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Médias de público baixas e pouco apelo de partidas dos clubes aumentam desafio de administrar os novos estádios

Os estádios reformados para a Copa do Mundo ainda não conseguem ser mantidos com as rendas que eles geram. Maracanã, Fonte Nova, Mineirão, estádios da Série A do Brasileirão que já existiam e foram modernizados para se adequar ao padrão Fifa, tiveram prejuízo no primeiro ano de operação de suas concessionárias. Mas há otimismo, apesar do cenário atual.

“A arrecadação com bilheteria gerou receitas para os clubes que atuaram nas arenas, No entanto, o valor arrecadado em 2013, primeiro ano de operação das arenas, não pagou os custos de manutenção”, diz a Odebrecht Properties, concessionária do Maracanã e da Fonte Nova, por meio de sua assessoria de imprensa. O Maracanã fechou 2013 com prejuízo de R$ 48 milhões e deve terminar 2014 com prejuízo de R$ 26 milhões.

Maracanã fechou primeiro ano de operação com prejuízo de R$ 48 milhões
Divulgação/Maracanã
Maracanã fechou primeiro ano de operação com prejuízo de R$ 48 milhões

As concessionárias insistem que nada podem fazer em relação aos preços abusivos dos ingressos. O jogo entre Flamengo e Cabofriense, por exemplo, pela semifinal do Campeonato Carioca, teve 9 mil presentes e ingresso médio a R$ 60. A final entre Vasco e Flamengo teve pouco mais de 20 mil pagantes. Para a concessionária do estádio, o desafio é fidelizar o torcedor e sua família.

“O conforto, a segurança, a limpeza e outros pontos elogiados pelo público em pesquisas realizadas já criam o hábito das pessoas de retornar várias vezes ao Maracanã. Hoje, temos mais famílias e mulheres frequentando o estádio, o que cria uma cultura de um passeio familiar que ampliará a média de público. A concessionária também realiza pesquisas para identificar outras atrações que o público gostaria de ter à disposição para aumentar o interesse por jogos menores”, comentou a Odebrecht Properties.

Por conta do grande número de jogos no estádio, há um limite para a realização de outros eventos, como shows, por exemplo. O Maracanã ganhará um museu do futebol, maior que o existente no Pacaembu, para atrair mais turistas. Não há previsão de lucro pelos próximos oito anos. A concessão tem 35 anos. Até lá, espera-se um retorno.

Há um entendimento entre os administradores dos novos estádios ouvidos pelo iG que o calendário do futebol brasileiro e o conteúdo oferecido pelos clubes durante a maior parte do ano não é suficiente para garantir estádios cheios sempre. Jogos dos campeonatos estaduais atraem cada vez menos pessoas. E os clubes insistem em manter os preços mais altos.  

Mineirão deu prejuízo mesmo com grandes jogos em 2013, como a final da Libertadores
Pedro Taveira/iG
Mineirão deu prejuízo mesmo com grandes jogos em 2013, como a final da Libertadores

Está claro que o conteúdo oferecido é fundamental. O Flamengo joga contra o Léon pela Libertadores nesta quarta-feira e o ingresso mais barato é R$ 100. Estão esgotados. O maior desejo dos administradores de arenas é diminuir os estaduais e aumentar o número de jogos de fato relevantes. Caso do Mineirão em 2013.

O estádio de Belo Horizonte fechou 2013 com prejuízo de R$ 45 milhões. Ainda assim, segundo a Minas Arena, empresa que administra o estádio, o saldo é positivo. “Com relação à lotação dos estádios, a média de público do Mineirão em 2013 (acima dos 32 mil pagantes por partida) foi a maior do estádio nos últimos 10 anos, desde a obrigatoriedade pelo Estatuto do Torcedor da divulgação dos borderôs”, disse a empresa por nota. Desconsiderando os jogos da Copa das Confederações, a média cai para 29 mil por jogo, a maior desde 2003.

A empresa reconhece, contudo, que a ótima temporada feita por Cruzeiro e Atlético-MG em 2013 colaborou para a média ser alta. E até o setor que normalmente aparece vazios em jogos pequenos, no centro do campo, lotou. “Por contrato, os ingressos do setor premium do estádio, comercializados pela Minas Arena, devem ter o valor superior ao cobrado pelo Cruzeiro, para que não haja concorrência com o clube”, informa a Minas Arena. O Atlético jogou como mandante apenas duas vezes no estádio no ano passado e prefere mandar seus jogos no Independência. 

A rivalidade local dos clubes tem dificultado a relação com as novas arenas. Em Salvador, por exemplo, o Bahia adotou a Arena Fonte Nova, mas o Vitória, não. Por mais que seja rentável atuar no estádio de Copa do Mundo, o Vitória prefere investir no Barradão a atuar no estádio que historicamente sempre esteve ligado ao seu rival.

Fonte Nova recebe mais eventos além de jogos de futebol e consegue diminuir prejuízo
Ag. BAPRESS / Divulgação
Fonte Nova recebe mais eventos além de jogos de futebol e consegue diminuir prejuízo

"O Barradão não será padrão Fifa, mas atenderá o que o clube precisa", disse o presidente Carlos Falcão em evento da revista Carta Capital em São Paulo no início de março. A administração da Fonte Nova insiste em ter o Vitória como parceiro, mas o clube não pretende fazer do estádio a sua casa. 

Nos jogos do Campeonato Brasileiro de 2013, aproximadamente 400 mil torcedores estiveram na Fonte Nova com média de quase 20 mil pagantes por partida, superando em 33% a média do campeonato, que foi de quase 15 mil por jogo. Neste mês o estádio completou um ano da sua inauguração.

“Não foram poucos os desafios encontrados neste primeiro ano de operação, mas nossa equipe trabalha dia após dia para oferecer sempre o melhor ao nosso público”, disse Marcos Lessa. presidente da Itaipava Arena Fonte Nova. O estádio foi palco de 38 eventos, entre eles a gravação de DVD da cantora Ivete Sangalo. Eventos como esse ajudaram o estádio a não fechar o ano no prejuízo, mas não garantiram o lucro esperado para um equipamento deste porte. 

O maior desafio para as novas arenas brasileira é ter uma fidelização do torcedor, como acontece nos estádios europeus. A cultura do "season ticket", em que um torcedor pode comprar antecipadamente ingressos para todos os jogos do seu time no ano ainda não está arraigada no país. 

Estudo da Trevisan Escola de Negócios aponta que os dez maiores estádios europeus faturam cinco vezes mais que os dez maiores brasileiros. Em média, os jogos no Brasil têm 4,6 mil espectadores, um número baixo no país do futebol. A taxa de ocupação dos campeonatos nacionais foi de 39% no Brasil , frente a 95% na Inglaterra e na Alemanha.

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