo disse.  Trabalho é o que não vai faltar.

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