Ex-presidente Manoel da Lupa afundou clube em débitos trabalhistas e é investigado por participação no caso Héverton. Ilídio Lico só lamentou situação financeira e não planejou time

Portuguesa foi rebaixada para a Série C do Brasileiro com cinco rodadas de antecedência
SERGIO BARZAGHI / Gazeta Press
Portuguesa foi rebaixada para a Série C do Brasileiro com cinco rodadas de antecedência

O dia 28 de outubro de 2014 dificilmente será esquecido pelos torcedores da Portuguesa . Nesta data, pouco antes das 21h30, o time do Canindé escreveu a mais triste página de sua história: derrotado por 3 a 0 pelo Oeste , foi rebaixado para a Série C do Campeonato Brasileiro .

Este capítulo era inevitável depois de tantos anos de más gestões. Ao longo da última década, a Lusa se afundou em milionárias dívidas trabalhistas e foi administrada com amadorismo. Nada, no entanto, parece ser pior do que uma suposta traição mortal: a venda da vaga na Série A.

O antigo presidente Manoel da Lupa, que dirigiu o clube por nove anos, entre 2005 e 2013, é hoje investigado pelo Ministério Público de São Paulo por conta de empréstimos que fazia em seu nome junto ao Banco Banif, antigo patrocinador, e por uma possível participação no caso Héverton, que culminou no rebaixamento à Série B na temporada passada. Ilídio Lico, homem forte desde janeiro de 2014, chora ter “ido dormir milionário e acordado pobre”. E, se dizendo vítima, esqueceu uma obrigação básica: planejar a equipe.

Dívidas trabalhistas e conta no vermelho

A Portuguesa tem uma dívida trabalhista que gira em torno de R$ 36 milhões – débitos gerais estão na casa dos R$ 100 milhões. Este é o valor aproximado do acordo que foi feito com Gislaine Nunes, advogada que representa os diretos de atletas, em 2008, por Manoel da Lupa. A quantia se refere a compromissos que não foram honrados pelo clube, como salários, direitos de imagens e multas rescisórias de jogadores que defenderam o time há mais de dez anos.

A equipe do Canindé pagou cerca de um terço da dívida enquanto Da Lupa ainda era presidente. O valor diminuía mês a mês, ainda que com atraso às vezes. Assim que Ilídio Lico assumiu, a fonte secou. Jorge Miguel, advogado do escritório de Gislaine, não quis especificar valores, mas revelou que só de multa por violar o acerto nos últimos dez meses a quantia devida pela Lusa voltou à original.

“A Portuguesa nadou, nadou e morreu na praia”, disse o advogado para o iG Esporte .

Portuguesa x Icasa pela Série B foi visto por 453 pessoas e teve prejuízo de R$ 28.568,45
Djalma Vassão/Gazeta Press
Portuguesa x Icasa pela Série B foi visto por 453 pessoas e teve prejuízo de R$ 28.568,45

Some a este problema a folha salarial do elenco profissional, estimada em R$ 500 mil, e o fato de que os 16 jogos no Canindé pela Série B não deram lucro até aqui. Com a pior média de público da competição, 1.116 torcedores por partida, o prejuízo acumulado é de R$ 270.363,15. Mensalmente, o clube fecha cerca de R$ 500 mil no vermelho.

“Do jeito que está, não dá. Tive de pagar as contas de água e funcionários com meu dinheiro. Não temos caixa para bancar o futebol. A folha salarial está atrasada há três meses. E jogador que não recebe não joga direito”, afirmou Lico em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo .

Para tentar diminuir os problemas, o plano é demolir o Canindé e construir um estádio menor no lugar. O restante da área do clube seria cedida a um parceiro para transformar o local em um espaço lucrativo.

Amadorismo e falta de planejamento

A situação financeira da Portuguesa é extremamente delicada, e o clube, mesmo se tivesse permanecido na Série A, teria dificuldades. Fato. A queda da cota de direitos a ser recebida em 2014 pelas transmissões de TV caiu de R$ 20 milhões para R$ 3 milhões. Mas Ilídio Lico se prendeu demais a este problema e esqueceu que tinha um time para montar.

Rebaixada pelo STJD graças à escalação irregular do meia Héverton na última rodada do Brasileirão do ano passado, a Portuguesa brigou até onde pôde para se manter na elite. O caso chegou até a Justiça comum. Mas divergências internas na própria diretoria impediram que o clube se focasse. A dúvida: lutar contra a CBF ou aceitar a queda e planejar? Lico sempre admitiu o medo de represálias.

Ilídio Lico se prendeu muito à briga contra a CBF por lugar na Série A e esqueceu de planejar time
Wagner Meier/Agif/Gazeta Press
Ilídio Lico se prendeu muito à briga contra a CBF por lugar na Série A e esqueceu de planejar time

A Lusa jogou o Paulistão deste ano sem saber em que divisão estaria no Brasileiro. A equipe do ano passado foi desmanchada – algo constante no clube após cada temporada. A reposição não foi feita à altura.

Mas há problemas mais graves aí: até a data de início da Série B, ainda não havia consenso sobre a briga pela vaga na elite. Na primeira rodada, em Joinville, o time teve de deixar o campo graças a uma liminar obtida por um torcedor – fato que só contribuiu para manchar a imagem.

