Por diferentes motivos, brasileiros não comandam mais times de centros tradicionais e fortes da América do Sul e da Europa. Profissionais do futebol dão suas versões para essa realidade

Felipão teve sua oportunidade no Chelsea, mas não conseguiu trabalhar bem no clube inglês
Clive Rose/Getty Images
Felipão teve sua oportunidade no Chelsea, mas não conseguiu trabalhar bem no clube inglês

Vanderlei Luxemburgo no Real Madrid e Luiz Felipe Scolari no Chelsea . Os últimos trabalhos importantes de técnicos brasileiros em clubes do exterior não foram lá muito animadores, tanto para a própria imagem dos treinadores como para os torcedores das respectivas equipes. O primeiro durou quase um ano no cargo (janeiro de 2005 a dezembro do mesmo ano), o segundo somente seis meses (agosto de 2008 a fevereiro de 2009). Ambos sem títulos e sem deixar saudades.

No passado recente, especialmente dos anos 90 até os dias de hoje, a presença de profissionais brasileiros em centros tradicionais da Europa se tornou muito mais rara do que em décadas anteriores. Após Luxemburgo na Espanha e Felipão na Inglaterra, não houve mais procura por parte dos clubes de grande porte do continente. Leonardo, que foi treinador no Milan e na Inter de Milão , é exceção, até porque já era dirigente do Milan antes de ser "criado" como técnico - o ex-jogador da seleção brasileira passou por um processo de formação profissional na Itália para que estivesse, na visão dos italianos, credenciado ao trabalho à beira do campo.

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Os motivos para o fracasso e a adaptação ruim desses últimos técnicos na Europa vão da língua, passam pelos resultados e, não menos importante, pela dificuldade para administrar elencos estrelados. Na América do Sul, a questão esbarra principalmente no aspecto financeiro. Aqui no Brasil, paga-se muito mais do que em outros países sul-americanos. Em comum, existe a observação sobre os conceitos futebolísticos e a dúvida em relação a eles.

Diante desse panorama geral, o  iG Esporte  conversou com técnicos, dirigentes, jornalistas e demais pessoas ligadas ao futebol para tentar compreender um pouco, com algumas opiniões de quem está no meio, os motivos para a falta de mercado dos brasileiros no exterior.

A diferença de salários entre o Brasil e o restante da América do Sul

Há tempos que treinadores brasileiros não assumem o comando técnico de grandes clubes da América do Sul. E a história mostra uma vasta lista de nomes que treinaram algumas das principais equipes do continente: Vicente Feola e Dino Sani no Boca Juniors, Valdir Espinosa e Paulo César Carpegiani no Cerro Porteño,  Didi no River Plate, Osvaldo Brandão no Independiente e no Peñarol, Zezé Moreira no Nacional... Só para citar alguns que, ao longo dos anos, no passado longínquo e recente, figuraram no primeiro escalão nacional e até internacional do futebol sul-americano.

O problema na hora de contratar brasileiros sob a perspectiva desses clubes esbarra no dinheiro. Hoje, no Brasil, alguns clubes da Série B do Campeonato Brasileiro pagam melhor que clubes tradicionais e grandes de determinados países. "A diferença hoje no futebol está aqui (no Brasil), aqui o salto foi muito grande em relação ao salário. Hoje você não encontra nenhuma equipe do Chile, do Paraguai, da Bolívia... Esses dias me ligaram da Bolívia para um trabalho, fiquei até meio chateado em dizer não, porque era uma proposta bem abaixo", diz Espinosa, que conquistou títulos no Cerro Porteño, sobre a questão financeira. "Até times da Série C pagariam igual. Na Série B a maioria paga muito mais".

Há duas semanas, o técnico do Atlético-MG , Levir Culpi, chamou a atenção para os valores pagos no Brasil. "As pessoas precisam repensar o futebol brasileiro. A semana não foi boa, pela primeira vez desde que voltei que me senti mal, foi esta semana. A conta não esta fechando, os clubes estão pagando muito para os treinadores e jogadores e não estão pagando ninguém".

No futebol do Equador, a participação de brasileiros é relevante, uma vez que três chegaram a treinar a seleção equatoriana principal: José Gomes Nogueira (1969), Otto Vieira (1981) e Antonio Ferreira, o "Antoninho" (1984-1985). Além disso, cinco brasileiros foram campeões nacionais: Francisco de Souza Gradym no Barcelona de Guaiaquil (1963), José Gomez Nogueira na LDU (1969), Otto Vieira no Barcelona (1970, 1971 e 1980), Roberto Abruzzese no El Nacional (1983, 1984 e 1986) e Paulo Massa no El Nacional (1996) e na LDU (1998). Nos últimos cinco anos, porém, nenhum protagonista no cenário nacional. Os próprios Paulo Massa e Roberto Abruzzese, de sucesso em outros tempos, só reapareceram no modesto Espoli em 2009, o primeiro de janeiro a agosto, e o segundo de setembro a outubro. Nenhum deles conhecidos no Brasil.

