Após dez anos, contradições e silêncio marcam morte de Serginho

Por Mauricio Nadal e Pedro Taveira - iG São Paulo | - Atualizada às

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Jogador do São Caetano, morto no dia 27 de outubro de 2004, sabia que não podia jogar futebol? Com esquivas de médicos do clube e do Incor, dúvida permanece

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Serginho sofreu parada cardiorrespiratória e morreu no dia 27 de outubro de 2004

“Serginho não era herói e não é mártir. Ele é vítima. Vítima de uma doença grave que não foi valorizada provavelmente por quem deveria”. A forte declaração é de Nabil Ghorayeb, presidente do Departamento de Ergometria e Cardiologia do Esporte da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Passados dez anos da morte do zagueiro do São Caetano, ainda faltam respostas e sobram contradições e silêncio por parte dos principais envolvidos.

Paulo Sérgio Oliveira da Silva morreu no dia 27 de outubro de 2004, após uma parada cardiorrespiratória durante partida contra o São Paulo, no Morumbi. Ele tinha 30 anos e sofria de miocardiopatia hipertrófica assimétrica, uma doença que provoca a dilatação do coração.

Leia: Dez anos depois, personagens-chave recontam morte de Serginho minuto a minuto

É recomendado a todo paciente nesta condição que se afaste de atividades esportivas, segundo Ghorayeb. O que não se sabe até hoje, porém, é se Serginho tinha consciência da gravidade de seu problema. E, além disso, se o São Caetano foi devidamente alertado pelo Incor (Instituto do Coração) sobre os riscos que o atleta corria.

Serginho sabia do risco de morte?

Serginho sabia dos riscos que corria por continuar jogando futebol? Não, pelo que ex-companheiros de São Caetano afirmaram. Sim, de acordo prontuário médico do atleta no Incor, assinado pelo doutor Edimar Alcides Bocchi. Para as duas versões, uma coisa é certa: ele assumiu a responsabilidade de seguir a carreira.

“Ele (Serginho) brincou que o coração dele era de atleta, que iria fazer acompanhamento com os médicos do Incor. O médico pediu até para ele evitar café e Coca-Cola por causa da cafeína. Ele disse para mim que não iria parar de jogar porque tinha um filho para criar e sustentar. Disse que não iria parar por uma alteração insignificante”, contou Itamar Rosa, massagista do clube do ABC na época e amigo próximo do zagueiro.

Massagista Itamar Rosa e médico Paulo Forte tentam reanimar Serginho após parada cardiorrespiratória. Foto: Gazeta PressDesespero e tentativas de reanimar Serginho se contrastaram no Morumbi. Foto: Gazeta PressTentativas de ressuscitar Serginho continuaram no carrinho da maca, a caminho da ambulância. Foto: Gazeta PressLateral Anderson Lima caiu no choro e foi consolado por Emerson Leão, então técnico do São Paulo. Foto: Gazeta PressAtacante Euller fez orações pela vida do companheiro. Foto: Gazeta PressJogadores de São Paulo e São Caetano e trio de arbitragem fizeram corrente por Serginho e jogo foi suspenso. Foto: Gazeta PressPartida foi retomada uma semana depois. São Paulo venceu por 4 a 2. Foto: Gazeta PressSerginho participava normalmente da partida. Neste lance, tenta desarmar Grafite. Foto: Gazeta PressSerginho desabou em campo perto dos 14 minutos do segundo tempo. Sílvio Luiz foi primeiro a notar gravidade. Foto: Gazeta PressSerginho desabou em campo perto dos 14 minutos do segundo tempo. Sílvio Luiz foi primeiro a notar gravidade. Foto: Gazeta PressSerginho desabou em campo perto dos 14 minutos do segundo tempo. Sílvio Luiz foi primeiro a notar gravidade. Foto: Gazeta Press

A versão do presidente do São Caetano, Nairo Ferreira de Souza, segue linha similar: “Desde 1999, o São Caetano fazia esses exames de praxe. Em 2004, ele (Serginho) fez. Todos fizeram no Incor, acompanhados do doutor Paulo Forte. O Serginho teve uma arritmia. Foi alertado na época nos exames, dito pelo cardiologista. Teve essa arritmia, mas nada que impedisse de fazer esforço físico e jogar futebol. Nunca foi falado ao departamento médico do São Caetano que ele estava proibido de fazer qualquer tipo de atividade. Essa arritmia era acompanhada pelo Incor na época”, justificou.

Por outro lado, Bocchi teria feito o diagnóstico de miocardiopatia e alertado cinco vezes que Serginho corria risco de morte. Chegou até a desejar “boa sorte” ao zagueiro. No primeiro prontuário, de 11 de fevereiro de 2004, o cardiologista havia registrado o “risco de morte súbita” e que foi “recomendado ao jogador e ao médico do São Caetano para que ele não pratique esporte”.

