Africano que lutou contra o apartheid diz que se Putin não for mais duro contra o racismo, torneio russo pode ser esvaziado

O consultor da força-tareda da Fifa contra o racismo, o sul-africano Tokyo Sexwale, diz ser possível que jogadores negros boicotem a Copa do Mundo de 2018. Nesta terça-feira, em Doha, no Catar, Sexwale pediu ao presidente russo Vladimir Putin para tomar medidas mais duras contra o racismo no futebol.

Tokyo Sexwale, consultor da Fifa em força-tarefa contra o racismo
Shaun Botterill/Getty Images
Tokyo Sexwale, consultor da Fifa em força-tarefa contra o racismo

"Há uma ameaça de que jogadores negros digam não para a Copa na Rússia e se neguem a disputar a Copa do Mundo. E isso não pode ser assim", disse Sexwale em Doha. "Eu estou falando como uma pessoa da Fifa e um cidadão do mundo e acho que eles não podem ir tão longe. Mas uma vez que essas coisas começam e você não age como líder, essas coisas viram uma bola de neve", completou Sexwale.

Sexwale foi um importante ativista anti-apartheid na África do Sul e ex-preso político em Robben Island (onde Nelson Mandela também esteve preso). Ele diz ser contra um boicote, mas expressou preocupação com o crescente número de incidentes racistas no Campeonato Russo.

Apesar de a Uefa ter punido clubes russos após casos de racismo na Liga dos Campeões nos últimos anos, a federação russa tem sido menos disposta a enfrentar o preconceito racial.

Sexwale fez um apelo a seu "amigo pessoal" Putin. "Mostre sua liderança, seja o Putin que o mundo conhece, seja duro", disse Sexwale, que também é ex-ministro do governo sul-africano.

"Seria um fracasso não tomar uma atitude contra o racismo. Poderíamos estar falando algo diferente sobre a Copa do Mundo de 2018, mas sem agir você vai ter pessoas dizendo que não vão para a Rússia", completou Sexwale.

CSKA teve de jogar sem torcida na Liga dos Campeões por conta de racismo de alguns torcedores
Ivan Sekretarev/AP
CSKA teve de jogar sem torcida na Liga dos Campeões por conta de racismo de alguns torcedores

Protesto
A principal crítica feita à federação russa é em relação à não punição ao treinador do Rostov, Igor Gamula, que disse na semana passada que não iria contratar um defensor de Camarões "porque o clube já tem muitos jogadores de pele escura".

Gamula pediu desculpas, mas só depois da ameaça de Siyanda Xulu, zagueiro sul-africano da equipe. Ele e outros quatro jogadores africanos da equipe ameaçaram não treinar na segunda-feira se o técnico não se pronunciasse.

Sexwale reitera que um pedido de desculpas não é suficiente e dá como exemplo a forma como a NBA obrigou o empresário Donald Sterling a vender o Los Angeles Clippers e depois o baniu da liga por conta de comentários racistas.

"A Federação Russa precisa ser mais séria na luta contra o racismo. A África do Sul foi banida da Fifa durante o apartheid", disse Sexwale, considerando ser possível que a Rússia passe pela mesma sanção. "Há certas partes em Moscou em que se você é da minha cor não é seguro andar. As pessoas estão com medo de ir para Moscou", disse Sexwale.

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