Julinho foi ídolo do Palmeiras e jogou na Fiorentina nos anos 50. Foi o grande nome da seleção brasileira na Copa de 1954

Julinho foi ídolo do Palmeiras e da Fiorentina, que se enfrentam nesta quarta no Pacaembu
Gazeta Press
Julinho foi ídolo do Palmeiras e da Fiorentina, que se enfrentam nesta quarta no Pacaembu

O Colégio Julio Botelho, localizado no tradicional bairro da Penha, tem muros pintados de verde e violeta, cores que remetem aos dois principais clubes defendidos pelo antigo ponta-direita. Dividido, Carlos Botelho, mantenedor da instituição e filho do ídolo, se emociona com a partida entre Palmeiras e Fiorentina, marcada para as 21h50 (de Brasília) desta quarta-feira, no Pacaembu.

"Esse jogo vai ser muito emocionante. Estou ansioso. A Fiorentina veio ao Brasil para enfrentar o Palmeiras, com o troféu Julinho Botelho em jogo. Isso é a história do meu pai, e mostra que ele continua vivo na memória dos esportistas. É um grande orgulho para a família", disse Carlos Botelho, cercado por fotos e notícias do ponta-direita que faleceu em 2003 e completaria 85 anos nesta terça-feira.

O jogo entre Palmeiras e Fiorentina, parte das comemorações pelo centenário do clube brasileiro, integra a Copa EuroAmericana, torneio criado no ano passado que consiste em uma disputa entre clubes dos dois continentes. Equipes como Atlético de Madrid, atual campeão espanhol, Monaco, Valencia, Estudiantes e Universidad Católica também participam do campeonato.

Após fazer sucesso com a camisa da Portuguesa, Julinho Botelho foi convocado para a Copa do Mundo de 1954. O jogador, escalado como titular da Seleção Brasileira ao lado de craques como Djalma Santos, Nilton Santos e Didi, marcou dois gols na campanha até as quartas de final. A performance chamou a atenção da Fiorentina, que resolveu contratá-lo.

O ponta-direita da Seleção Brasileira foi fundamental na conquista da edição de 1955/1956 do Campeonato Italiano, o primeiro Nacional do clube fundado em 1926. Carlos Botelho teve a exata dimensão da grandeza de seu pai na história do time violeta em outubro de 2013, quando participou da cerimônia que incluiu o antigo jogador no Hall da Fama da agremiação.

"Foi uma homenagem linda. É fantástico o quanto meu pai é amado em Firenze. Quando anunciaram o nome ‘Julinho’ e eu subi ao palco para representá-lo, foi como se ele estivesse ali junto comigo. E acho que estava. As pessoas choravam de emoção. Eu fui com meu pai para a Itália nos anos 1990 e sabia que ele era querido, mas fiquei surpreso com a idolatria mesmo ele não estando presente", descreveu Carlos.

Como manda o figurino, a família Botelho ofereceu como relíquia ao museu da Fiorentina uma camisa usada por Julinho, peça que causou alvoroço entre os torcedores da equipe viola, como é chamada em função da cor. No período em que contou com o ponta-direita brasileiro, o time ainda foi vice da Copa dos Campeões e de duas edições do Campeonato Italiano.

Com status de ídolo na Europa, Julinho Botelho poderia ter participado da Copa do Mundo de 1958, mas resolveu abrir mão do torneio, já que considerava injusto tirar a vaga de um jogador que atuava no futebol brasileiro. Desta forma, o técnico Vicente Feola resolveu chamar para a ponta-direita o flamenguista Joel e o botafoguense Garrincha.

"Meu pai estava na Itália desde 1955, mas conhecia bem as dificuldades dos atletas que atuavam no Brasil. Não era como hoje, com salários astronômicos. Jogando na Europa, ele não achava correto concorrer com alguém que estava batalhando no País. Os convocados seriam Joel e Julinho. Sem o Julinho, o Feola chamou o Garrincha", contou Carlos.

Em uma coincidência cruel para o ponta-direira, a Seleção Brasileira enfrentou a Fiorentina no penúltimo amistoso antes de iniciar a campanha que rendeu seu primeiro título mundial, conquistado na Suécia. Durante a execução do hino nacional no Estádio Artemio Franchi, vestido com a camisa da equipe italiana, o atleta chorou antes da partida, vencida por 4 a 0 com um gol de Garrincha.

