Foi em 10 de dezembro de 2013 que Portuguesa recebeu notícia que mudou seu destino: após escalar jogador irregular, clube cairia para Série B do Brasileirão. Passado um ano, time está na Série C e culpados não foram identificados

Foi na noite do dia 10 de dezembro de 2013 que dirigentes, comissão técnica e elenco da Portuguesa receberam a notícia: o clube, salvo do rebaixamento à Série B do Campeonato Brasileiro dentro de campo, corria risco de cair nos tribunais graças à escalação de um atleta irregular e, com isso, salvar o Fluminense. Não só a equipe do Canindé sofreu o duro golpe como acabou indo para a terceira divisão nacional após um ano esportivamente sofrível. Héverton, o pivô do caso, saiu dos holofotes. Acusações de compra da vaga da elite surgiram. Culpados não foram identificados. E, passados 365 dias, está tudo certo e nada resolvido.

Héverton, pivô do caso que acabou no rebaixamento da Portuguesa para a Série B do Campeonato Brasileiro em 2013
Mauro Horita/Agif/Gazeta Press
Héverton, pivô do caso que acabou no rebaixamento da Portuguesa para a Série B do Campeonato Brasileiro em 2013

O caso Héverton

Procurador-geral do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), Paulo Schimitt informou no dia 10 de dezembro do ano passado que iria denunciar a Portuguesa por um suposto erro na escalação do meia Héverton no duelo contra o Grêmio, válido pela 38ª rodada do Brasileirão 2013. Se fosse punido, o clube perderia quatro pontos (um pelo empate e três pela punição) e cairia da 12ª para a 17ª posição na tabela, sendo assim rebaixada.

Héverton foi expulso no jogo contra o Bahia e cumpriu suspensão automática diante da Ponte Preta. Só que o jogador foi novamente julgado no dia 6 de dezembro, a sexta-feira anterior à última rodada do campeonato, e foi suspenso por mais uma partida. E aí que entra a confusão: seria esta já no domingo, com o Grêmio, ou uma outra, já que a sentença só foi publicada no site da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) no dia 9, segunda-feira posterior ao jogo?

Inicialmente, a Portuguesa alegou não saber da punição de seu atleta. A culpa foi jogada no colo do advogado Osvaldo Sestário, que representou o time no julgamento do dia 6. No STJD, o Pleno decidiu no dia 27 de dezembro: a equipe estava rebaixada . O Fluminense, que entrou no caso como parte interessada, permanecia na Série A.

Promotor de Justiça Roberto Senise Lisboa investiga suposta venda de vaga da Portuguesa
Divulgação/FMU
Promotor de Justiça Roberto Senise Lisboa investiga suposta venda de vaga da Portuguesa

Ministério Público entra em cena

O rebaixamento da Lusa nos tribunais fez o promotor de Justiça do Consumidor Roberto Senise Lisboa entrar em cena. Após tentar, sem sucesso, usar o Estatuto do Torcedor para tentar mudar a decisão da CBF, o advogado instaurou um inquérito civil para investigar a irregularidade cometida pelo time do Canindé. Mas a solução não parece estar perto.

Senise Lisboa afirma ter evidências que cinco pessoas da ex-diretoria da Portuguesa  sabiam que Héverton não tinha condições de jogo. Ele aponta o ex-presidente Manuel da Lupa, o advogado Valdir Rocha e o ex-vice-presidente de futebol Roberto dos Santos, além de outros dois funcionários que não tiveram nomes revelados, como os possíveis responsáveis por omitir a informação da comissão técnica e, assim, causar o rebaixamento.

“Por enquanto a investigação gira em torno desses nomes”, limita-se a dizer Lisboa.

Com pior público da Série B, Portuguesa fez péssima campanha e caiu para terceira divisão
Djalma Vassão/Gazeta Press
Com pior público da Série B, Portuguesa fez péssima campanha e caiu para terceira divisão

Da elite à Série C em 365 dias

Os problemas financeiros da Portuguesa, que vinham desde a gestão Da Lupa, se agravaram. A queda da cota de direitos a ser recebida em 2014 pelas transmissões de TV caiu de R$ 20 milhões para R$ 3 milhões. Mensalmente, o clube fecha cerca de R$ 500 mil no vermelho.

