Pequeno país europeu, centro de disputas entre Espanha e Reino Unido, montou time quase amador para disputar as Eliminatórias da Euro pela primeira vez. "Queremos aproveitar a experiência", diz Lee Casciaro, meia da seleção e policial

Escalação de Gibraltar na TV em sua estreia nas eliminatórias da Euro, contra a Polônia, mostra a profissão de cada jogador
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Escalação de Gibraltar na TV em sua estreia nas eliminatórias da Euro, contra a Polônia, mostra a profissão de cada jogador

Um bombeiro no gol. O lateral-direito joga na terceira divisão da Inglaterra e forma a defesa com um auxiliar administrativo, um agente da alfândega e o diretor das categorias de base de um clube. Um policial fica à frente da zaga, e a linha de quatro homens avançados no meio de campo tem outro policial, um comerciante e um eletricista, além do camisa 10, que atuava em Israel. No ataque, um agente marítimo. Com essa exótica escalação, Gibraltar inicia seu grande sonho no âmbito esportivo: fazer o futebol, uma das paixões da pequena península de 30 mil habitantes encravada entre o sul da Espanha e o norte da África, sair do amadorismo.

Embora tenha uma das federações de futebol mais antigas do mundo, fundada em 1895, Gibraltar conseguiu se tornar membro da Uefa apenas em 2013, sob imposição da Corte Arbitral do Esporte. Liberada para disputar torneios na Europa, o país então formou a seleção para essa nova etapa, mas dentro da realidade local: como os clubes são amadores, a maioria dos jogadores tem seus empregos e leva o futebol como hobby.

Não tem mais bobo no futebol? Algumas seleções mostram que tem, e muito:

Após a filiação, Gibraltar fez seu debute em partidas internacionais oficiais, em novembro de 2013, contra a Eslováquia, e ficou no 0 a 0. Depois, realizou mais quatro amistosos - um empate, duas derrotas e a primeira vitória, sobre Malta, por 1 a 0, gol do atacante Kyle Casciaro, um dos três irmãos que jogam na seleção - antes de seu primeiro grande desafio: as eliminatórias para a Euro 2016, no mesmo grupo de Escócia, Polônia, Geórgia, Irlanda e a campeã mundial Alemanha. Sem estádios nos padrões mínimos exigidos pela Uefa, os gibraltinos levaram sua estreia no torneio para Faro, em Portugal, a 400 quilômetros do país, onde levaram 7 a 0 dos poloneses. Neste sábado, o desafio será contra os irlandeses, em Dublin.

Lance da partida Gibraltar 0 x 7 Polônia, pelas Eliminatórias da Euro 2016
Francisco Seco/AP
Lance da partida Gibraltar 0 x 7 Polônia, pelas Eliminatórias da Euro 2016

Os dois primeiros colocados de cada grupo e o melhor terceiro colocado obtêm classificação direta à Euro 2016, na França. Os outros terceiros lugares das chaves disputam playoffs para preencherem as vagas restantes. Gibraltar sequer sonha em pleiteá-las. No curto prazo, começar a fazer parte desse cenário é a grande vitória do país. "Tem sido uma experiência fantástica. Veremos jogo após jogo a nossa força. Estamos aproveitando o momento para conseguir o máximo de experiência que pudermos. Vamos fazer nosso melhor, não importa de qual forma, quem somos ou o que fazemos. Temos de fazer o melhor possível em campo para crescer e evoluir", contou ao iG Esporte o defensor Scott Wiseman, que atua pelo North Preston End, da Inglaterra, e é um dos dois jogadores profissionais da seleção - o outro é o meia Liam Walker, que estava no Bnei Yehuda, de Israel, mas voltou para o país para assinar com o Lincoln Red Imps.

Wiseman, de 28 anos, foi um dos que se beneficiaram da emancipação de Gibraltar no futebol europeu para integrar uma seleção nacional. Nascido na Inglaterra, ele defendeu as equipes de base do país até o sub 21. Sem chances entre os profissionais, aproveitou a origem da mãe, nascida na península, e aceitou ser convocado para o elenco treinado por Allen Bula. "Era uma oportunidade que não ia aparecer de novo", confessou.

Entre dois poderes

O próximo salto que Gibraltar almeja dar tem alcance mundial: obter a chancela na Fifa. Sem ela não há chance de disputar vaga em Copa do Mundo, mas a entidade aponta seu estatuto como empecilho - aceita como filiados somente países reconhecidos pela ONU (Organização das Nações Unidas). A questão geopolítica, constantemente tensa, tem impacto direto nos desejos esportivos da nação.

