Antes negligenciados, exames cardíacos passaram a ser levados a sério depois que zagueiro do São Caetano perdeu a vida ao sofrer parada cardiorrespiratória durante partida

Massagista e médico do São Caetano tentam reanimar Serginho
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Massagista e médico do São Caetano tentam reanimar Serginho

A trágica morte de Serginho, zagueiro do São Caetano, em uma partida contra o São Paulo mudou para sempre os rumos da medicina esportiva. Antes negligenciados, exames cardíacos passaram a ser levados a sério. Exigências foram feitas pela Fifa para permitir a participação de atletas em competições oficiais. E a palavra desfibrilador entrou no vocabulário do futebol. Segundo especialistas, porém, nada disso salvaria a vida do defensor.

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“É difícil. Pela doença, poderia ter sido recuperado, mas não iria sobreviver. A doença dele estava em um estágio muito avançado. E a gente até estranha que ele conseguia jogar”, afirmou Nabil Ghorayeb, presidente do Departamento de Ergometria e Cardiologia do Esporte da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

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Serginho sofria de miocardiopatia hipertrófica assimétrica, doença na qual há um aumento do músculo cardíaco. Ela dificulta a saída de sangue do coração, forçando-o a trabalhar mais. De acordo com Ricardo Stein, cardiologista do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, esta condição atinge uma a cada 500 pessoas.

“Ela é mais frequente do que se pensa. Só que nem todo mundo a desenvolve em uma magnitude que vai gerar morte súbita”, explicou o médico.

O zagueiro foi vítima de uma parada cardiorrespiratória às 21h49 do dia 27 de outubro de 2004. Morreu 56 minutos mais tarde. Presidente do São Caetano na época, Nairo Ferreira de Souza reconhece que passou a dar maior importância para os exames cardíacos depois da fatalidade.

“Mudou muito a norma no futebol. Hoje é obrigado a se ter um desfibrilador, seja em um treino ou jogo. Uma regra que foi implantada no futebol e que não existia. Antes da morte do Sérgio só se fazia exames clínicos, como sangue, urina e fezes. Pouco importava o exame de coração. Hoje os clubes adotam isso com rigor”, disse Souza.

José Sanchez, médico do São Paulo, auxiliou no socorro a Serginho
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José Sanchez, médico do São Paulo, auxiliou no socorro a Serginho

Médico do São Paulo há 29 anos, José Sanchez participou do atendimento a Serginho ainda no gramado do estádio do Morumbi. Ele rebateu o dirigente da equipe do ABC sobre a falta de exames, mas admitiu que houvesse certo descuido.

“Exames já existiam. Desde que eu trabalho no futebol, sempre me preocupei e fiz avaliações. A gente sempre soube dos exames que teriam que ser realizados, porém o que acontecia era que você via que o pessoal negligenciava um pouco isso, não dava a devida importância para essa avaliação. Talvez subestimando pelo fato de se tratar de atletas jovens. Hoje uma avaliação pré-participação é uma exigência da Fifa. E que nos estádio haja um mínimo espaço para emergências”, falou Sanchez.

O caso de Serginho foi o terceiro de notoriedade no futebol mundial de alto nível. Antes dele, o camaronês Marc Vivien Foe morreu em junho de 2003, durante partida da Copa das Confederações. Ele sofreu um infarto fulminante. Já o húngaro Miklós Fehér perdeu a vida em janeiro de 2004, em jogo do Campeonato Português. Ele tinha a mesma doença do zagueiro do São Caetano.

Desfibrilador cai na boca do povo

Uma das consequências diretas da morte de Serginho foi a apresentação do desfibrilador ao público do futebol. Foi somente com a fatalidade com o atleta que o aparelho passou a ser exigido por lei nos estádios brasileiros.No fatídico dia, Serginho recebeu choques de um desfibrilador que estava na ambulância. Posteriormente, o atleta recebeu novos choques do equipamento dentro do hospital São Luiz, onde foi atendido naquela noite, mas não resistiu às tentativas de ressuscitação. 

Exames cardiológicos em atletas ganharam mais importância após morte de Serginho
Divulgação/slbenfica.pt
Exames cardiológicos em atletas ganharam mais importância após morte de Serginho

“No dia em que morreu o Serginho, eu peguei um desfibrilador e fui em todos os canais de TV mostrando o que era. Nós aprendemos que ele é importante, que pode salvar vidas. 90% das paradas cardíacas que acontecem no esporte têm como causa uma condição chamada fibrilação ventricular, que é uma arritmia grave do coração, sinônimo de parada cardíaca. Se não for recuperada com o desfibrilador, o indivíduo morre, mesmo”, afirmou Ghorayeb.

“Em eventos grandes e importantes você tinha o desfibrilador na ambulância. Mas não era, por lei, exigido. No estádio do Morumbi você tem hoje 20 desfibriladores para o público, além dos desfibriladores que a gente carrega e além dos que estão na ambulância”, falou Sanchez.

Os clubes também aprenderam a importância de investir na saúde. “Mudou o reconhecimento dos dirigentes. Compram jogadores por milhões e não querem comprar um equipamento? Quando um avião cai, se aprimora o estudo de uma aeronave. Muita coisa foi aprimorada e responsabilidades foram chamadas. Hoje os dirigentes não negam pedidos de exames. Essa compreensão foi muito importante”, analisou Marco Aurélio Cunha, também médico do São Paulo na época da morte de Serginho.

Mas uma coisa é certa: a medicina pode evoluir o quanto for e todas as medidas preventivas podem ser tomadas. Mesmo assim, nunca será zerado o risco de um atleta ou qualquer pessoa sofrer morte súbita.

“Ninguém é invencível”, resumiu Ghorayeb.

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