"Os clubes equatorianos não tentam contratar técnicos brasileiros porque os valores que são pagos aqui não são atrativos para os técnicos do seu país que têm algum prestígio. Para se ter uma ideia, aqui se paga 50 mil dólares por mês para os técnicos dos clubes mais importantes (Barcelona, Emelec e LDU). Por isso chegam brasileiros que são pouco conhecidos ou que foram ex-jogadores de clubes equatorianos. Aqui chegam técnicos argentinos, que é um mercado mais fácil para negociar que o brasileiro", afirma Pablo Yupanqui, jornalista da Rádio City, do Equador. 

Luis Zubeldía, treinador argentino da LDU, tem apenas 33 anos. Brasileiros já tiveram espaço e sucesso na história do futebol equatoriano
Reprodução/Twitter
Luis Zubeldía, treinador argentino da LDU, tem apenas 33 anos. Brasileiros já tiveram espaço e sucesso na história do futebol equatoriano

A LDU de Quito, detentora da única Copa Libertadores no Equador, teve, nos últimos 15 anos, técnicos de quatro nacionalidades diferentes campeões com a equipe: o chileno Manuel Pellegrini, o uruguaio Jorge Fossati, o peruano Juan Carlos Oblitas e o argentino Edgardo Bauza. Atualmente, o comandante da equipe é Luis Zubeldía, argentino de apenas 33 anos. 

O aspecto salarial também é apontado por Carlos Sánchez, gerente de futebol do Peñarol, como decisivo para o desaparecimento de nossos treinadores tanto no Uruguai como no restante da América do Sul. Contudo, o dirigente confessa nunca ter cogitado o nome de um brasileiro para o comando da equipe. Para ele, além do econômico, há a diferença de conceitos futebolísticos. "Temos visões e gostos distintos pelo mesmo esporte. Aqui gostam de jogar forte, de bola longa para os atacantes. Somos mais de resposta que de proposta. Vocês têm jogadores mistos, aqui o jogador que marca não joga e o que joga não marca (risos)", declara. 

Técnico do Peñarol, o uruguaio Jorge Fossati, que teve passagem pelo Internacional em 2010, admite a diferença financeira entre clubes do Brasil e outros poderosos do continente, como Boca Juniors, River Plate, Nacional e o próprio clube em que trabalha. Mas pondera: "Cuidado: nem todos privilegiam o dinheiro para aceitar um projeto. E os clubes que você menciona e outros, que pagam bem, elegem quem eles querem e aí priorizam quem conhece melhor o meio", diz Fossati, que não crê em uma diferença de conceitos tão grande. "Não creio que seja um estilo tão diferente na Argentina, Colômbia, Chile, Equador, Peru, Uruguai... Talvez no Brasil haja menos ordem tática, aí está a maior diferença. Pelo menos na minha experiência".

Perguntados sobre a questão da língua, assinalada em algumas ocasiões por técnicos brasileiros como uma das principais dificuldades do trabalho fora do país, a maioria dos entrevistados classificam o assunto como irrelevante para o fracasso ou sucesso de profissionais. No caso de Felipão, por exemplo, os problemas com o inglês minaram parte de sua passagem pelo Chelsea. Mas não se pode, na opinião de quem acompanhou o dia a dia do treinador em Londres, creditar o fracasso esportivo apenas à dificuldade com o idioma.

A dificuldade com a língua estrangeira x conceitos futebolísticos

Entrevistado em maio pelo programa Bola da Vez, da "ESPN Brasil", o técnico Tite, campeão brasileiro, da Libertadores e do Mundial pelo Corinthians e que desde sua saída do clube em dezembro de 2013 buscou se atualizar para seu próximo trabalho, disse que teria dificuldades na Europa por conta da barreira da língua. Para o ex-treinador corintiano, não ter domínio em outro idioma prejudicaria o dia a dia dos treinos.

O jornalista inglês Dominic Fifield, repórter do jornal The Guardian, cobriu a passagem de Felipão pelo Chelsea na temporada 2008/2009 do futebol europeu. Luiz Felipe Scolari era o grande treinador brasileiro do momento, já que havia feito bons trabalhos com as seleções brasileira e portuguesa. Contudo, a demissão precoce depois de apenas 25 jogos da Premier League foi na contramão da expectativa gerada - aqui no país e na Inglaterra - com sua chegada ao clube londrino. E a dificuldade com a língua inglesa o prejudicou. Mas não foi só isso. 

