Treinador brasileiro do FC Goa falou com exclusividade ao iG sobre o futebol no país asiático. Português Bruno Pinheiro, um dos atletas estrangeiros, também conversou com a reportagem

Depois de os Estados Unidos se tornarem um mercado promissor para o futebol , o país que possui a maior indústria cinematográfica do mundo - Bollywood - também deseja expandir a sua economia para dentro das quatro linhas. Com uma liga recém-criada, a Índia conta com a ajuda de grandes investidores e profissionais já consagrados para tornar a modalidade popular e incentivar a seleção em busca de uma vaga para a Copa de 2026.

Zico vai se aventurar no futebol indiano
Divulgação
Zico vai se aventurar no futebol indiano

A ISL (Superliga Indiana) terá oito times, cada um representando uma região do país, nas cidades de Nova Délhi, Bombaim, Chennai, Kolkata, Kochi, Goa, Bangalore e Pune. Pelas regras, todos devem ter sete atletas estrangeiros, um treinador conhecido e um jogador famoso do futebol mundial. A competição acontece de 12 de outubro a 20 de dezembro deste ano.

A ideia demorou ao menos três anos para ser colocada em prática. Foram diversos estudos, planejamentos e, principalmente, insegurança das empresas para iniciarem de vez a aposta na ISL. A agência IMG Worlwide, uma de marketing no mundo, a Star India, grupo de mídia dona da 21st Century Fox e a Reliance, a maior empresa da Índia, serão proprietárias da liga. A Star India adquiriu os direitos de transmissão por nos por um pacote de US$ 325 milhões (cerca de R$ 780 milhões).

Um dos treinadores em ação no país asiático será o brasileiro Zico, contratado para dirigir o FC Goa. E a Índia não será a primeira aventura inusitada do técnico, que já ajudou no crescimento do futebol japonês, na década de 90, quando o esporte não tinha tanta tradição por lá. Ele também trabalhou no Bunyodkor, do Uzbequistão, no Al-Gharafa, do Catar, e na seleção do Iraque.

Em entrevista exclusiva ao Portal iG , Zico disse que foi não aceitou o convite de imediato e que buscou informações sobre a nova liga indiana antes de firmar contrato. "Procurei informações sobre o que realmente ia acontecer e depois sim fiz uma proposta. Eles fizeram uma contra-proposta e em um mês chegamos a um acordo", contou o ex-jogador do Flamengo.

Confira fotos de Zico na Índia:

A vida de Zico na Índia se resume a hotel e treinamento. De acordo com o treinador, a principal dificuldade é com a culinária local. "Aqui se fala o inglês e a comida deles é muito apimentada, não dá pra encarar. A cidade é pequena, bem simples, mas o hotel que estou é muito bom, com cozinha internacional. Com o decorrer dos jogos, que serão de quatro em quatro dias, esses três meses passarão rápido", contou.

"Agora a dedicação total é aos treinamentos porque temos que acertar o time até o dia 15 de outubro (data da estreia do Goa no torneio). São oito estrangeiros que chegaram agora e que também têm que se adaptar a essa nova cultura", disse Zico.

A ideia dos dirigentes e investidores da Superliga Indiana é fazer com que o futebol seja tão popular quanto o críquete, principal esporte do país. A meta é conseguir uma vaga na Copa do Mundo de 2026, ainda sem sede definida, mas, para isso, o nível técnico e físico dos jogadores locais precisa melhorar.

"O nível é aceitável, e o problema é que não tem trabalho de base, são frágeis fisicamente. Mas tem muita coisa boa acontecendo nesses dias que estamos juntos. Eles querem aprender, se dedicam bastante, são disciplinados e cumprem e aceitam bem o que estou passando. Não posso falar das outras equipes, mas os indianos terão uma oportunidade grande de crescimento porque grandes jogadores e técnicos de outros países estão aqui e isso pode ajudá-los bastante", finalizou Zico.

