Movimento quer fortalecer a Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte, estabelecendo novo processo eleitoral e permitindo maior abertura na entidade que controla o futebol brasileiro

O Bom Senso FC quer aproveitar a força conquistada em Brasília para democratizar a CBF (Confederação Brasileira de Futebol). O movimento entregará à presidente Dilma Rousseff, no início desta semana, um texto que visa a aprimorar o projeto da LRFE (Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte). A intenção é tornar a CBF regulamentada pelo governo, com poder descentralizado, um processo eleitoral mais abragente e com a participação ativa de atletas, clubes, árbitros e do próprio governo.

Ruy Cabeção é um dos membros do Bom Senso FC e dispara contra a CBF
Reprodução
Ruy Cabeção é um dos membros do Bom Senso FC e dispara contra a CBF

O texto inicial da LRFE foi elaborado pelo deputado Otavio Leite (PSDB) e prevê o refinanciamento das dívidas dos clubes de futebol, um mandato máximo de quatro anos para os presidentes dos clubes e a atribuição de responsabilidade pessoal dos dirigentes em caso de não publicação do relatório anual de dívidas. O que o Bom Senso quer estender essas exigências também à CBF. A nova redação está a cargo do advogado Mattos Filho e de Daniela Castro, diretora executiva da ONG Atletas pelo Brasil, entidade presidida pela ex-atleta Ana Mozer.

De acordo com o Bom Senso, o texto deve explicar com mais detalhes os pontos levantados na reunião com Dilma no último dia 21: o fortalecimento da própria LRFE, democratização das entidades de administração esportiva e início do PNDF (Plano Nacional de Desenvolvimento do Futebol) em conjunto com o Ministério do Esporte. A intenção é que no início de 2015 haja um congresso mundial para redigir o primeiro documento do PNDF.

Jogadores e membros do Bom Senso participaram de um encontro com a presidente Dilma
Roberto Stuckert Filho/PR
Jogadores e membros do Bom Senso participaram de um encontro com a presidente Dilma

Um dos representantes do Bom Senso FC, o lateral-direito Ruy Cabeção, hoje jogador do Operário-MT, participou dos dois últimos encontros com a presidente, em Brasília, e diz que ela tem todos os recursos para pressionar os manda-chuvas do futebol brasileiro. Na última sexta-feira, Dilma se reuniu com os presidentes dos times para discutir o refinanciamento das dívidas.

“No segundo encontro, a presidente estava bem mais preparada, com o conhecimento das leis e respaldada pelos seus secretários e ministros. Discutimos uma forma de as reivindicações serem dentro da lei, sem ferir a constituição. Ela (Dilma) tem todos os artifícios para pressionar os clubes para que eles sejam mais transparentes”, disse ele em entrevista ao iG Esporte .

A “democratização da CBF”, aliás, é a nova bandeira levantada pelo Bom Senso FC. Na onda da eliminação vergonhosa da seleção brasileira na Copa do Mundo, o movimento sugere a “abertura” da confederação e mudanças no estatuto, sobretudo no processo eleitoral. Atualmente, a CBF é uma empresa privada e, por isso, não pode receber interferência do governo.

“Vemos que o futebol brasileiro não está evoluindo, e o que estamos propondo é que a CBF se torne aberta a todos, não mais focada apenas na supremacia de uma pessoa. Os clubes têm receita de televisão antecipada até 2018, se tornando reféns da CBF. Eles ficam dependentes e, com dívidas, acatam algumas ordens. É por esse motivo que se faz necessária a negociação da dívida. Os clubes precisam ter sustentabilidade, e não ficarem reféns de uma entidade”, declarou ao iG o goleiro Roberto, da Ponte Preta.

“A seleção brasileira é a única preocupação da CBF, que só está interessada nos patrocinadores e na marca Brasil. O futebol brasileiro está largado. Queremos participar na criação do regulamento das competições, segurança dos torcedores e atletas, e todo o corpo técnico em geral”, afirmou Ruy, que sugere a criação de uma comissão com representantes de clubes, Bom Senso FC, AGU (Advocacia-Geral da União) e ministérios do Esporte e da Fazenda.

A fórmula de escolha do presidente na CBF é apontada como um problema para a evolução do futebol brasileiro. Segundo o estatuto da entidade, são 47 votos para a eleição do mandatário, sendo 27 deles dos presidentes das federações estaduais e 20 dos presidentes dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro. Para ser eleito, o candidato deve receber, no mínimo, 24 votos. O Bom Senso FC idealiza a participação do corpo técnico do futebol na Assembleia Geral da CBF.

José Maria Marin e Marco Polo Del Nero: o atual e o futuro chefões da CBF
Mowa Press
José Maria Marin e Marco Polo Del Nero: o atual e o futuro chefões da CBF

Candidato único, Marco Polo Del Nero, atual vice da CBF e presidente da FPF (Federação Paulista de Futebol), foi eleito para o mandato que se inicia em abril de 2015 e se encerra em 2019. O processo foi antecipado e aconteceu em abril pela justificativa de o Brasil sediar a Copa do Mundo. Na ocasião, Del Nero recebeu 44 votos, com dois votos em branco e uma abstenção.

“Não tivemos chapa de oposição. A CBF não abriu para isso. Poderíamos ter ótimos ex-jogadores como presidentes, como o Raí, Leonardo, Mauro Silva e o próprio Romário. O problema é que as federações recebem verbas da CBF, então como vão votar contra ela? E se a votação fosse aberta para a população? O atual presidente teria sido eleito? Com certeza não”, questionou Ruy.

“A gente vê casos absurdos, como o presidente que se mudou (Ricardo Teixeira), foi embora do país e ninguém fala nada. Somos obrigados prestar contas para o governo, e por que a CBF não? Para onde o dinheiro da CBF vai? As federações estão endividadas, e os clubes não sabem como recorrer”, prosseguiu.

Por meio das redes sociais e do seu site, o Bom Senso FC ainda pede assinaturas para a petição “CBF, democratize o seu estatuto já!”. Até agora, mais de 74 mil pessoas apoiaram o manifesto.

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