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Custo da Copa do Mundo para os cofres públicos brasileiros é estimado entre R$ 18,5 bilhões e R$ 28,2 bilhões, com cerca de 35 mil famílias desapropriadas em virtude da competição

BBC

Uma importante ONG suíça está pedindo à Fifa e ao COI (Comitê Olímpico Internacional) que mudem a forma como fazem negócios no mundo. A organização beneficente Terre des Hommes (do francês, Terra dos Homens) dedica-se a combater a exploração de crianças em países em desenvolvimento. Ela quer, por exemplo, que a Fifa (Federação Internacional do Futebol), entidade que organiza a Copa do Mundo - um evento avaliado em bilhões de dólares - passe a seguir as mesmas regras de responsabilidade corporativa adotadas por outras corporações internacionais.

"Lojas de roupas têm responsabilidade sobre as condições de produção de seus fornecedores", disse a diretora da Terre des Hommes , Danuta Sacher, à BBC. "Bem, o mesmo (princípio) deve se aplicar à Fifa e ao seu 'produto comercial', a Copa do Mundo".

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Dilma Rousseff, Joseph Blatter e Vladimir Putin: país-sede da Copa do Mundo concede inúmeros benefícios à Fifa
REUTERS/Alexey Nikolsky
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"Devem se assegurar que a Copa do Mundo está sendo produzida por eles de forma idônea e segura para crianças e suas famílias", acrescentou. 'Custo social e financeiro' De acordo com a Terre des Hommes, no entanto, 170 mil pessoas perderam suas moradias durante os preparativos para a Copa do Mundo no Brasil, em consequência de obras para construção ou reforma de estádios ou por causa de obras de infra-estrutura, como estradas e aeroportos.

Segundo o balanço final do governo brasileiro, foram 35 mil famílias desapropriadas. A ONG diz também que milhares de famílias foram retiradas de suas casas e instaladas, contra sua vontade, em cabanas sem água ou eletricidade. A entidade alerta que retirar famílias de suas comunidades aumenta drasticamente os riscos de que caiam na pobreza. "Se você observar os efeitos de grandes eventos esportivos, (verá que) eles atingem os mais pobres de maneira desproporcional", disse Sacher.

"Países anfitriões pagam um custo social e também um alto custo financeiro, o que, por sua vez, acaba tendo um efeito dominó sobre a quantidade de ajuda social que a nação é capaz de oferecer".

Ela disse que o custo total da Copa do Mundo para os cofres públicos brasileiros foi estimado entre R$ 18,5 bilhões e R$ 28,2 bilhões.

Esse valor corresponde, aproximadamente, ao total que o Brasil gastou, em 2013, com o programa Bolsa Família, que atende a 50 milhões de pessoas, disse Sacher. A diretora da ONG disse considerar injusto que a nação anfitriã tenha de arcar com o custo total da infraestrutura necessária para o evento, enquanto a Fifa, que se beneficia de isenções de impostos nos países anfitriões, arrecada bilhões de dólares com o evento.

Outra questão que preocupa a ONG Terre des Hommes é a proibição da venda, pela população local, de comida, bebida e outros produtos nas imediações dos estádios. A Fifa exige que organizadores autorizem a venda apenas de produtos de seus patrocinadores. Sacher disse que a proibição gera pobreza para dezenas de milhares de famílias, que são impedidas de ganhar seu sustento, ainda que modesto.

"Estamos pedindo aos organizadores globais que levem em consideração a situação dos excluídos e pobres quando planejarem seus grandes eventos esportivos, para garantir que tragam benefícios para todos", ela acrescentou. Reação da Fifa A Fifa, por sua vez, diz que vem trabalhando com a Terre des Hommes desde 2013 na construção do Football for Hope Centre (Centro Futebol da Esperança, em tradução livre) em Bujumbura, Burundi. O centro usa o futebol como forma de dar apoio a crianças de rua e promover seu convívio com crianças da comunidade local.

A entidade diz reconhecer seu dever "que vai além do jogo, buscando criar um exemplo de sustentabilidade e responsabilidade corporativa social para organizações internacionais". A Fifa reitera que trabalha com a ONU e a Unicef, oferecendo apoio total para ressaltar a importância dos direitos humanos e a educação para crianças em todo o mundo.Com relação aos despejos, a entidade diz ter sido "informada de supostos reassentamentos de indivíduos devido a reformas ou construção de estádios" e diz ter feito "averiguações junto a autoridades locais". A Fifa acrescenta: "De acordo com o Ministério dos Esportes brasileiro e as cidades anfitriãs, a renovação ou construção dos estádios não provocou remoções forçados". A Fifa diz que, segundo o governo brasileiro, nas 12 cidades que sediaram a Copa, ao todo, 35 mil famílias foram retiradas de suas casas e reassentadas em outros locais "por causa de melhorias gerais de infraestrutura".

No que diz respeito a impostos, a Fifa diz que a isenção que obteve via garantias do governo foi, principalmente, para a importação de bens e serviços como uniformes para voluntários e frotas de carros e ônibus que permaneceram no país após o torneio.A entidade diz que subsidiárias como a Fifa Ticketing (responsável pela venda de ingressos), o Local Organising Committee (comitê local de organização) e outros prestadores de serviços pagaram imposto segundo a legislação local. "A Fifa pagou imposto sobre cada ingresso vendido".

A arrecadação adicional de impostos "resultante de investimentos no evento deverá totalizar RS$ 16 bilhões – portanto, muito (será) maior do que o investimento público real nos estádios", diz a Fifa.

Sobre vendedores de rua, "principalmente por razões de segurança e saneamento, o comércio informal que normalmente existe em alguns estádios" foi "limitado ou restrito" durante a Copa do Mundo, disse a Fifa. E acrescentou que ela e o comitê organizador ofereceram uma plataforma para que cidades anfitriãs incluíssem comércio informal controlado em suas operações nos dias dos jogos. Obras A Terre des Hommes iniciou uma campanha para conscientizar o público sobre as privações que eventos como a Copa do Mundo podem trazer para crianças pobres e suas famílias.

A ONG disse que planeja se reunir com representantes da Fifa no evento Soccerex, a grande feira de negócios do futebol que acontece nesta semana na cidade inglesa de Manchester.

A entidade disse acreditar que pode haver resultados positivos em torno de grandes eventos esportivos, por exemplo, campanhas promovendo saúde, prevenção contra a violência ou o fortalecimento da sociedade civil.

Mas para que tenham valor real, esses projetos precisam ser sustentáveis, continuando após o final do evento.

O presidente da Fifa, Sepp Blatter, disse que, no futuro, a situação de direitos humanos nos países candidatos a sediar Copas do Mundo será considerada (no processo de seleção).A Terre des Hommes já começou a pesquisar possíveis problemas em torno da Copa do Mundo da Rússia, em 2018 – entre eles, a situação das crianças de rua no país. A ONG também quer ver mais medidas para evitar mortes de trabalhadores em obras para a construção de estádios no Catar, em 2022.

"Queremos saber por que a Fifa - que consegue fazer com que leis nacionais sejam alteradas para atender às necessidades de seus patrocinadores – não é capaz de fazer com que as leis do Qatar sejam mudadas para garantir que trabalhadores não morram construindo estádios", questiona Sacher.

Um porta-voz da Fifa disse ter pedido várias vezes às autoridades do Qatar que tomem medidas em relação às condições inaceitáveis de trabalhadores imigrantes no país.

"Iniciamos uma série de encontros para incentivar discussões sobre direitos do trabalhador e condições de trabalho com empresas do setor de futebol e com entidades como grupos de direitos humanos e sindicatos".

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