“Não era nem para ter ido a Joinville. Se foi, joga até o final e depois continua a briga na volta para São Paulo”, falou Antônio Quintal, comentarista da Web Rádio Lusa .

Mais: foram contratados entre 50 e 60 jogadores neste ano. Cinco treinadores já passaram pelo comando do clube. E nada menos que três vice-presidentes de futebol, o cargo máximo na administração da equipe profissional – nomeados por Lico somente mediantes promessas, nem sempre cumpridas, de injetarem dinheiro. Um deles, Fernando Gomes, admitiu não conhecer os atletas que trouxe durante apresentação à imprensa.

“O problema, na minha visão, é que teve a primeira diretoria, que contratou uma primeira leva de jogadores sem estudar suas posições e rendimentos. Depois, a equipe teve uma caída e o técnico da época (Guto Ferreira), que inclusive é o técnico da Ponte Preta, foi mandado embora. Isso aconteceu com todos os outros e não mudou nada. Você acha que o problema são os treinadores?”, disse Vagner Benazzi, que dirigiu a Portuguesa em oito partidas na Série B, após sua demissão.

Com um elenco inchado e de baixa qualidade, faltava dinheiro até para enxugar e se livrar dos jogadores que não estavam sendo aproveitados.

Vagner Benazzi foi apenas um dos cinco técnicos da Lusa em 2014. E durou só oito jogos
Carlos Ferreira/Site oficial da Portuguesa
Vagner Benazzi foi apenas um dos cinco técnicos da Lusa em 2014. E durou só oito jogos

Acusação de traição e torcedor distante

A história da Portuguesa em 2014 seria totalmente diferente se, no dia 8 de dezembro de 2013, o meia Héverton não tivesse ido ao estádio do Canindé. Ele não estaria na súmula da partida contra o Grêmio, não entraria em campo aos 32 minutos do segundo tempo e o clube não teria sido rebaixado para a Série B.

O atleta foi julgado pelo STJD na sexta-feira, dia 6, e deveria cumprir uma partida de suspensão por sua expulsão diante do Bahia. A Lusa inicialmente alegou não ter ciência da punição, que não teria sido comunicada pelo advogado Osvaldo Sestário. Depois, como não havia sido publicada no site da CBF, que ela seria válida somente a partir de segunda-feira, primeiro dia útil após a decisão. Para o Tribunal, a sentença era imediata. A equipe perdeu quatro pontos e estava, portanto, rebaixada à Série B.

O assunto virou pauta para o Ministério Público de São Paulo. De início, o promotor de Justiça do Consumir Roberto Senise Lisboa tentou reverter a decisão do STJD, pois esta feriria o Estatuto do Torcedor. Em seguida, passou a investigar criminalmente Manoel da Lupa: ele estaria envolvido em uma possível “venda” da queda para a segunda divisão em troca de propina. O caso está em andamento.

Manoel da Lupa é investigado pelo MP por suposto envolvimento no caso Héverton
Gazeta Press
Manoel da Lupa é investigado pelo MP por suposto envolvimento no caso Héverton

“Ficou, pela dúvida, duas alternativas básicas: um dolo, alguém propositalmente deixou que a coisa caminhasse pelo lado errado; e outra que o pessoal poderia ter se acomodado com a vitória sobre a Ponte (na penúltima rodada), que praticamente deixava o clube com a vaga na Série A, e aí por desatenção, um ‘cochilo’ generalizado de todo o departamento de futebol profissional e do corpo jurídico, acabou sendo uma falha grotesca e um erro do tamanho do Canindé”, explicou Quintal.

Nos arredores do Canindé, porém, é forte a crença em uma traição. E o responsável seria justamente o ex-presidente Da Lupa.

“Tem uma auditoria feita internamente no Conselho Deliberativo que até agora não conseguimos finalizar porque o antigo gestor (Da Lupa) não aparece no clube para se defender. E é uma das premissas que ele tem que se defender para falar o que aconteceu. E cada reunião que é convocado ele inventa uma desculpa. Isso para a gente é fato consumado. Foi manipulado dentro do próprio Canindé. Infelizmente, a Portuguesa vendeu a vaga da Série A e agora só precisa saber quem são os responsáveis. Não é possível você ter uma comida de bola como essa, um atleta que sabiam que estava suspenso”, disse Marcelo Cabral, presidente da torcida organizada Leões da Fabulosa.

Essa suposta venda de vaga fez com que a torcida do clube se afastasse, contribuindo para a Lusa registrasse a pior média de público entre os 20 times que disputam a Série B.

“Muitos amigos e torcedores que vivenciavam a arquibancada conosco abandonaram e se sentiram totalmente prejudicados com a venda, ou a possível venda, de uma vaga na Série A para a Série B. Isso afastou muito o torcedor da arquibancada. Muitos falaram: ‘pô, não vou mais. Infelizmente, homens da Portuguesa, que se diziam apaixonados pelo clube, venderam a vaga para pagar algumas dívidas pessoais’”, falou Cabral.

Além da possível participação no caso Héverton, o Ministério Público está investigando os empréstimos que Da Lupa fazia em seu nome junto ao Banco Banif. Como a Portuguesa vivia dificuldades financeiras e não tinha crédito, o ex-presidente fazia acordos pessoais para depois repassar ao clube.

Procurados pelo iG Esporte para comentar as acusações, tanto Ilídio Lico como Manoel da Lupa não atenderam as ligações.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.