Preocupada com as ações extracampo para se manter na Série A, a Portuguesa não se planejou para a temporada 2014. O resultado foi que entre 50 e 60 jogadores contratados e cinco técnicos passaram pelo comando da equipe.

A trajetória na segunda divisão, que começou com um vergonhoso abandono de campo por ordem judicial – na época ainda corria na Justiça o sonho de permanecer na elite –, acabou em um inédito rebaixamento para a Série C.

Ilídio Lico, atual presidente da Portuguesa, acredita na participação de Manuel Da Lupa, ex-mandatário
Wagner Meier/Agif/Gazeta Press
Ilídio Lico, atual presidente da Portuguesa, acredita na participação de Manuel Da Lupa, ex-mandatário

Para Lusa, vaga foi vendida

Ilídio Lico, atual presidente da Lusa, passou 2014 lamentando a queda para a Série B nos tribunais. Dentro do clube, é certo o pensamento de que a vaga na primeira divisão foi vendida  por Da Lupa. Uma auditoria interna vem tentando provar isso e excluir o ex-mandatário do quadro de sócios, mas isso não pode ser feito sem que ele apareça para se defender.

“Foi coisa premeditada. E agora estamos tentando eliminar o Manuel da Lupa”, falou Lico em novembro.

“Tem uma auditoria feita internamente no Conselho Deliberativo que até agora não conseguimos finalizar porque o antigo gestor (Da Lupa) não aparece no clube para se defender. E é uma das premissas que ele tem que se defender para falar o que aconteceu. E cada reunião que é convocado ele inventa uma desculpa. Isso para a gente é fato consumado. Foi manipulado dentro do próprio Canindé. Infelizmente, a Portuguesa vendeu a vaga da Série A e agora só precisa saber quem são os responsáveis. Não é possível você ter uma comida de bola como essa, um atleta que sabiam que estava suspenso”, disse Marcelo Cabral, presidente da torcida organizada Leões da Fabulosa.

Peter Siemsen, presidente do Fluminense, jura inocência do clube carioca
Divulgação
Peter Siemsen, presidente do Fluminense, jura inocência do clube carioca

Se foi vendida, quem comprou?

Essa é outra grande pergunta a ser respondida. Tendo os suspeitos, a procuradoria do Ministério Público de São Paulo procura agora coletar provas para descobrir quem comprou o rebaixamento da Lusa.

Muito se fala sobre o Fluminense, time que acabou beneficiado diretamente pela queda da Portuguesa – se não fosse a equipe paulista, seriam os cariocas os rebaixados em 2013. A própria participação no julgamento que selou a queda lusa abre espaço para teorias.

“Para o Fluminense seria maravilhoso que se apurasse, em definitivo, qualquer tipo de investigação, pois ajudaria muito a esclarecer o caso. Acabaria de uma vez por todas com a situação criada, pois um dos maiores prejudicados foi o Fluminense. Se o primeiro, em termos de imagem foi a Portuguesa, o segundo mais prejudicado, sem dúvida, foi o Flu. Fomos atacados injustamente, em redes sociais e por alguns poucos jornalistas que faltaram com a verdade e criaram uma suspeição totalmente inadmissível”, afirmou o presidente Peter Siemsen à Rádio CBN.

O Flamengo também poderia ter algum benefício com a queda da Lusa, pois, também punida pela escalação irregular de André Santos, cairia se os paulistas não tivessem perdido seus pontos.

“Se quiserem falar com qualquer pessoa do Flamengo e colher qualquer tipo de informação, estamos á disposição. Acho que isso deve ser esclarecido até para parar com essa suspeita irresponsável sobre o Flamengo”, disse o presidente Eduardo Bandeira de Mello à ESPN Brasil.

Heverton ajudou o Paysandu a subir para Série B do Campeonato Brasileiro
Diário Online/Reprodução
Heverton ajudou o Paysandu a subir para Série B do Campeonato Brasileiro

E Héverton, por onde anda?

De jogador mediano a pivô de um dos maiores escândalos do futebol brasileiro. Tão logo explodiu o caso que culminou no rebaixamento da Portuguesa, Héverton só queria sair dos holofotes. Chegou a anunciar a aposentadoria, mas voltou atrás. Encontrou a paz no Paysandu, que disputou a Série C em 2014.

“Obrigado por tudo. Nunca irei esquecer tudo o que passei aqui esse ano. Ótima noite”, escreveu o meia em rede social no mês passado.

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