Com saudades da Penha, bairro que abriga a escola hoje mantida por seus filhos, Julinho resolveu retornar ao Brasil para defender as cores do Palmeiras em 1958. No time que ficou conhecido como Primeira Academia, o ponta-direita conquistou títulos relevantes, como o Super Paulistão de 1959, sobre o Santos de Pelé, e participou do jogo em que a equipe vestiu a camisa da Seleção diante do Uruguai, em 1965."Meu pai jogou no Palmeiras até 1967 e cuidou das categorias de base até 1972. O clube para ele era tão importante quanto a Fiorentina. Logo depois de chegar, foi campeão paulista sobre o quase imbatível Santos de Pelé. Se não fossem os três títulos do Palmeiras (1959, 1963 e 1966), o Santos teria vencido o Estadual por 12 anos consecutivos", lembrou Carlos.

Em 1959, o então jogador do Palmeiras protagonizou uma das maiores façanhas da história do lendário Maracanã. No primeiro jogo realizado no Brasil após o título mundial conquistado na Suécia, ainda sob o comando de Vicente Feola, a Seleção enfrentou a Inglaterra. Assim que o sistema de som anunciou a presença de Julinho como titular no lugar de Garrincha, o público que lotava o estádio no Rio de Janeiro explodiu em vaias.

Experiente, o jogador de 29 anos respondeu em campo ao marcar o primeiro gol e participar do segundo, anotado por Henrique Frade. O feito de Julinho Botelho, em seguida festejado pelo público no Maracanã, inspirou o cronista Nelson Rodrigues a escolhê-lo como personagem da semana em sua coluna na extinta Manchete Esportiva.

"Em inúmeras ocasiões o que ele fez com o adversário foi pior que xingar a mãe. E o primeiro gol, ah, o primeiro gol! Ele o marcou contra os ingleses, sim, mas também contra os que o vaiaram. Enfiou a bola de uma maneira, por assim dizer, sádica. Jamais houve um gol tão amorosamente sofrido como este. A partir da abertura da contagem, todo mundo passou a reconhecê-lo", escreveu Nelson Rodrigues, torcedor do Fluminense.

Em 1962, uma lesão muscular acabou com as chances de Julinho participar da Copa do Mundo do Chile. Respeitado pelos companheiros em função do gesto de 1958, o ponta-direita foi convidado para permanecer com o elenco, mas preferiu ver de longe a campanha que culminou com o bicampeonato da Seleção Brasileira, protagonizado por Garrincha.

"Os pontas convocados seriam Garrincha e Julinho, mas meu pai se machucou. Pela atitude de 1958, o Pelé, o Gilmar e o Nilton Santos foram conversar com ele. ‘Mesmo sem poder jogar, venha conosco e, se o Brasil ganhar, você vai estar junto’, disseram. Mas ele não aceitou e ainda sugeriu ao Aymoré Moreira a convocação do Jair da Costa, da Portuguesa. Meu pai nuca se arrependeu dessas decisões", lembrou Carlos.

No ano seguinte, Julinho Botelho viveu a experiência de enfrentar a Fiorentina pelo Palmeiras e, das arquibancadas do Artemio Franchi, ouviu o clamor dos torcedores do time local pelo seu retorno. No único confronto anterior entre as duas equipes, válido pelo Quadrangular de Florença, o time brasileiro venceu por 3 a 1 e terminou com o título do torneio amistoso promovido na Itália.

O imóvel do Colégio Julio Botelho, com uma bandeira do Brasil na fachada, abrigava a quadra de futsal administrada pelo ex-jogador, falecido em 2003. Do lado de dentro dos muros pintados de verde e violeta, preservar a memória do patrono é uma prioridade. Os cerca de 600 alunos têm contato com a biografia do ídolo e podem admirar uma vitrine com parte de seus troféus, além de uma sala com inúmeras notícias e fotos de jornal.

Na Penha, reduto da família, Carlos, um dos cinco filhos de Julinho, se prepara para um novo confronto entre Palmeiras e Fiorentina, desta vez com o troféu que leva o nome do pai em jogo. "Eu fiz uma camisa dividida entre os dois clubes para acompanhar a partida no Pacaembu e vou torcer por ambos. Espero uma grande exibição e que o melhor seja premiado com a taça Julinho Botelho", disse o herdeiro, diplomático.

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