Ricardo Gareca teve de readaptar algumas vezes o Vélez, mas nunca abdicou do ataque. De perfil "baixo", conquistou a confiança dos experientes e de dirigentes durante a carreira

Gareca foi vitorioso no Vélez, clube no qual deixou saudades em atletas, torcida e diretoria
Fernando Dantas/Gazeta Press
Gareca foi vitorioso no Vélez, clube no qual deixou saudades em atletas, torcida e diretoria

"O Palmeiras levou um grande técnico e uma grande pessoa". Foi dessa forma que o presidente do Vélez Sarsfield, Miguel Calello, definiu ao iG Esporte o perfil de Ricardo Gareca, seu técnico no clube argentino e que agora assume como o novo comandante alviverde. 

Quando foi apresentado na equipe argentina, em 2008, Gareca colocou como desafio "recuperar a mística do Vélez dos anos 90". E se por um lado não conseguiu repetir o caminho de um título internacional, como o time campeão da Libertadores em 1994, no cenário local o treinador foi capaz de alçá-lo ao posto de mais vitorioso dos últimos anos.

Indicado por Christian Bassedas, ídolo daquele Vélez noventista e manager do clube há seis anos, o treinador apostou no jogo ofensivo e na discrição para levar três taças de campeão argentino durante sua passagem. Por conta da realidade econômica não só do futebol nacional, mas principalmente do país, muitos jogadores foram transferidos desde sua chegada, obrigando Gareca a reinventar suas equipes de acordo com os elencos que lhe eram apresentados a cada início de temporada.

Estiloso, Gareca se apresenta ao Palmeiras e nega ter aversão por verde

Em seus dois primeiros títulos, teve no meia Maximiliano Morález sua principal figura. Na campanha de 2009, Maxi atuava mais como "enganche", o meia que fica à frente do trio de volantes no 4-3-1-2, esquema clássico no país. Já em 2011, variava entre essa função, a de segundo atacante e até a de meio-campista aberto pela esquerda no 4-4-2, cortando sempre em diagonal e abrindo espaço para o apoio de Emiliano Papa, lateral-esquerdo ofensivo e um dos fiéis escudeiros do técnico. No título de 2012, Gareca volta ao 4-3-1-2, desta vez com o experiente Federico Insúa no papel de camisa 10. 

Em comum no que remete ao estilo de jogo, sempre escalou linha de quatro defensores atrás, prendendo seus laterais direitos e liberando Papa no outro lado. Como exemplo, tem-se o duelo entre Vélez e Santos, pela Libertadores de 2012, quando colocou o jovem Gino Peruzzi na direita apenas para segurar Neymar. Por ali passou também o experiente Cubero, que já atuou como primeiro volante, segundo, lateral e até zagueiro com Gareca. Líder, foi uma das referências (junto de Seba Domínguez) em que o comandante se apoiou para conquistar a confiança do elenco. Isso sem contar a mescla com jovens da base, casos de Peruzzi (citado acima), Tobio, Rescaldani, Ricky Álvarez...

Gareca conta com Alberto para acelerar processo de adaptação no Palmeiras

Centroavantes de área também são do gosto de Gareca, normalmente ajudados por um segundo atacante de movimentação constante, como foi Juan Manuel Martínez, de 2010 a 2012.

O bom trato com os medalhões, porém, não vem só da época de Vélez. No Universitario do Peru, seu clube anterior, chegou a botar o colombiano Mayer Candelo, um dos jogadores mais importantes daquele grupo, no banco. Ao contrário do que se pensou à época, Candelo não se irritou com a decisão e, contribuindo com sua experiência e capacidade técnica, foi fundamental para o título nacional, em 2008.

Quanto a reforços, nunca entregou listas de pedidos, mas mantinha contato próximo com dirigentes para apontar os setores de maior necessidade da equipe. O que criou uma relação de confiança entre ele e a cúpula do Vélez, sempre preocupados em manter o alto nível mesmo com o êxodo de atletas. Tão grande era a segurança dada pela diretoria argentina que Gareca chegou a afirmar que gostaria de ser uma espécie de "Alex Ferguson de Liniers (bairro onde fica o Vélez)". 

Com Gareca, argentinos Tobio, Pratto e Milito são cotados no Palmeiras

Sobre ser supersticioso, principalmente pela história da aversão à cor verde, o presidente Miguel Calello, quando perguntado, respondeu aos risos: "Pode ser (que tenha superstições). Uma vez aconteceu de o nosso ônibus ser todo decorado na cor verde. Por sorte empatamos e ficou tudo tranquilo."

Também não é muito fã da música de Marc Anthony, cantor americano e ex-marido de Jennifer López. Isso porque durante sua passagem pelo Universitario, Gareca levou a equipe para um treinamento longe do CT do clube. Ao chegar no local, se deparou com um festival esportivo, no qual o ritmo da salsa embalava os jogos. A atividade da equipe prosseguiu até que, em certo momento, o argentino interrompeu, foi ao campo vizinho onde acontecia o torneio e disse: "Não há problema em treinar com música, o único que peço é que tirem essa música do Marc Anthony. Nada desse porto-riquenho". Perguntado por seus jogadores o por que da revolta com Anthony, Gareca respondeu: "Na Colômbia, toda vez que colocavam a música dele no estádio, perdíamos." Antes de assumir o Universitario, o técnico comandou o América de Cali e o Independiente Santa Fe.

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