"Ele foi tão bem com as seleções de Brasil e Portugal e chegou sob enorme expectativa, como uma figura carismática que pudesse emular José Mourinho depois da liderança sem inspiração de Avram Grant. Porém, ficou claro muito cedo que ele teve problemas com a barreira da língua e não conseguiu convencer jogadores experientes na montagem (da equipe), figuras influentes como Frank Lampard, John Terry, Didier Drogba e Petr Cech que, na época, ainda dominavam o clube no dia a dia", afirma Dominic.

Felipão, ao lado do auxiliar Murtosa. Brasileiro teve problemas com o inglês e também com a administração do vestiário do Chelsea
Getty Images
Felipão, ao lado do auxiliar Murtosa. Brasileiro teve problemas com o inglês e também com a administração do vestiário do Chelsea

O Chelsea de Felipão ainda era, na verdade, o Chelsea de Mourinho. O carinho e a entrega dos jogadores pelo português e por seus conceitos ainda estavam muito arraigados em Stamford Bridge. Clima que prosseguiu mesmo depois da saída do brasileiro e da chegada de outro português, diz o jornalista do Guardian.

"O complô de jogadores foi muito poderoso no vestiário, e seria novamente quando Andre Villas-Boas fracassou no Chelsea anos depois. Eles precisavam ser mantidos no primeiro plano, e Scolari não passou a mão na cabeça deles. E nem eles venciam por ele. Os torcedores, que gozaram do sucesso da era Mourinho com esses jogadores à frente, ficaram do lado daqueles que conheciam, ao invés de ficar do lado do brasileiro, cujo inglês 'quebrado' o fez difícil de ser compreendido. Faltaram aliados a Scolari dentro e fora do clube, e aí está uma fraqueza".

Um dos últimos treinadores renomados do Brasil que tiveram oportunidade em um grande europeu antes de Felipão e Luxemburgo foi Carlos Alberto Parreira, no Valencia, na temporada 1994-1995. A aventura do comandante do tetra na Espanha, porém, não deu resultados. Ex-diretor de futebol do clube, cargo que ocupou de 2010 a 2013, Braulio Vásquez trabalhou com três técnicos espanhóis (Unai Emery, Salvador González e Ernesto Valverde), dois argentinos (Mauricio Pellegrino e Juan Antonio Pizzi) e um sérvio (Miroslav Djukic). Para Vásquez, a falta de interesse nos serviços de um brasileiro se deve aos conceitos futebolísticos. "A metodologia é diferente e pouco aplicável no futebol europeu. Se prioriza a tomada de decisão do futebolista sobre o coletivo. Sacrificando o conhecimento tático (do atleta)", disse o dirigente, hoje no Valladolid.

Perguntado se o idioma é um aspecto irrelevante para o insucesso dos brasileiros, Vásquez é direto e cita um homem, nascido em Portugal, que se vira bem com o inglês e o espanhol: "(É irrelevante) Sim, Mourinho fala português".

Bicampeão paraguaio no Cerro Porteño em 1987 e 1992, Valdir Espinosa afirma que conseguiu se adaptar ao espanhol no Paraguai. Para o técnico, a adaptação na América do Sul ou em lugares com idiomas teoricamente mais fáceis de se aprender, como o espanhol, o francês e o inglês por exemplo, parte também da iniciativa do próprio profissional. "Acho que há uma facilidade maior para quem nasce no Sul (em relação ao espanhol). Em função de estar mais próximo da fronteira (com Uruguai e Argentina), acho que porque tem um contato maior. Quando eu trabalhei em Assunção, tinha essa facilidade. E queria melhorar cada vez mais. A primeira vez foi um ano de trabalho, depois mais um ano, deu tempo de ter um aprendizado maior", diz o gaúcho, conterrâneo de Tite. "Existe uma dificuldade. Mas não é desculpa. Você vai ter que se adaptar", completa Espinosa.

Como pontuou anteriormente Dominic Fifield sobre a passagem de Felipão pelo Chelsea, a dificuldade com a língua teve sua parcela na curta carreira do técnico em Londres, mas os problemas com a administração do vestiário e a falta de resultados também se mostraram determinantes para sua saída. Na opinião do jornalista, o fracasso no futebol inglês daquele que foi campeão mundial em 2002 pode ter prejudicado a imagem do técnico brasileiro como um todo.

"Até porque ele era o treinador brasileiro de mais alto nível na época, tendo ganhado a Copa do Mundo com a seleção de seu país e vencido a Inglaterra regularmente com ela e com a seleção de Portugal. A FA (Football Association) chegou a namorar a possibilidade de tê-lo como técnico nos anos anteriores à sua chegada em Stamford Bridge. Se ele veio e fracassou na Inglaterra, que chances os outros têm de dar certo?", completa o inglês.

Seja pela questão econômica, pelo idioma ou pelos conceitos de futebol, fato é que o mercado está fechado para os brasileiros. E os grandes clubes do exterior, alguns até com sucesso na tentativa que fizeram com esses profissionais, também não parecem muito animados a arriscar e abrir esse mercado novamente.

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