Tradicional competição das categorias de base, Copa São Paulo tem nível técnico comprometido por número excessivo de participantes. Clubes sugerem como resolver o problema

"A Copa, em seus primeiros anos, era bem amadora, ainda com cheiro de terra molhada, a esperada oportunidade que a rapaziada agarrava com unhas e dentes para mostrar sua habilidade e entrar para o disputado mundo do futebol". Foi desta forma que há dez anos Fábio Lazzari, idealizador da Copa São Paulo de Futebol Júnior, descreveu a competição mais importante para as categorias de base em seu livro "Copa São Paulo e a vitrine do futebol brasileiro". Criado em 1969, o torneio com o tempo ganhou prestígio, que agora está em xeque devido ao número excessivo de participantes. O iG Esporte ouviu dirigentes dos principais clubes do Brasil e constatou que o torneio ainda é atrativo, embora mudanças sejam necessárias.

São Paulo estreou com goleada na Copa São Paulo de Futebol Júnior
Rubens Chiri/São Paulo
São Paulo estreou com goleada na Copa São Paulo de Futebol Júnior

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Neste ano, 104 clubes divididos em 26 grupos iniciaram a briga pelo título, e 32 se classificaram para a segunda fase. Apesar do inchaço ser um problema, a Copinha continua sendo prioridade nas categorias de base dos clubes, que colocam a visibilidade e o período da realização como pontos positivos e decisivos para aceitar o convite da FPF (Federação Paulista de Futebol).

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O Cruzeiro , campeão do torneio em 2007, faz elogios à organização, mas reconhece que o nível técnico fica comprometido no atual formato. "Atrativa ela (Copa São Paulo) não deixa de ser, pelo o que representa para a base no Brasil. O torneio ocorre quando não há calendário no futebol brasileiro, então todos os olhares estão voltados para a Copinha. A organização é muito boa, está em um Estado desenvolvido que tem campos em diversas cidades", afirmou Klauss Camara, diretor de base do clube mineiro, em entrevista ao iG .

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"O nível técnico é o ponto que tem grande relevância, mas que poderia ser elevado, poderia ser mais qualificado. Na primeira fase, há placares muito elásticos que não condizem com a realidade do futebol brasileiro. Exemplo do Internacional, que aplicou uma goleada na estreia e ficou fora da segunda fase", completou ele.

Tricampeão, o São Paulo  também faz críticas: "Há uma quantidade enorme de times que estão disputando e não deverim. Mas, mesmo assim, como todos os times grandes e que investem na base, ela ainda é interessante", explica Ataíde Gil Guerreiro, vice-presidente de futebol.

Flamengo enfrentará Taboão da Serra na segunda fase
Divulgação/Flamengo
Flamengo enfrentará Taboão da Serra na segunda fase

Além do desnível técnico, as regras do torneio são questionadas e alvo de constante discussões entre os clubes. O Palmeiras , que nunca foi campeão da Copinha, defende a mudança do formato e número maior de substituições. "Acho que são muitos clubes, poderia diminuir um pouco a quantidade para formar uma competição mais interessante na parte técnica. Além disso, o formato da fase de grupos é complicado, o ideal seria que dois clubes pudessem se classificar. Outra mudança positiva seria levar mais atletas ao banco de reservas e aumentar o número de substituições para cinco. Na formação, o interessante é dar oportunidade a todos os atletas, até pelo desgaste desta época do ano", opinou Erasmo Damiani, coordenador geral das categorias de base.

Ainda assim, Damiani também exalta as qualidades do torneio. "No entanto, a mídia olha muito esta competição, então é uma grande vitrine para os atletas. Ela também dá oportunidade aos clubes de observarem jogadores de outras equipes com mais facilidade, especialmente de outros estados mais distantes", acrescentou.

A facilidade para observar atletas argumentada pelo palmeirense é um dos pontos favoráveis apontados pelos clubes durante a Copa São Paulo. Durante a disputa, observadores-técnicos assistem a partidas de diferentes equipes no objetivo de captar jogadores com potencial. Em Osasco, por exemplo, a reportagem encontrou profissionais do Figueirense , Internacional  e Fluminense .

"O clube consegue buscar outros atletas e fazer uma captação legal, principalmente em clubes com pouco investimento. Esse atleta captado pode virar um ativo e receita para o clube. Ainda vejo aa Copa São Paulo uma competição bem atrativa", destacou Léo Inácio, coordenador técnico do time sub-20 do Flamengo. 

Para que a influência seja mantida, Klauss faz uma sugestão interessante. "É uma questão de formatação. Se a federação tiver o desejo de manter 104 equipes, elas poderiam ser separadas por níveis, Série A, B, C ou Ouro, Prata e Bronze, para selecionar e não misturar".

Especificamente nesta edição, os participantes acabaram prejudicados pela seleção brasileira sub-20, que se prepara no mesmo período para a disputa do Sul-Americano da categoria, no Uruguai. O Santos  foi um dos prejudicados com a convocação do volante Thiago Maia, e o entrave irritou o técnico Pepinho Macia. "O jogador foi tirado na semana da competição. É uma falta de planejamento", criticou ele à época. A Copa São Paulonão perdeu relevância, mas precisa mudar. O que não chega a ser novidade no bagunçado futebol brasileiro.

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