Zico se alonga antes de treino do FC Goa
DIVULGACAO/REPRODUÇÃO
Zico se alonga antes de treino do FC Goa

Apesar do curto tempo de duração do campeonato, autoridades veem com bons olhos o novo mercado. "A coisa mais importante será também o lado técnico, a criação de uma equipe competitiva que motivará as crianças e os jovens da Índia a querer jogar futebol", disse Kushal Das, secretário-geral da federação indiana, à BBC .

Segundo o dirigente, a Superliga Indiana pode atrair mais investidores ao médio-longo prazo. "Eles sabem que não podem lucrar nos próximos cinco anos, mas percebem que o potencial é tão grande que não se pode fazer balanço nenhum agora. Neste momento tem de se concentrarem no desenvolvimento do esporto para, mais tarde, tirarem lucros. Acredito que o futebol na Índia é um gigante que finalmente vai acordar", acrescentou o otimista Das.

De outubro a dezembro, atuarão nos gramados indianos os brasileiros André Santos e Elano, os franceses Robert Pires e Trezeguet, o sueco Ljungberg, o italiano Del Piero, os espanhois Luis Garcia e Capdevilla e o inglês David James, entre outros atletas de diferentes nacionalidades.

Após Israel, português Bruno Pinheiro reforça o time de Zico

O português Bruno Pinheiro, de 27 anos, será um dos comandados do técnico Zico. Ex-jogador do Boavista, Gil Vicente e Aris Limassol, do Chipre, o meia resolveu se aventurar no futebol indiano após não renovar o vínculo com o Niki Volos, da Grécia, e receber o convite durante as férias dele em Portugal. 

"Eu estava descansando quando meu empresário veio com a proposta e me falou que eles (do FC Goa) faziam questão que eu fosse para a Índia. O meu primeiro pensamento é que não era o momento porque ainda tenho 27 anos e não seria o passo certo nesta altura. Mas, depois, por curiosidade, procurei saber um pouco mais do projeto e fiquei fascinado em poder fazer parte de um planejamento desta dimensão ao lado de grandes nomes como Del Piero, Anelka, Trezeguet, além do privilégio de trabalhar e aprender com o Zico. Conversei com a minha família, tomei a decisão de arriscar e aceitei o convite", contou Pinheiro em entrevista ao iG .  

Bruno Pinheiro (primeiro da direita) posa ao lado dos colegas com um elefante - animal sagrado na Índia - na cidade de Betim
Arquivo pessoal
Bruno Pinheiro (primeiro da direita) posa ao lado dos colegas com um elefante - animal sagrado na Índia - na cidade de Betim

Curiosamente, a cidade de Goa recebeu a colonização de portugueses, tem grande concentração de cristãos (26%), e lembra um pouco o Brasil com suas praias. Mesmo há pouco tempo no pequeno estado, Pinheiro se impressionou com a receptividade dos nativos. "O indiano é um povo muito simpático e humilde, sempre pronto a ajudar em tudo que você precisa. A gente vê muita pobrezanas ruas, um trânsito louco, sem qualquer regra. É uma coisa totalmente diferente do que a gente conhece", disse. 

Assim como Zico, esta não é o primeiro desafio na carreira de Bruno Pinheiro. No ano passado, ele defendeu o Maccabi Netanya, de Israel, no período ainda quando o país vivia conflitos bélicos com sírios. "Foi o melhor lugar que eu já passei até hoje. A qualidade de vida, segurança, povo eram incríveis. Eu passava praticamente ao lado das ameaças dos conflitos que havia nas fronteiras...Israel tem um sistema defensivo incrivel, e a população não tem receio nenhum de qualquer ataque militar no país", relembrou.

Casado com uma brasileira e com contrato válido apenas até o fim da competição, Bruno não descarta atuar também no futebol brasileiro. "Tenho muitos familiares no Brasil e certamente gostaria de um dia jogar lá. Não deixo essa possibilidade de lado", concluiu. 

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.