Reprodução/FMUSP
Cardiologista Edimar Bocchi: prontuário e informações à polícia tiveram contradições

No úlltimo, exatamente seis meses depois, escreveu que o "paciente não fez acompanhamento no Incor, está sob acompanhamento do doutor Paulo Forte. Jogador não comparece para acompanhamento, portanto não é nosso paciente. Continua em atividade esportiva. Que tenha sorte, porque o risco de morte existe”.

Contradições em prontuário do Incor

Depois de assinar o prontuário em que desejava sorte a Serginho, Bocchi se contradisse. Por meio de nota oficial assinada em conjunto com Paulo Forte e com autorização da família do zagueiro, o cardiologista afirmou que “o Incor nunca forneceu nada para ninguém, nem um relatório, por causa do sigilo médico” e que o atleta “não tinha hipertrofia. O que ele tinha em fevereiro não tem relação com a doença do dia do óbito”.

Em entrevista à Folha de S. Paulo em 2004, Helaine Cunha criticou o prontuário do Incor: “Soube desse prontuário. É ridículo! Não tem nenhuma assinatura do São Caetano ou do Serginho. ‘Se tiver sorte não terá nada’, isso não é coisa que um médico escreva. Por que tenho que acreditar nisso?”, falou.

A declaração de que o São Caetano de nada sabia vai contra o que o próprio Bocchi disse em depoimento para a polícia. Ele teria alertado Forte quatro vezes sobre o risco de morte de Serginho. A mudança de opinião causou estranheza no promotor do Ministério Público Rogério Leão Zagallo, responsável pelo caso na época. Souza e Forte foram inocentados e o processo foi arquivado.

Viúva ameaça processar médico do Incor, mas volta atrás

Depois de alegar que Serginho nunca havia sido alertado dos riscos e diante da mudança no depoimento de Bocchi, Helaine Cunha, viúva do zagueiro, ameaçou processar o cardiologista.

“Vamos pedir o inquérito, que será analisado por um advogado criminalista. Não é questão de dinheiro. É erro mesmo. Quero o CRM [registro no Conselho Regional de Medicina] dele se for preciso. Ninguém fica 30 dias falando uma coisa e depois muda o que havia dito. Ele perdeu a credibilidade. Isso comprova que o Serginho não sabia de nada”, relatou na época ao jornal na época. Procurada pelo iG Esporte, Helaine não atendeu as ligações da reportagem.

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Paulo Forte, médico do São Caetano, não fala sobre morte de Serginho

Silêncio de médico

Médico do São Caetano na época, Paulo Forte foi indiciado por homicídio doloso e teve sua reputação abalada. Apesar de absolvido criminalmente, o médico foi punido no âmbito esportivo: foi proibido de acompanhar a delegação do São Caetano por dois anos, após suspensão do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva).

Dez anos depois, agora com 59 anos, Paulo Forte segue trabalhando normalmente no time do ABC e recentemente foi convocado para integrar a delegação da seleção brasileira sub 21 em um torneio na Espanha e amistosos no Líbano.

Após contato da reportagem, a assessoria de imprensa do São Caetano divulgou que aconteceria uma entrevista coletiva do médico e do presidente Nairo. Posteriormente, houve o pedido de envio de perguntas por e-mail. Porém, segundo o clube, Paulo Forte teve um imprevisto familiar e não pôde conceder entrevistas sobre a morte de Serginho. Procurado em 2009 para comentar os cinco anos do caso, Forte também não se manifestou.

São Caetano se vê como ‘bode expiatório’

Além da punição desportiva concedida ao médico, o presidente Nairo Ferreira de Souza foi obrigado a ficar fora do clube por um ano. O dirigente enxergou a sanção como injusta.

“Muito injustiçado tanto eu quanto o doutor Paulo. Não tínhamos culpa de nada. Em primeiro lugar, os exames foram feitos; segundo, o doutor Paulo era médico ortopedista, não cardiologista. Fomos assistidos por uma grande instituição que se chama Incor. Então, que culpa teve o São Caetano? O São Caetano cumpriu com todas as suas obrigações naquele momento”, disse o presidente, que viu a punição como exemplo para os outros clubes. “Fomos culpados por uma coisa errada e pegaram o São Caetano como bode expiatório”.

Na época, o São Caetano também foi punido com a perda de 24 pontos por ter escalado Serginho em quatro jogos de maneira irregular, segundo o artigo 214 do CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva). O clube caiu de 77 para 53 pontos e quase foi rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro.

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