Gibraltar, com pouco mais de 6 quilômetros quadrados de extensão territorial e localizado entre a Península Ibérica e o Mar Mediterrâneo, era ocupado por árabes vindos do norte da África e viveu sob domínio da Espanha, país com o qual faz fronteira, até 1704, quando foi tomado durante a Guerra da Sucessão Espanhola. A partir de 1713, o Tratado de Utrecht colocou a nação sob a responsabilidade do Reino Unido.

Cerca de 3 mil gibraltinos foram até Portugal assistir à estreia da seleção nas eliminatórias da Euro 2016
Francisco Seco/AP
Cerca de 3 mil gibraltinos foram até Portugal assistir à estreia da seleção nas eliminatórias da Euro 2016

A Espanha reivindica o local até hoje, o que promove alguns atritos diplomáticos com a Inglaterra - um muro já foi construído na fronteira para evitar o trânsito de pessoas. A população, em referendos, preferiu com 98% dos votos seguir com os britânicos e, em 2002, rejeitou um controle compartilhado da região pelos dois países. Gibraltar, porém, cobra maior autonomia política e até a independência, mesmo que em respeito às leis do Reino Unido, como ocorre com o Canadá, por exemplo.

Na votação que oficializou Gibraltar como membro da Uefa, a Espanha se posicionou contra a filiação. A entidade, ciente da tensão envolvida, direcionou o sorteio das eliminatórias da Euro 2016 de forma que os dois países não se enfrentassem na fase de grupos. O país tentava a inclusão desde 1997.

Gibraltar aposta na inclusão como membro da Uefa para mudar também o cenário local. O campeonato local tem oito clubes, todos amadores, com domínio do Lincoln Red Imps, que venceu as últimas 12 edições da Gibraltar Premier Division e se tornou o primeiro representante do país a disputar vaga na Liga dos Campeões - caiu logo na primeira fase do qualificatório, para o Havnar Bóltfelag, das Ilhas Faroé.

A batalha de Gibraltar por sua supremacia no futebol, pelo visto, ainda será longa.

Negócio de família

Lee Casciaro, meia da seleção de Gibraltar
Francisco Seco/AP
Lee Casciaro, meia da seleção de Gibraltar

A família Casciaro é a base da nova era da seleção gibraltina. O irmão mais jovem, Kyle, de 27 anos, é atacante, fez o gol da primeira vitória oficial do país e trabalha no porto. Ryan, de 30, pode atuar como volante ou lateral. É policial, igual a Lee, de 32, meia e ídolo local - em 2012, foi escolhido como a personalidade esportiva do ano em Gibraltar. Os três jogam juntos também pelo Lincoln Red Imps.

Mais do que uma família, a seleção de Gibraltar anseia expressar que, em termos de paixão pelo futebol, não deve às grandes potências: "Queremos mostrar ao mundo o quão talentosa a pequena Gibraltar é", afirmou ao iG Esporte (confira abaixo parte do bate-papo entre o jogador e a reportagem, feito por e-mail):

iG: Como tem sido s experiência de fazer parte dos primeiros passos de Gibraltar no cenário internacional?
Lee Casciaro: Não tenho dúvidas que, desde que fomos aceitos pela Uefa, essa experiência ampliou meus horizontes quanto ao futuro dos jogadores gibraltinos. Fazer parte disso ao lado de meus dois irmãos é algo que vamos valorizar para sempre.

Vocês têm algum tipo de expectativa quanto à Euro 2016?
LC: Nossas expectativas são realistas. Vamos seguir em frente com um processo de maturidade e evolução individual dos jogadores, que vai ajudar todos a ampliar nossa forma de jogar. Queremos curtir essa experiência o quanto for possível e mostrar ao mundo o quão talentosa a pequena Gibraltar é.

Quase todos os jogadores em Gibraltar são amadores. Você, por exemplo, é policial. É possível ter algum tipo de aspiração com um time semiprofissional?
LC: O fato de nossa população ser de apenas 30 mil habitantes sempre será um tiro pela culatra na hora de buscar jogadores para formar uma seleção. No entanto, a vontade e o orgulho que carregamos como cidadãos e como uma nação do futebol talvez irá nos ajudar a alcançar o inesperado com o passar dos anos.

Você é reconhecido mais como jogador de futebol ou policial?
LC: A maioria das pessoas em Gibraltar me conhece mais como jogador. Quando estou de plantão, o assunto sobre futebol sempre surge. Nunca há momentos de tédio, o futebol é sempre tema de conversa quando estou por perto.

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