Volante Serginho, com passagens pelo Bragantino e Grêmio Barueri, hoje atua no Omonia Nicosia e presenciou insultos racistas dos torcedores do Dínamo de Moscou a companheiro

Embora as punições para injúria racial e racismo estejam previstas no Código Penal Brasileiro, é difícil encontrar casos em que elas foram aplicadas de fato. No entanto, a impunidade não se priva apenas ao Brasil e em alguns países da Europa a discriminação beira a normalidade. Foi o que presenciou o volante brasileiro Serginho, que defende o Omonia Nicosia, clube tradicional do Chipre, durante a disputa da Liga Europa.

Fofana foi vítima de racismo na partida contra o Dínamo Moscou
Divulgação
Fofana foi vítima de racismo na partida contra o Dínamo Moscou

Há exatamente uma semana, perto de fazer história, o Omonia Nicosia encarou o Dínamo Moscou e viu a torcida russa praticar insultos racistas contra o jogador Gaoussou Fofana, da Costa do Marfim. Na partida anterior, em Nicosia, a torcida organizada do Dínamo foi impedida de entrar ao estádio por ter tido a mesma atitude no empate em 1 a 1 com o Hapoel Kiryat Shmona, de Israel, no dia 31 de julho, na Arena Khimki, na região de Moscou.

“Aconteceu de novo. A torcida do Dínamo (Moscou) chamava o nosso jogador de macaco. É lamentável esse tipo de atitude mesmo com toda a evolução que o país passou. Mas na Rússia existem muitos episódios como esses e me parece que não têm vergonha. Até agora, pelo que sei, não houve nenhuma punição. É situação difícil que eles (russos) encaram como algo normal”, relatou Serginho em entrevista exclusiva ao iG .

"Só mudaram (a torcida) de lugar. Estavam lá o tempo todo fazendo pressão. Dizem que no Brasil as leis não são cumpridas, mas era nítido que os caras estavam lá, só que em posição diferente. Uma enganação, ja que eles deveriam ser punidos exemplarmente", esbravejou ele na época..

Gaoussou Fofana, de 30 anos, chegou ao Omonia Nicosia no início deste ano e, além de ter de lidar com discriminação racial, teve de superar a morte do filho de apenas sete anos. A criança faleceu em julho em um hospital da cidade vítima de malária, doença infecciosa parasitária.

A Rússia já foi até mesmo ameaçada de receber a Copa do Mundo de 2018 devido aos constantes registros de racismo. Recentemente, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, cobrou medidas enérgicas do país. Na Bulgária, a situação não é diferente. O brasileiro Guilherme Choco é vítima de racismo há cinco anos e, ao iG , relatou noites de choro .

De capitão 'desdentado' no Bragantino a destaque no Chipre

Pelo apelido é difícil lembrar, mas basta contar um episódio no mínimo curioso que aconteceu na época em que ele atuava pelo Bragantino que fica fácil reconhecer Serginho. Em abril do ano passado, em duelo contra o Água Negra na Copa do Brasil, o volante levou a pior em uma dividida com Ricón, atacante da equipe adversária, e perdeu um dos dentes. Os companheiros do clube até tentaram vasculhar o campo na missão de encontra-lo, mas não obtiveram sucesso. Se a situação hoje provoca risos, foram graças as atuações no clube do interior paulista que o paulista embarcou para o Chipre, pequena ilha no Mar Mediterrâneo.

Serginho em ação pelo Omonia, do Chipre
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Serginho em ação pelo Omonia, do Chipre

Aos 26 anos, Serginho é titular absoluto do Omonia Nicosia e esteve muito perto de fazer história com o clube na Liga Europa. Depois de empatar em 2 a 2 com o Dínamo de Moscou, o time tinha a vantagem do empate para o segundo duelo (0 a 0 ou 1 a 1), mas acabou eliminado após a derrota por 2 a 1.

“Ainda dói bastante em mim esse jogo. Levamos o gol aos 96 minutos, tivemos dois gols legítimos anulados e uma falta marcada contra que não houve. Fica meio difícil de digerir. Nossa torcida até protestou contra a Uefa, mas não tem volta”, lamentou.

Com o elenco recheado de espanhóis e portugueses, a adaptação não foi problema para Serginho. “Já são duas temporadas aqui. Quando surgiu a oportunidade, pesquisei alguns jogadores, inclusive brasileiros, que aqui jogavam. E não é como pensam. Temos campeonatos importantes e o nível não é baixo. Tática e tecnicamente, o futebol aqui superior ao Brasil”, apontou.

“Aqui há jogadores atuando em duas ou três posições diferentes. São todos disciplinados. Com exceção do Cruzeiro que tem atletas versáteis e possui essa variação tática, é difícil ver isso no Brasil. O país se fecha na maneira brasileira de jogar e vê outros países, como a China e até mesmo a Coreia, evoluírem. O futebol brasileiro sofre com essa mentalidade”, completou.

Com saudades de casa, Serginho reconhece que gostaria de retornar, mas cita as dificuldades financeiras dos clubes como barreiras. “Vontade de voltar eu tenho, mas, da maneira que as coisas andam, desanima. Os clubes não pagam salários, jogadores precisam fazer greves, dirigentes não cumprem as obrigações deles...Tenho vontade de voltar por ser o meu país, porém, aqui a diferença de como eles tratam o profissional é gritante. Aqui, a gente sabe que vai receber o salário todo mês", concluiu.


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